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	<title>Instituto Millenium &#187; Artigos</title>
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	<description>Instituto Millenium - Democracia, Economia de Mercado, Estado de Direito e Liberdade.</description>
	<pubDate>Sun, 21 Mar 2010 16:01:01 +0000</pubDate>
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		<title>Fechando as cortinas do palco</title>
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		<pubDate>Sun, 21 Mar 2010 16:01:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Convidado - Gaudêncio Torquato</dc:creator>
		
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		<category><![CDATA[Democracia]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Na arte dramática geralmente é assim: um ator sai de cena quando a idade lhe rouba o brilho de grandes&#160;&#187;</p>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Na arte dramática geralmente é assim: um ator sai de cena quando a idade lhe rouba o brilho de grandes interpretações. O velho artista já não tem forças para resistir à dura labuta dos exercícios que enlevam plateias e elevam a arte da representação. Na arte política, o ator geralmente sai de cena quando apupado pela plateia ou flagrado em peças desonestas. São raros os casos em que o ator é consumido pelos rigores do tempo. No mais das vezes, o abandono do palco é imposto por circunstâncias, muitas originadas na conduta do próprio ator. Na era do Estado-espetáculo, o artista da representação política tem vida curta. A mesma gangorra que o faz subir aos píncaros da fama o faz desmoronar. Num átimo de segundo as luzes se apagam e a fosforescência vira breu. José Roberto Arruda, ex-governador do Distrito Federal, há pouco considerado o melhor perfil para compor como vice a chapa de José Serra, que o diga.</p>
<p>A ascensão e a queda dos políticos, porém, não têm como motivo apenas fatores de ordem pessoal. A evolução do conceito de política, ao longo dos séculos, tem contribuído para mudar valores.</p>
<p>De ciência mais suprema na era aristotélica, cuja finalidade era buscar a felicidade coletiva por meio das instituições do Estado, a política, nos tempos modernos, virou empreendimento. Sua tarefa missionária cedeu lugar à ação corporativa.</p>
<p>O motivo?</p>
<p>Núcleos e células especializadas tomam o lugar da sociedade de massas. O conceito de bem comum é repartido entre compartimentos, classes sociais e categorias profissionais. Cada uma com demandas específicas e, não raro, com posicionamentos díspares sobre temáticas globais. Nesse palco atuam os atores da nova política. Seu ideário é recheado de termos como pragmatismo, perdas e ganhos. De missionários a serviço da felicidade coletiva vestem o figurino de advogados de partes da sociedade. Não se quer dizer que a nova representação seja ociosa ou inócua. A nova classe se empenha para satisfazer demandas de grupamentos sob sua representação. Mas o desempenho do papel é árduo. Primeiro, porque o custo para galgar à representação é alto, principalmente num país de cultura patrimonialista, com o carimbo do &#8220;toma-lá-dá-cá&#8221;. Segundo, porque a alta competitividade exige que o pleiteante a cargo político saia a campo com bala para vencer a guerra.</p>
<p>Sob esse parâmetro, é de supor que muitos atores pensem em abandonar o teatro. Sob a convicção de que a política perdeu o antigo encanto. São raros, porém, os que tomam decisão nesse sentido. (Um bom tanto ainda enxerga na atividade escada para subir na vida.)</p>
<p>Na última semana, dois casos chamaram a atenção: as decisões dos deputados Roberto Magalhães (DEM-PE) e José Eduardo Martins Cardozo (PT-SP). Ao decidirem dar as costas ao Parlamento, depositam uma bandeja de perguntas sobre a mesa da política. Que razões levam dois deputados do chamado alto clero a mandar às favas a esfera parlamentar? Por que um integrante da cúpula do partido que comanda o poder desiste da vida congressual? Por que um ex-governador de Estado se diz &#8220;desestimulado&#8221; a permanecer na vida pública?</p>
<p>Um estudo publicado pela pesquisadora Renata Florentino na Revista de Sociologia e Política, há alguns anos, alinha algumas hipóteses: envolvimento em escândalos; partidos débeis; falta de recursos para bancar campanhas cada vez mais disputadas e caras; pessoas em idade avançada, que cedem lugar a sucessores; políticos de primeiro mandato que não gostaram da experiência; participação em grupos que esgotaram sua influência no jogo político; suplentes sem votos e com tênue experiência política; empreendedores do campo privado que voltam aos negócios; mais tempo para se dedicar à família.</p>
<p>Das motivações acima, apenas a questão dos recursos poderia ser significativa, pela referência que o deputado paulista fez na carta aos eleitores em que diz não se sentir &#8220;confortável em disputas decididas cada vez mais por recursos financeiros&#8221;. O dirigente de um partido forte e gordo, vale dizer, não teria dificuldade de angariar recursos para uma tranquila reeleição. Portanto, o desabafo deve ser entendido como crítica à forma atravessada de fazer política. O mesmo se pode dizer da frustração manifestada por Magalhães, ao denunciar que &#8220;o Brasil caminha para se transformar no país do partido único, o partido do poder&#8221;. Os argumentos, evidentemente, merecem aplausos. A política mercantilizada, sob patrocínio do absolutismo do partido único, ameaça a saúde da democracia.</p>
<p>Algo, porém, parece destoante. A desistência do parlamentar paulista se dá no momento de mais uma bateria de críticas sobre o seu partido. Nem bem o &#8220;Arrudagate&#8221;, que resvala sobre o DEM, sai das manchetes, emerge mais um foco de incêndio sobre o PT: a denúncia de desvios na Bancoop - a Cooperativa Habitacional dos Bancários - e em fundos de pensão. Com seu gesto pretende mostrar desconforto com a onda de eventos negativos que assola a fisionomia partidária? Como pode justificar a saída da vida parlamentar e a permanência na vida política? Receio de que atitude mais radical poderia prejudicar a candidata Dilma Rousseff? Colecionador de utopias e sonhos, como se diz, conseguirá lutar por eles fora da maior trincheira, que é a Câmara dos Deputados?</p>
<p>Quanto ao ex-governador pernambucano, é possível que o afastamento da vida pública, além de pouca munição para enfrentar o confronto regional, tenha como razão maior a crise que sufoca o DEM.</p>
<p>Ao darem adeus à vida no Parlamento, os dois deputados dão sinais de que há muito desconforto, frustração e decepção sob as cúpulas do Congresso Nacional. Nunca foi tão necessário fazer a tão propalada reforma política.</p>
<p><em>(&#8221;O Estado de SP&#8221; - 21/03/2010)</em></p>
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		<title>Não doe para o Haiti</title>
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		<pubDate>Sun, 21 Mar 2010 03:05:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Convidado - Demétrio Magnoli</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>

		<category><![CDATA[Transparência]]></category>

		<category><![CDATA[Corrupção]]></category>

		<category><![CDATA[Haiti]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Estarrecido, como todos nós, pela tragédia humana do Haiti pós-terremoto, um amigo converteu a celebração de seu aniversário em evento&#160;&#187;</p>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Estarrecido, como todos nós, pela tragédia humana do Haiti pós-terremoto, um amigo converteu a celebração de seu aniversário em evento de captação de doações para os haitianos. O dinheiro arrecadado não chegará nunca às pessoas que perderam o quase nada que tinham. Será desviado para financiar os intermediários entre o mundo e o devastado país caribenho: as ONGs internacionais, às vezes associadas à diminuta, cleptocrática elite haitiana. Já era assim antes do terremoto. Piorou depois.</p>
<p>Estado despido de soberania, o Haiti é um protetorado da ONU governado pelas ONGs. Obviamente, existem ONGs bem-intencionadas, mas não é esse o ponto. O experimento ultraliberal de abolição da soberania e do autogoverno equivale à anulação da cidadania dos haitianos. As pessoas não têm direitos, a não ser o de aguardar na fila até que o funcionário de uma ONG lhes estendam um prato de comida. É assim há anos, bem antes do terremoto.</p>
<p>A soberania haitiana acabou junto com sua recente, turbulenta democracia, em fevereiro de 2004, quando forças americanas e francesas sequestraram o presidente Jean-Bertrand Aristide e o depositaram na República Centro-Africana. Naquele momento, a pedido de George W. Bush, o Brasil assumiu a liderança da Missão das Nações Unidas de Estabilização do Haiti (Minustah). A ONU não restaurou a democracia, mas forneceu cobertura política e sustentação militar para a instalação de um arremedo de governo emanado de eleições sem liberdade. Em seis anos, realizaram-se uma eleição presidencial e duas parlamentares. Nenhuma teve a participação de Aristide, compulsoriamente exilado, nem de sua organização, a Fanmi Lavalas, o maior partido haitiano, impedido de concorrer por chicanas burocráticas do comitê eleitoral. É como se o PT fosse proibido de disputar eleições no Brasil.</p>
<p>Politicamente, o Haiti atual é fruto do protetorado da ONU. Operam no país 9 mil ONGs, uma taxa per capita inigualada em qualquer outro lugar. Na &#8220;república das ONGs&#8221;, mesmo antes do terremoto, não existia nada parecido com um Estado e quase nenhum sinal de serviços públicos. Perto de 85% das crianças estudam em escolas privadas. O transporte público é privado, assim como a distribuição de água. Contam-se 6 mil policiais em todo o território, mas 15 mil agentes de empresas de segurança. Os serviços de saúde são, na sua maioria, operados por empresas privadas. O Hospital Geral de Porto Príncipe, um dos raros estabelecimentos públicos, encontra-se circundado por clínicas e farmácias privadas, de propriedade dos médicos do hospital. Nenhuma das empresas dedicadas a fornecer serviços públicos está submetida a agências estatais de vigilância. Mas virtualmente todas atuam como tentáculos diretos ou indiretos das ONGs.</p>
<p>Aquilo que se faz passar por um governo nacional não passa de uma coleção de despachantes das entidades privadas internacionais. Todos os ministros haitianos têm conexões com os conselhos locais das ONGs. Muitos deles exercem funções de conselheiros de diversas ONGs. Até o Viva Rio, uma ONG brasileira muito menos poderosa que a britânica Oxfam ou a americana Care, conta com os préstimos de um ministro. A nação sem Estado, sem governo e sem democracia transformou-se em reserva de caça dessas organizações, que funcionam como lagoas de captação dos financiamentos de instituições multilaterais e das doações internacionais. Ninguém conhece de fato os orçamentos dos entes estrangeiros engajados na obra humanitária de salvação dos haitianos.</p>
<p>Um alto oficial das forças brasileiras da Minustah narrou, num encontro acadêmico, um revelador episódio singular. Anos atrás, uma ONG decidiu limpar um canal de águas pluviais a céu aberto de Porto Príncipe que estava entupido por lixo residencial. O oficial militar argumentou que a iniciativa seria inútil, pois inexistia serviço de coleta de lixo e os residentes, encapsulados em moradias de 13 metros quadrados, não tinham alternativa para se livrar do lixo. Os responsáveis ongueiros retrucaram que, após a limpeza, a comunidade se encarregaria de conservar o canal desimpedido. A teoria subjacente é que o Haiti não precisa de Estado, mas da cooperação entre as ONGs e o povo. Meses depois, o canal estava novamente entupido.</p>
<p>O Haiti das imagens da TV é uma massa homogênea de miseráveis salpicada por gangues criminosas. O Haiti de verdade é diferente. O país tem intelectuais, escritores e uma imprensa sem dinheiro, mas com ideias. Entre os haitianos há profissionais qualificados em quase todas as áreas, da medicina à engenharia, passando pela educação e pelas letras. Eles só têm trabalho quando conseguem ingressar na rede das ONGs.</p>
<p>Existe diferenciação social no Haiti. De um lado, em enclaves patrulhados por forças privadas, reside uma elite muito rica, que não participa diretamente da vida política, mas exerce poder por meio de figuras interpostas e beneficia-se da pervasiva, assombrosa corrupção oficial. De outro, nos EUA existe uma classe média formado por exilados haitianos que partiram como reação à absoluta ausência de segurança jurídica na sua pátria. Os cerca de 600 mil imigrantes haitianos nos EUA não investem no Haiti, pois temem perder seus modestos patrimônios, mas enviam dinheiro aos familiares. Os miseráveis das paisagens exibidas na TV subsistem, essencialmente, com as rendas transferidas pelos exilados, que representam algo como um quarto do PIB e circundam o sistema de desvio de recursos das ONGs.</p>
<p>Nos impérios europeus do século 19, as administrações coloniais dedicavam-se a subjugar os &#8220;nativos&#8221;, mas ao menos implantavam serviços públicos básicos, em geral de baixa qualidade. No Haiti sob protetorado da ONU, nem isso se faz. O povo deve mendigar às ONGs cujas sedes ficam em Washington, Paris, Ottawa ou no Rio de Janeiro. Não doe para o Haiti. Você estará doando para as ONGs.</p>
<p>Fonte: Jornal &#8221; O Estado de S. Paulo&#8221; - 18/03/10</p>
<p><span style="font-size: x-small; font-family: Arial;"></span></p>
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		<title>Vamos retaliar (os nossos consumidores)</title>
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		<pubDate>Sun, 21 Mar 2010 03:05:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Comunicação Millenium</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>

		<category><![CDATA[Eficiência]]></category>

		<category><![CDATA[Retaliação Estados Unidos]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Brasil ganhou da Organização Mundial do Comércio (OMC) o direito de retaliar os EUA em US$ 829 milhões, por conta&#160;&#187;</p>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Brasil ganhou da Organização Mundial do Comércio (OMC) o direito de retaliar os EUA em US$ 829 milhões, por conta dos subsídios do governo norte-americano à produção e exportação de algodão. A retaliação preparada pelo governo brasileiro estabelece, em princípio, o aumento da alíquota de importação de 102 produtos, conforme publicado no Diário Oficial da União no último dia 8 de março. Entre esses produtos destacam-se o próprio algodão (inclusive tecidos de), trigo, automóveis, equipamentos eletro-eletrônicos, medicamentos, aparelhos e próteses ortopédicas, pneus, complementos alimentares, cosméticos, leite em pó e produtos químicos.</p>
<p>&#8220;Faz parte do jogo do comércio internacional&#8221;, foi o comentário que mais ouvi a respeito do assunto. Pode ser. Mas será que este jogo vale a pena?</p>
<p>Para efeito de raciocínio, imagine o leitor que o governador de São Paulo decidisse &#8220;proteger&#8221; os empregos da indústria automobilística de seu estado, concedendo alguma isenção fiscal às montadoras paulistas. Agora imagine que, sentindo-se prejudicada pela concorrência desleal, a FIAT mineira resolvesse pressionar o governador daquele estado para que tomasse providências. E este, pressionado pelo forte lobby, resolvesse &#8220;retaliar&#8221;, sobretaxando uma centena de produtos fabricados em São Paulo, a fim de pressionar seu colega paulista a voltar atrás.</p>
<p>Há alguma lógica econômica nesse tipo de política de guerra? Sacrificar a maioria dos consumidores para beneficiar meia-dúzia de produtores é justo?</p>
<p>O primeiro aspecto que chama a atenção é a utilização do termo &#8220;retaliação&#8221;. É sugestivo que os governos, e até uma organização supostamente criada para promover o livre-comércio entre nações, usem este tipo de linguagem bélica. Sim, pois não há nada mais pacífico do que o comércio entre indivíduos e empresas. Realizado de forma voluntária, o comércio é, ao contrário do que supõem esses senhores da guerra, um fortíssimo indutor da paz. O comércio constrói pontes, estradas, portos, aeroportos. O comércio une os povos através de um fim comum, que é a vantajosa troca de produtos e serviços. É paradoxal, portanto, que os governos imponham barreiras ao livre-comércio entre cidadãos e empresas como se estivéssemos em meio a uma guerra, quando na verdade ninguém compra ou vende nada senão porque assim deseja, ou melhor, porque considera a transação vantajosa.</p>
<p>A riqueza de uma nação se mede pela quantidade de produtos e de serviços disponíveis para as trocas. Portanto, quanto mais abundante for o mercado, não importa a proveniência dos bens, maior será a riqueza e o conforto dos indivíduos. Não por acaso, durante a guerra, a primeira coisa que o seu inimigo tentará fazer é barrar a chegada de suprimentos até você, bombardeando e inutilizando suas linhas de suprimento (ferrovias, rodovias, portos, etc.). É incrível, portanto, que em tempos de paz os nossos próprios governos procurem fazer exatamente aquilo que um inimigo faria em tempo de guerra: criar barreiras para a livre circulação de mercadorias.</p>
<p>Churchill costumava dizer que a diferença entre um estadista e um demagogo é que o horizonte deste são as próximas eleições, enquanto o daquele são as próximas gerações. Eis porque o protecionismo, malgrado amplamente refutado pela boa teoria econômica, continua tendo grande apelo entre os políticos.</p>
<p>No caso em questão, o governo brasileiro pretende compensar um erro do governo americano (que pune seus cidadãos fazendo-os bancar, por meio de subsídios, meia-dúzia de produtores ineficientes) castigando os seus próprios cidadãos. O aumento de tarifas de importação encarece os produtos, tornando-nos todos um pouco mais pobres. A fim de beneficiar alguns poucos produtores locais de algodão e os trabalhadores empregados naquela indústria, o Governo Lula resolve punir todos os consumidores, indiscriminadamente, através do aumento de preços.</p>
<p>As trocas e o comércio em geral nada mais são do que uma consequência lógica do processo de divisão do trabalho. Quanto mais amplo for este processo, mais benéfico ele será para todo mundo, principalmente em função da utilização das vantagens comparativas de forma global. Como vislumbrou Adam Smith, o objetivo final de toda a atividade econômica é o consumo. O trabalho é somente o meio utilizado para alcançarmos esse objetivo. Eis aqui, em linhas gerais, o âmago do sofisma protecionista: toda a sua argumentação está calcada na priorização do trabalho, em detrimento do consumo, ou seja, na priorização da atividade meio, em detrimento da atividade fim.</p>
<p>O foco da política econômica no trabalho e na produção, e não no consumo, está na raiz da maioria dos problemas econômicos de um país. É a produção que deve estar voltada para o consumo, para as necessidades e anseios do consumidor, e não o inverso, como pretendem muitos. Fazer do consumidor um mero instrumento para beneficiar a produção e, consequentemente, o trabalho local, é uma estupidez.</p>
<p>Quando o governo americano subsidia um determinado produto sob o argumento de que está protegendo empregos e a indústria local, o que ele está fazendo, efetivamente, é transferir renda do consumidor (contribuinte) para o produtor. A própria premissa de que se estaria preservando empregos domésticos através do subsídio é equivocada, pois enquanto os consumidores estão pagando mais impostos para beneficiar aqueles produtores, estão deixando de consumir outros bens e privando de emprego outras categorias de trabalhadores dentro da mesma economia.</p>
<p>Em resumo, a ação demagógica do governo, metendo o bedelho onde não deveria, gerou os seguintes resultados: transferiu renda dos consumidores para determinados produtores; protegeu uma indústria deficiente e ineficiente; manteve alguns empregos numa certa região em detrimento de outros tantos em outra região; desestimulou investimentos novos em outras áreas da economia e deixou vários consumidores insatisfeitos e mais pobres.</p>
<p>Em resumo, devemos incentivar a escassez, no lugar de facilitar a abundância? Devemos incentivar e aplaudir as leis protecionistas, que operam dentro da lógica perversa de que a riqueza de uma nação é inversamente proporcional à quantidade de produtos e serviços disponíveis?</p>
<p>Responda você mesmo, estimado leitor.</p>
<p>Eu, definitivamente, acho que não devemos retaliar ações equivocadas de terceiros punindo os nossos próprios cidadãos, seja aumentando tarifas ou mesmo proibindo a entrada de alguns produtos. Essa atitude, além de burra, é extremamente injusta.</p>
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		<title>Cinismo &#038; indignação</title>
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		<pubDate>Sun, 21 Mar 2010 03:05:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Roberto DaMatta</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>

		<category><![CDATA[Transparência]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Uma grande antropóloga inglesa, Mary Douglas, escreveu um livro capital, intitulado Pureza e Perigo. A tese é que quanto mais&#160;&#187;</p>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Uma grande antropóloga inglesa, Mary Douglas, escreveu um livro capital, intitulado Pureza e Perigo. A tese é que quanto mais puro e inocente, mais sujeito a despudores, pecado e sujeira. Há, como sugere Mary Douglas, uma complementaridade entre essas oposições, de tal sorte que quanto mais se salienta um lado, mais o seu contrário adquire força como pano de fundo ameaçador e potencialmente intrusivo. O povo escolhido é, como o cordeiro de Deus, o mais perseguido. O mais pobre é, como diz a demagogia nacional, o mais honesto: a única categoria que precisa de governo! Claro que temos de descontar os saques realizados pelos &#8220;pobres&#8221; na ocasião dos terremotos do Haiti e do Chile. Não foi a desigualdade que os promoveu, mas a legitimidade que acoberta o abandono da lei em contextos onde vigora o &#8220;salve-se quem puder&#8221;. Como não há mesmo igualdade, exceto perante a lei, e mesmo assim como forma ideal, todo sistema está sujeito a saque. Quem não se lembra dos &#8220;verões quentes&#8221; ocorridos em 1964, 65, 66, 67 e 68 em, respectivamente, Nova York, Los Angeles, Cleveland, Newark e Detroit?</p>
<p>Do mesmo modo e pela mesma lógica relacional ou hierárquica, o mais brilhante e generoso é o que mais provoca inveja. O defeito de ter sucesso no Brasil, denunciado por Tom Jobim, é fácil de ser sociologicamente resolvido. Numa sociedade onde tudo tem dono e basta ser filho desta ou daquela família para ter sucesso, os bens já estão divididos. O sucesso que machuca é o êxito inesperado, como o dos jogadores de futebol e o de alguns artistas e intelectuais enviesados que não fazem parte de certas turmas, partidos e patotas.</p>
<p>Se você acha que estou exagerando, leia a história do bíblico José, traído pelos irmãos e vendido a um mercador. Não foi por acaso que ele se transformou num grande decifrador de sonhos, pois quem tem seus sonhos esmagados pelo ressentimento e pela arrogância dos que estão na sala do lado torna-se um especialista em ilusões.</p>
<p>No Brasil, há um elo nítido entre cinismo e canalhice. O larápio dos bens públicos, o bandido que usa o cargo oficial em beneficio próprio e o ocupa para realizar falcatruas; o salteador inominável que, em nome do povo e da igualdade, guarda dinheiro na cueca e na meia, arma esquemas para comprar adversários, diz que não sabia e se escuda no processo eleitoral, difamando-o de modo vil, sente-se ultrajado quando o pegam com a mão na massa. Mesmo quando um filme estampa sua atuação como chefe de uma quadrilha de altos funcionário que, na realidade, são meros larápios dos bens públicos.</p>
<p>Não é difícil responder por que o Brasil tem sido vítima dessa praga. É que o País tem sido uma grande feitoria. O governo geral e a vinda dos Braganças para este lado do mundo foi uma conveniência. Os portugueses jamais governaram, como revela, entre outros, o maldito Eça de Queiroz, igualitariamente. Para o estilo aristocrático e despótico de governo, o governante ? e as autoridades em geral ? não são sujeitos da lei. Quem faz e vigia o cumprimento das normas não precisa segui-las, diz um axioma do nosso sistema de poder.</p>
<p>Daí o elo espúrio. Ser puro é perigoso e a canalhice não produz vergonha, mas indignação! No Brasil, os roubos mais ofensivos são percebidos pelos seus praticantes como ofensas e calúnias, porque é uma obrigação não escrita roubar o erário e usá-lo a seu bel-prazer. Trata-se de um prêmio pela vitória eleitoral que trouxe ao eleito o Estado como um presente. O ladrão de galinha chora e pede desculpas, mas o ladrão dos recursos que foi encarregado de gerenciar; esse canalha sente-se ofendido e, imitando as grandes figuras políticas do nosso tempo e o próprio Jesus Cristo, diz que perdoa nossas suspeitas porque nós, os seus financiadores, não sabemos o que estamos fazendo! Chegam a rezar agradecendo a Deus pela propina.</p>
<p>A indignação dos ladrões públicos decorre da surpresa de descobrirem-se como sujeitos da lei e da impessoalidade. O famoso &#8220;eu não sabia&#8221; é revelador da estupefação dos poderosos quando os jornais denunciam que, numa democracia, a impessoalidade é uma decorrência da igualdade de todos perante as regras que não excluem ? como ocorre em Cuba e no Irã ? ninguém. Dessa impessoalidade como princípio decorre a própria dinâmica dos regimes democráticos, como mostrou, faz tempo, Tocqueville. A indignação dos canalhas e dos que usam e abusam do poder é a contrapartida dialética deste Brasil atual, onde vale tudo e a velha malandragem ultrapassa todos os limites.</p>
<p>Ser puro é perigoso. E ser corrupto e bandido? É ser inocente? Será possível que só existam inocentes no cenário das falcatruas nacionais?</p>
<p>Fico entre o comovido e o derrotado com essa reação indignada dos canalhas que, em seguida, adoecem. Que sociedade curiosa. Eis um sistema no qual o honesto é o merda e o ladrão em nome do povo sente-se ? por mais que roube ? injuriado e ofendido! Será porque ele tira o de todos que, até hoje, não é de ninguém? Será porque ele tem a licença eleitoral de ser o dono desta coisa chamada Brasil, que permanece sendo uma grande feitoria? Temo que sim!</p>
<p><span style="font-size: x-small; font-family: Arial;"></span></p>
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		<title>Os cubanos preferem mais ação e menos conversa</title>
		<link>http://www.imil.org.br/artigos/os-cubanos-preferem-mais-acao-e-menos-conversa/</link>
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		<pubDate>Sat, 20 Mar 2010 04:16:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudio Mafra</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>

		<category><![CDATA[Liberdades Individuais]]></category>

		<category><![CDATA[Claudio Mafra]]></category>

		<category><![CDATA[Cuba]]></category>

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		<description><![CDATA[<p><span style="color: #993300;">SOMOS CONTRA USAR A VIOLÊNCIA  PARA O REGIME COMUNISTA CAIR </span>!</p>
<p><a href="http://claudiomafra.files.wordpress.com/2010/03/angry_statue.jpg"><img style="display: inline; margin-left: 0pt; margin-right: 0pt; border-width: 0pt;" title="angry_statue" src="http://claudiomafra.files.wordpress.com/2010/03/angry_statue_thumb.jpg?w=680&#38;h=716" border="0" alt="angry_statue" width="680" height="716" align="left" /></a></p>
<p>O insuportável Celso Amorim resolveu adotar a cantilena cubana: se&#160;&#187;</p>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><span style="color: #993300;">SOMOS CONTRA USAR A VIOLÊNCIA  PARA O REGIME COMUNISTA CAIR </span>!</p>
<p><a href="http://claudiomafra.files.wordpress.com/2010/03/angry_statue.jpg"><img style="display: inline; margin-left: 0pt; margin-right: 0pt; border-width: 0pt;" title="angry_statue" src="http://claudiomafra.files.wordpress.com/2010/03/angry_statue_thumb.jpg?w=680&amp;h=716" border="0" alt="angry_statue" width="680" height="716" align="left" /></a></p>
<p>O insuportável Celso Amorim resolveu adotar a cantilena cubana: se os Estados Unidos suspenderem o bloqueio, tudo se resolve na ilha. É o contrário. Com o regime mais generoso, oferecendo produtos e melhor infra-estrutura, ele não se democratiza, apenas fica mais forte. É por essa razão que nenhum presidente americano, nem mesmo Obama, tomou essa medida. E depois de 51 anos com pessoas nascendo e morrendo dentro daquele inferno já podemos dizer que a ditadura se eternizou.</p>
<p>Se amanhã tivessemos um presidente peitudo nos Estados Unidos, e se ele resolvesse enviar um porta-aviões para as águas cubanas, e alguns caça-bombardeiros partissem para liquidar com os canalhas que roubam e atormentam o seu povo, o que vocês acham que aconteceria? Eu tenho certeza que seria a maior gritaria MESMO DAQUELES QUE SÃO CONTRA O REGIME CUBANO, no Brasil, e em todo o mundo: &#8220;Agressão! Selvageria! Prepotência! Unilateralismo! Civis mortos na brutal ação americana!&#8221;</p>
<p>Então, meus amigos, nós precisamos oxigenar os nossos cérebros, mesmo que eles sejam de mingau de tapioca. Vamos continuar  no papel de observadores &#8220;indignados”  enquanto se desenrolam mais 20 anos de escravatura em Cuba? Lembrem-se que a URSS acabou em 1990 e não aconteceu nada com os comunas cubanos. A ditadura se aguenta, se adapta, mesmo quando tudo ao seu redor desmorona.</p>
<p>Podemos nos dar ao luxo de ser contra ações militares. A razão é simplíssima: não moramos lá. E também não queremos a morte de inocentes em um bombardeio. E também não queremos “exceções”, &#8220;intervenções&#8221; cujas consequências no futuro desconhecemos, não é mesmo? Aceitamos tudo, menos brigar. Mesmo nas guerras justas. A verdade é que se trata de uma preguiça mental colossal que não nos permite fugir do escaninho confortável da nossa lógica criada durante a Guerra Fria. Mas, a Guerra Fria acabou! Não vai haver mais o fim do mundo com os mísseis atômicos!  Não existe mais ninguém para tomar as dores do comunismo em Cuba!</p>
<p>Perguntem aos cubanos o que eles preferem. Acabar com Fidel, Raúl, e corja, tornando-se homens e mulheres LIVRES, mesmo ao custo de  vidas de civis, ou permanecerem humilhados, aterrorizados, criando filhos em um regime de campo de concentração, permitida à visita de turistas para ver os curiosos espécimes que vivem naquele lugar perdido no tempo. Eles gostariam é de lutar, dar tiros, apoiando uma intervenção.</p>
<p>Fugir de Cuba é difícil, além de ser necessário muito dinheiro. Uma lancha para pegar pessoas na costa cubana e zunir para longe custa 10 mil dólares - o salário de um médico durante 40 anos -  e ainda existem as complicações de entrar escondido no país de destino. Os cubanos só conseguem fugir com a ajuda de parentes que estão no exterior. Mas, vamos deixar que o tempo resolva tudo, porque nós… não moramos lá!</p>
<p>Sabemos muito bem que não é o apoio de Lula, Chávez e outros, que mantêm o regime cubano. Tivemos Fernando Henrique, tivemos outros presidentes na América Latina e nos Estados Unidos. Como é que os malditos carrascos permanecem firmes e fortes, desafiando a opinião pública mundial? Talvez seja porque nós, e o mundo, apenas continuamos escrevendo e escrevendo convincentes textos onde mostramos a barbaridade que impera na ilha. Mas, e uma ação militar? De jeito nenhum! Não ousamos pensar nessa alternativa, embora não tenhamos justificativa moral, e mesmo política, para justificar a nossa inação. Que espécie de ordem internacional estamos defendendo?</p>
<p>Apenas os nossos governos militares trataram a ditadura cubana da maneira que ela merece. Os presidentes civis sempre se comportaram muito mal, desde Jânio Quadros, condecorando Che Guevara, até os dias de hoje. Já tivemos momentos de maior lucidez com respeito ao problema.</p>
<p>Os Estados Unidos atacaram os Balcans, Kosovo, e nós achamos muito natural porque os muçulmanos estavam sendo mortos, aquilo era genocídio. No entanto, pouco conhecíamos sobre o problema. Mas, o que está acontecendo em Cuba, aqui, do nosso lado, também é brutal, e estamos muito bem informados, sabemos do sofrimento dos cubanos, e nem assim deixamos de lado a nossa alienada trajetória pacifista.</p>
<p>E nós ficamos satisfeitos porque eles não assassinaram a Yoani Sánchez. Achamos que é o suficiente. Bando de pamonhas.</p>
<p>Se acontecer o milagre da eleição do Serra, eu desde já tenho uma sugestão: convocar uma reunião da OEA e propor um prazo para eleições na ilha, que seriam realizadas sob supervisão internacional. Caso contrário, teríamos uma força militar das Américas, pronta para a intervenção. Os Estados Unidos se encarregariam de mandar os aviões e liquidar o assunto. A Europa não faz assim? Não finge que é a OTAN, ou a ONU, e deixa os Estados Unidos fazerem o serviço sozinhos? Ah, acontece que a OEA não vai apoiar a proposta. É mesmo? Mas será a NOSSA proposta. Isso sim, vai ser bonito. Vamos nos redimir da política internacional de cafajestes que adotamos. Ficaríamos orgulhosos. E sermos contra Fidel muda um bocado de coisa no sistema interamericano. Já pensaram no alento, no fôlego para o pobre povo cubano, ter conhecimento de que até que enfim alguém está tentando fazer a coisa certa? Essa posição corajosa traria o respeito mundial para o Brasil e por suas aspirações de maiores responsabilidades na comunidade internacional. Exatamente o contrário de ficar apoiando Coreia do Norte, Congo, Sri Lanka, Mianmar, Sudão, Iran, Venezuela e outros países delinquentes. Claro que Serra romperia com  Chávez, e iriam para o congelador as nossas relações com Morales, e o Correa, e o Ortega e, sem dúvida, Fidel ficaria satisfeitíssimo, daria um pulo da cama do hospital, e somente de fraldas correria pelas ruas com um fuzil na mão aos berros de &#8220;patria o muerte&#8221; e…</p>
<p>Bom, o despertador tocou e eu acordei.</p>
<p><em>(Publicado em &#8220;<a href="http://claudiomafra.wordpress.com/2010/03/15/queremos-cuba-livre-e-feliz-mas/" target="_blank">Reflexões Radicais&#8221;</a>)</em></p>
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		<title>Políticas econômicas nacionais: divergências e convergências</title>
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		<pubDate>Sat, 20 Mar 2010 03:58:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Convidado - Paulo Roberto de Almeida</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>

		<category><![CDATA[Eficiência]]></category>

		<category><![CDATA[Paulo Roberto de Almeida]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Dois dos desenvolvimentos mais auspiciosos nas últimas duas ou três  décadas da história econômica mundial são a aproximação conceitual e&#160;&#187;</p>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Dois dos desenvolvimentos mais auspiciosos nas últimas duas ou três  décadas da história econômica mundial são a aproximação conceitual e a  gradual convergência das políticas públicas da área econômica dos  principais protagonistas da interdependência econômica contemporânea.  Com efeito, embora continue a haver enorme dispersão prática nas  políticas setoriais – relativas à distribuição de renda, estrutura  tributária, políticas industrial, agrícola, trabalhista ou educacional –  das grandes economias modernas, a divergência parece ser menor no que  tange aos fundamentos conceituais e aos aspectos operacionais das  principais políticas macroeconômicas – monetária, fiscal e cambial.</p>
<p>Certo, não se pode ainda falar de coordenação e convergência entre  essas políticas; mas, na presente fase de globalização financeira, a  distância entre os processos de formulação dessas políticas e o modo de  funcionamento das agências públicas encarregadas de sua implementação e  monitoramento constante quase não apresentam diferenças de natureza,  apenas contrastes quase superficiais. As razões se devem, em grande  medida, ao estreitamento dos horizontes possíveis de atuação dos  governos responsáveis, num contexto em que os mercados estão  praticamente unificados, seja pelo lado comercial, seja pela vertente  dos fluxos financeiros, seja ainda pelos mecanismos de cooperação  desenvolvidos desde o final da Segunda Guerra, com destaque para as duas  entidades de Bretton Woods.</p>
<p>O chamado ‘fim da História’ tem algo a ver com essa evolução positiva  das políticas econômicas nacionais: a inexistência de alternativas  credíveis aos sistemas de mercado – não necessariamente democráticos – e  o estreitamento da liberdade deixada aos governos soberanos na fixação  de políticas fundamentais do terreno econômico contribuíram para o  processo de aproximação e até de identidade entre essas políticas  básicas. Já não são mais possíveis, ou aceitáveis, as políticas de <em>beggar-thy-neighbour</em> (empurre a crise para o seu vizinho), muito comuns nas crises do  entre-guerras, assim como estão totalmente banidas as formas mais  nefastas de protecionismo comercial – controles quantitativos,  discriminação entre parceiros, subsídios diretos e restrições não  justificadas em bases legítimas – para nada dizer dos controles de  capitais (ainda praticados em escala mais restrita) e das  desvalorizações agressivas das moedas nacionais.</p>
<p>A despeito do que possam dizer economistas ‘alternativos’ e  intelectuais algo exóticos de países periféricos, que continuam a  denunciar de forma tão vaga quanto desprovida de fundamentação as  políticas ‘neoliberais’ dos países da OCDE, o fato é que essas políticas  vêm se convertendo no <em>mainstream</em> das políticas econômicas  básicas dos principais protagonistas da interdependência global. A  fundamentação para essa relativa homogeneidade de práticas e  instrumentos macroeconômicos parece constituir-se de um conjunto  uniforme de princípios e regras de cunho pragmático. Elas são as  seguintes: (a) embora a inflação seja sempre um recurso à disposição de  governos irresponsáveis, devido aos monopólios da emissão monetária e da  fixação dos juros básicos, as sociedades e grupos setoriais já não  aceitam mais ver o seu poder de compra erodido pela permissividade  emissionista de gastadores contumazes; (b) ainda que todos os eleitores  apreciem gastos públicos, especialmente em áreas sociais, os cidadãos  cada vez mais escolarizados dos tempos atuais sabem que eles serão  chamados a pagar a conta, de uma forma ou de outra, em algum momento do  futuro (juros da dívida pública, inflação ou diminuição das prestações  sociais); (c) por mais que os exportadores se esforcem para manter o  câmbio baixo, os cidadãos e governos tendem a preferir taxas realistas  ou até valorizadas, posto que elas ajudam no combate à inflação e dão  essa sensação de riqueza num mundo cada vez mais globalizado.</p>
<p>Por outro lado, mesmo com todos os protestos de antiglobalizadores  pouco racionais, e até de alguns governos populistas, o fato é que o  receituário padrão implementado pelo FMI e outras agências  intergovernamentais encontra cada vez mais aceitação entre os países  anteriormente contestadores de sua filosofia e formas de atuação. A  começar que, depois da implosão e virtual desaparecimento do socialismo,  as instituições de Bretton Woods se tornaram praticamente universais,  possuindo um corpo de associados provavelmente superior ao de membros da  ONU; por outro lado, as experiências fracassadas de estatismo  exacerbado, de fechamento ao investimento estrangeiro e de protecionismo  mais renitente deram lugar a políticas e práticas mais abertas e  compatíveis com o modelo OCDE de interdependência econômica; por fim, a  própria globalização se encarregou de premiar os inseridos e de punir os  recalcitrantes, com taxas de crescimento diversificadas e maior  estabilidade nos dados fundamentais das macroeconomias nacionais. Dessas  constatações emergiram a confluência de políticas e, alguns casos, até  convergência e coordenação.</p>
<p>Não se espera, porém, que o bloco das economias mais importantes –  representado em grande medida pelo atual G20 financeiro – adote um  receituário único de políticas macroeconômicas e setoriais, ou que todos  esses países passem a trocar receitas de liberalização entre si, para  sua maior integração no processo de globalização: governos  democraticamente eleitos ainda têm de responder a demandas  contraditórias de seus eleitores e suas políticas são tão divergentes  quanto as orientações filosóficas ou ideológicas dos líderes eleitos. Em  blocos mais restritos ou filosoficamente mais próximos – como o grupo  da moeda única da UE e o núcleo de economias mais avançadas da OCDE,  como o G7 – as diferenças entre essas políticas são mais de  circunstância ou de dosagem dos ‘remédios’ do que propriamente de  natureza essencial da prescrição efetuada.</p>
<p>Em resumo, a despeito de flutuações conjunturais e de objetivos  nacionais diferenciados, as políticas econômicas nacionais caminham para  maior convergência e identidade de propósitos, não para horizontes  muito divergentes entre si. A China, apontada por muitos como exemplo de  política nacional própria, que continua a manter um controle estatal  sobre as principais alavancas estratégicas de sua economia, caminha, a  despeito de tudo, para mais liberalização, não para menos: para todos os  efeitos práticos, a filosofia de suas políticas econômicas básicas é  neoliberal, não socialista ou estatizante.</p>
<p>Trataremos de algumas dessas políticas em um futuro ensaio.</p>
<p><em>(Publicado em &#8220;OrdemLivre.org&#8221;)</em></p>
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		<title>A &#8221;verdade coletiva&#8221; de Lula</title>
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		<pubDate>Sat, 20 Mar 2010 03:20:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Roberto Romano</dc:creator>
		
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		<category><![CDATA[Liberdades Individuais]]></category>

		<category><![CDATA[Transparência]]></category>

		<category><![CDATA[dissidentes cubanos]]></category>

		<category><![CDATA[liberdade]]></category>

		<category><![CDATA[Lula]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>No episódio que abalou a imagem do presidente - o símile entre presos cubanos em greve de fome e bandidos&#160;&#187;</p>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>No episódio que abalou a imagem do presidente - o símile entre presos cubanos em greve de fome e bandidos - não sigo os revoltados pelas suas frases. Agradeço por ele usar uma verdade insofismável sobre a sua atitude mental. Desconfio dos que, na tentativa de manter aparências, dizem ter Luiz Inácio da Silva cometido um &#8220;escorregão&#8221;. Se falam de escândalo, talvez acertem. O termo &#8220;escândalo&#8221; vem do grego &#8220;skadzein&#8221;, cujo significado é &#8220;mancar&#8221;. Ninguém nega que o presidente tenha &#8220;mancado&#8221; ao perder o freio decoroso na língua. Ele, no entanto, abriu sua alma, exibindo diante do Brasil e do mundo a ideologia que de fato o move.</p>
<p>O público já testemunhou outras distrações do hoje presidente. Em histórica fala a um jornal paulista, ele proclamou que &#8220;a liberdade individual está subordinada à liberdade coletiva. Na medida em que você cria parâmetros aceitos pela coletividade, o individualismo desaparece. Ou seja, não há razão para a defesa da liberdade individual. O que você precisa é criar mecanismos para que a grande maioria da comunidade possa participar das decisões&#8221; (Lula, 4/1/1986). E acrescentou: &#8220;A capacidade de você atender aos desejos individuais sem que isso prejudique os interesses coletivos é uma questão sobre a qual tenho dúvidas. Precisamos promover esta discussão dentro do PT.&#8221;</p>
<p>Segundo os debates partidários, amigos transformam-se em inimigos do coletivo ideado pelos petistas. &#8220;Você pode excluir o grande empresário, a multinacional, mas você precisa discutir se vai excluir o pequeno e médio proprietário do campo e da cidade.&#8221;</p>
<p>&#8220;Eu não quero&#8221;, disse o sindicalista, &#8220;ser o dono da verdade, o senhor da razão&#8221;. A tolice torna-se ameaçadora no complemento da frase: &#8220;Eu tenho uma verdade que está subordinada à verdade coletiva.&#8221; Treblinka, Auschwitz, o Gulag e Cuba resultam de tais &#8220;verdades coletivas&#8221;. Segundo aquela doutrina, um preso político cubano só pode ser bandido, pois vai contra a verdade, propriedade do Estado.</p>
<p>A exclusão dos inimigos (todos os que não se encontram no partido) se enraíza na cultura petista. Mas após derrotas acachapantes, aconselhado por especialistas em marketing político, Lula maquiou a fala dogmática. Chegaram as alianças eleitorais, a persuasão dirigida aos setores médios e, last but not least, o elo com setores da imprensa. Assustar o grande empresário, a multinacional, além do pequeno e médio proprietário do campo e da cidade, perceberam os petistas, era receita de fracasso. Surgia o esboço do &#8220;Lulinha paz e amor&#8221; e da Carta ao Povo Brasileiro. Líderes como Antônio Palocci ensaiaram privatizações &#8220;neoliberais&#8221; em seus domínios. O aço totalitário se cobria com o chantilly propagandístico. Era superada a era das pizzarias e padarias para o PT. Começava o tempo dos bons restaurantes, das garrafas de Romanée Conti. Oligarcas passaram a ser convidados de honra no convescote: Antonio Carlos Magalhães, José Sarney e outros receberam novos títulos, pois garantiam a governabilidade&#8230;</p>
<p>A encenação convenceu. Grandes empresas, multinacionais, pequenos e médios proprietários, boa parte da imprensa, todos azeitados pelos dividendos de uma política econômica antes execrada no petismo, aplaudiram o &#8220;novo PT&#8221;. Com as loas ao suposto bom senso, carisma e quejandos de Luiz Inácio da Silva, entoadas no Congresso pela oposição, veio o apoio às iniciativas governamentais na economia e adjacências. Quanto maior o sucesso entre os antigos inimigos, maior o cinismo dos petistas em relação a si mesmos. Discutir a divida externa, romper com o Fundo Monetário Internacional (FMI), controlar o capital estrangeiro? Bravatas. Política radical e socialista? &#8220;Nunca fui de esquerda&#8221;, asseverou o líder, aplaudido em delírio.</p>
<p>Passaram os dias e, arrogantes, seguros de manter o mando, os petistas começaram a soltar os demônios reprimidos. Já no episódio do &#8220;mensalão&#8221; sobraram raios e trovões contra a &#8220;imprensa burguesa&#8221;, os empresários, os promotores públicos. Mas o presidente foi à TV e pediu desculpas, dizendo não saber a causa de suas escusas. Agora confessa: sabia. Chegaram os aloprados, os projetos de mordaça na mídia, a defesa de Sarney a todo custo (inclusive ao preço da censura, como no caso deste jornal) e as unhas ideológicas apareceram, somadas aos caninos. Lenta e inexorável, ressurge a busca de uma hegemonia ditatorial mantida pelos escravos voluntários, os militantes. Estes tudo fazem para garantir o poder aos donos do partido. Quanto mais seguros de que ficarão no Planalto por mil anos, maior a grosseria dos ataques contra quem não dobra espinha e ouvido às ordens palacianas.</p>
<p>Os cosméticos tombam da face governamental. A lógica de Luiz Inácio da Silva é a mesma, desde 1986. Naquela época importava defender os direitos humanos (nunca incluídos os presos de Cuba) para manter a coesão interna do PT, no qual ombreavam stalinistas e católicos, trotskistas e adeptos da ecologia. Os religiosos defenderam os direitos humanos contra a ditadura, foram adversários das violações em todos os países e sob qualquer ideologia. Quem defende direitos não escolhe ideologia a ser protegida. Mas, com a chegada do PT ao poder, os católicos desembarcam do navio. Ficam os adeptos da razão cabocla de Estado.</p>
<p>A fala do presidente contra os presos cubanos, assimilando-os a bandidos, tem uma gênese mais ampla do que o PT. Ela se enraíza nas purgas nauseantes, como nos Processos de Moscou, em 1936. Ali não existiam dissidentes, mas terroristas. Só possui direito quem se abriga à sombra do partido. O resto é inimigo e&#8230; bandido.</p>
<p>Obrigado, Lula, por desvelar o que sempre esteve em seu íntimo. E por nos advertir sobre o que virá nos próximos dias.</p>
<p><em>(Publicado em &#8220;O Estado de SP&#8221; - 20/03/2010)</em></p>
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		<title>O cara não entregou</title>
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		<pubDate>Sat, 20 Mar 2010 03:05:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carlos Alberto Sardenberg</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>

		<category><![CDATA[Eficiência]]></category>

		<category><![CDATA[Liberdades Individuais]]></category>

		<category><![CDATA[Cuba]]></category>

		<category><![CDATA[Lula]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Há uma questão internacional para a qual a diplomacia de Lula poderia fazer a diferença: Cuba.</p>
<p>A ilha dos Castro é&#160;&#187;</p>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Há uma questão internacional para a qual a diplomacia de Lula poderia fazer a diferença: Cuba.</p>
<p>A ilha dos Castro é a última sobra da Guerra Fria e nota-se, pelo mundo afora, uma clara disposição de encerrar esse capítulo. Barack Obama já fez gestos na direção da normalização das relações com a ilha.</p>
<p>Mas falta a parte de Cuba. O pessoal espera que a direção cubana faça gestos na direção de uma abertura política e econômica. Ninguém está pedindo que o regime e o partido comunista cubano se imolem em praça pública. Mas que se movimentem no sentido de alguma distensão.</p>
<p>Lula tem a confiança de Fidel e Raúl Castro. Dispõe (ou dispunha) de credibilidade no governo americano e na comunidade internacional. O seu papel seria o de ajustar o ritmo das aberturas, garantindo a cada lado que um gesto positivo teria uma resposta igualmente favorável.</p>
<p>Por exemplo: Lula seria o portador de uma garantia aos Castro, pela qual a libertação dos dissidentes políticos corresponderia a medidas de liberação do comércio a serem tomadas por Obama.</p>
<p>Mas, para fazer esse papel, o presidente Lula e seus mais próximos assessores deveriam acreditar ou entender que o regime cubano precisa se abrir e caminhar no sentido da democracia.</p>
<p>Eis o obstáculo. Nunca se ouviu uma fala de Lula condenando ou fazendo alguma mínima restrição às práticas arbitrárias em Cuba. Até um certo momento, muita gente entendia que se tratava de tática. Lula não faria essa condenação em público para não perder seu acesso privilegiado aos Castro.</p>
<p>Mas, depois que o presidente brasileiro endossou a tese do regime cubano de que os dissidentes são terroristas ou bandidos comuns tentando subverter um governo legítimo, parece que não havia tática nenhuma.</p>
<p>Lula não se colocou no meio, na condição de fazer a ponte, mas ficou do lado cubano, agitando bandeiras e exigindo dos americanos que reconheçam seus erros e levantem o embargo unilateralmente. Nessa visão, o embargo é o responsável por tudo.</p>
<p>Como os cubanos não podem importar roupas dos EUA, o governo é obrigado a matar os dissidentes.</p>
<p>Aí não dá. Analistas que ainda apoiam a diplomacia de Lula dizem que ele faz isso para contrabalançar a ação de Chávez, ou seja, para impedir que o bolivariano assuma a liderança da esquerda latino-americana.</p>
<p>Mas o que Lula faz, nesse e em outros episódios, é alinhar-se concretamente com Chávez e com os regimes arbitrários pelo mundo afora.</p>
<p>Quais os resultados dessa diplomacia? Cuba continua isolada, pobre e sem perspectivas, especialmente depois que o preço do petróleo caiu e a Venezuela, já quase quebrando, não pode mandar mais dinheiro. O presidente Lula pode prometer um viaduto, uma usina de álcool, mas seus recursos econômicos não vão além disso.</p>
<p>(Cuba só vai sair do buraco quando os atuais exilados cubanos levarem seus capitais para a ilha).</p>
<p>Ahmadinejad continua buscando a bomba. Argentina e Uruguai continuam se desentendendo, assim como Colômbia e Venezuela. A Argentina limita as importações brasileiras.</p>
<p>A Bolívia de Morales e o Paraguai de Lugo só estão mais ou menos de bem com o Brasil porque Lula entregou os ativos da Petrobras e topou pagar mais pela energia de Itaipu.</p>
<p>E a diplomacia comercial? Países aqui da América Latina, como Chile, Peru e Colômbia, continuam fazendo acordos de livre comércio e implementando seus negócios com Estados Unidos, União Europeia e até China, enquanto o Mercosul não consegue avançar em nenhuma negociação. Reparem, o Brasil não lidera nem o Mercosul; na verdade, está paralisado pelas divergências dentro do bloco.</p>
<p>Honduras se normalizou, mas de um modo totalmente contrário ao que fez a diplomacia brasileira. E nem é preciso falar da suposta mediação entre Israel e palestinos.</p>
<p>Isso tudo é uma pena. Lula foi recebido com aplausos na comunidade internacional. O líder popular, da esquerda, chegava ao poder de uma grande nação, governava com democracia e boa política econômica. Eis o cara para ajudar a conduzir o mundo nessas direções. Mas ele foi para outro lado, como a comunidade internacional percebe. E lamenta.</p>
<p> </p>
<p>Fonte: Jornal &#8220;O Globo&#8221; - 18/03/2011</p>
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		<title>Relações exteriores</title>
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		<pubDate>Fri, 19 Mar 2010 03:19:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José Celso de Macedo Soares</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Artigos]]></category>

		<category><![CDATA[Democracia Representativa]]></category>

		<category><![CDATA[Liberdades Individuais]]></category>

		<category><![CDATA[política externa]]></category>

		<category><![CDATA[relações exteriores]]></category>

		<category><![CDATA[Relações Internacionais]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Tenho evitado discutir aspectos da política externa e  negociações internacionais do Brasil. Sigo o conselho que recebi de meu parente&#160;&#187;</p>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tenho evitado discutir aspectos da política externa e  negociações internacionais do Brasil. Sigo o conselho que recebi de meu parente José Carlos de Macedo Soares, duas vezes Ministro das Relações Exteriores do Brasil:<em> “Negociações internacionais são como o iceberg. A maior parte fica escondida”</em>. Mas, algumas posições e declarações do senhor Lula da Silva, a respeito, obrigam-me a algumas apreciações.</p>
<p>O Barão do Rio Branco, nosso grande chanceler, estabeleceu o principio de que a política básica do Brasil, nas suas relações internacionais, é a de não interferência nos negócios internos de outros países. Sábia política, ao contrario da dos Estados Unidos, que teima em interferir nos negócios internos de outros países. Dá como desculpa a preocupação com sua segurança que é sua fixação mórbida. Por isto, mantém uma infinidade de bases americanas ao redor do mundo, com infindáveis custos ao contribuinte americano. Mas, nem por isto consegue impedir ataques terroristas, como o de Setembro de 2001 às torres gêmeas em New York.</p>
<p>Sou de opinião que a política de Rio Branco é a acertada. Mas, vamos ao Senhor Lula. Em recente visita à Cuba, para abraçar seus amigos, os ditadores irmãos Castro, confrontado com a morte de elemento da resistência à ditadura, por ocasião de sua visita, nada disse, argumentando que não desejava interferir nos negócios internos de Cuba. Só age assim quando interessam suas matizes ideológicas. Prestigiou, com sua visita, regime ditatorial que, há mais de 40 anos, sufoca o povo cubano. Aliás, sempre contraditório. No caso de Honduras, foi mais do que clara a intervenção do governo brasileiro nos assuntos internos daquele país, tentando, com a cumplicidade de Hugo Chávez,  forçar o retorno de Zelaya á presidência, abrigando-o na embaixada brasileira. Apóia claramente as ditaduras de Chávez na Venezuela, Correa no Equador e Morales na Bolívia. No caso do Irã, se o governo daquele país insiste em realizar um programa nuclear sem a fiscalização da ONU, dá-lhe apoio. Quando Ahmadinejad foi eleito com suspeita de fraude, provocando protestos internos, Lula foi dos primeiros a vir em seu socorro, interferindo nos negócios internos de outro país. Agora mesmo, meteu-se na disputa entre a Argentina e a Inglaterra sobre as ilhas Malvinas (Falklands) procurando agradar seus amigos peronistas, os Kirchner. Que tal perguntar aos habitantes das Malvinas se eles preferem ser cidadãos britânicos ou argentinos? Os presos por motivos políticos no Irã e em Cuba, nunca ouviram do Senhor Lula palavras de protesto. É a política de dois pesos e duas medidas. Se o país é “amigo”, não importa que transgrida os direitos humanos. E poderia continuar citando várias de suas declarações desastrosas em matéria de política internacional.</p>
<p>Em país presidencialista, o Presidente da República é o responsável e mentor da política externa. É auxiliado, na matéria, pelo seu Ministro das Relações Exteriores, que o aconselha e é responsável pela máquina que vai executar as diretrizes decididas. Mas, no governo Lula temos a esdrúxula situação de termos dois Ministros do Exterior: um, o inefável Marco Aurélio Garcia, amigo de Chávez e outros do mesmo naipe, sentado no palácio presidencial, como assessor do Presidente para assuntos de política externa. Outro, Celso Amorim, conhecido por suas tendências antiamericanas, dirigindo o Itamaraty. Quem manda? Duvido que o Barão do Rio Branco aceitasse uma situação desta.</p>
<p>Política externa de um país é coisa muito séria. Não pode ficar aos cuidados de pessoas escravas de suas ideologias como Marco Aurélio Garcia ou com posições a priori contra ou a favor de determinados países, como Celso Amorim. Por isto, quando leio declarações estapafúrdias do senhor Lula da Silva em matéria de política externa, com graves repercussões à imagem do Brasil no exterior, não posso deixar de lembrar Francis Bacon, estadista inglês: <strong>“Nada há que seja tão prejudicial para uma nação como serem os espertos considerados sábios”</strong>.</p>
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		<title>Jornalismo é coisa séria</title>
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		<pubDate>Fri, 19 Mar 2010 03:10:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Judith Brito</dc:creator>
		
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		<category><![CDATA[Liberdade de imprensa]]></category>

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		<description><![CDATA[<p>Quando um cidadão compra um jornal, ele o faz porque confia nas  informações ali reunidas. Também porque leva em conta,&#160;&#187;</p>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quando um cidadão compra um jornal, ele o faz porque confia nas  informações ali reunidas. Também porque leva em conta, para a formação  de sua opinião, as análises desse jornal. Num mundo em que a tecnologia  tornou impossível consumir toda a profusão de dados que transita pelas  vias digitais, jornais seguem sendo a referência maior como fonte de  informações, como mostram pesquisas recentes feitas nos EUA. Na base  dessa confiança dos leitores, está a postura de responsabilidade e  independência dos bons jornais. Mas estão também pesados – e necessários  – investimentos.</p>
<p>O bom jornalismo, aquele que cumpre o papel  esperado por seus leitores, custa caro. Ele resulta de investimentos em  profissionais altamente qualificados, em viagens, em equipamentos de  última tecnologia, em comunicações, enfim em todo um complexo processo  que faz da produção jornalística uma indústria. Notícia confiável  precisa de investigação e apuração quase obsessivas.</p>
<p>O sustento  dos jornais vem de  assinaturas e da publicidade  paga. Os jornais que fazem a diferença necessariamente precisam atrair e  manter uma extensa gama de empresas anunciantes, porque esta é a  garantia de que podem sobreviver mesmo se alguns interesses privados ou  de governos forem contrariados. Publishers precisam ser capazes de  decifrar o enigma: como manter acima de tudo o interesse do cidadão e  seu direito à informação, mesmo que eventualmente perca alguns  anunciantes, suas fontes de receita?</p>
<p>É dessa forma que jornalismo  tem sido historicamente elemento fundamental na evolução política,  social e econômica. Informando, investigando, desvendando e propondo  caminhos, a imprensa livre se consolidou como sinônimo de democracia.</p>
<p>Com  a revolução da internet, as informações jornalísticas agora chegam aos  cidadãos – e cada vez mais – por seus computadores pessoais, notebooks e  celulares, numa maravilhosa ampliação que abre possibilidades  infinitas. É um salto para o futuro da democracia, na medida em que  multiplica de forma  exponencial aqueles que  passam a ter maior acesso às informações, consciência crítica e  interação com o mundo.</p>
<p>Mas esse fantástico processo de expansão  da divulgação corre sério risco diante do uso predatório de informações  jornalísticas por empresas de tecnologia, como as detentoras dos  mecanismos de busca de conteúdo na internet. Por meio dessas  ferramentas, elas se apropriam das informações que custaram muito  investimento e trabalho por parte das empresas jornalísticas e divulgam  gratuitamente essas informações, e ainda auferindo lucros com a  publicidade em seus sites. Nada remuneram aos jornais.</p>
<p>Num  cenário em que o consumo de informações jornalísticas vem migrando do  papel para o ambiente da internet, como poderão as empresas do setor  continuar investindo em sua tão qualificada produção, se não são  remuneradas por elas? Esta é uma questão crucial não apenas para as  empresas jornalísticas, mas para a própria qualidade das informações que  os cidadãos passarão a ter à sua disposição.  Crucial, portanto, para a  cidadania e a própria democracia.</p>
<p><em>(&#8221;Zero Hora&#8221; - 18/03/2010)</em></p>
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