Lembro-me, nos anos 80, quando a direita defendia efusivamente a democracia. Daí veio um sociólogo ou historiador de esquerda e escreveu um artigo, cujo título era algo como Democracia como Valor Universal, não me lembro ao certo. O sujeito não inovava, não descobria nada, apenas relatava o que via nas ruas, o crescimento dos movimentos sociais, como associações de bairros, de mães, negros, os primórdios do MST, ainda bem descentralizados, etc. e tal. Então, o desespero tomou conta. Ao invés da direita passar a propagandear sua visão de democracia, liberal, não, passou a negá-la. Este mal não é de nossa exclusividade, mas acredito que exageramos, ao invés de sermos propositivos, como atesta o Carlos, passamos a nos definir(!) pela oposição ao outro. Ora, ninguém define uma nuvem por “não é o céu”. Uma nuvem tem, ou deveria ter uma definição intrínseca. Que há? Quando a esquerda passar a ver valor na concorrência, na tradição, na privatização, na ordem etc., a direita passará a negar isto tudo só porque a esquerda admitiu estas e outras premissas como corretas?
O que falta não é ideologia, é foco.
(Publicado em “A Casa de Fenrir”)
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