Lâmpada recarregável
junho 27th, 2009 by Yoani SánchezfecharAutor: Yoani Sánchez
Nome: Yoani SánchezAcerca: Yoani Sánchez estudou durante dois cursos no Instituto Pedagógico a especialidade de Espanhol-Literatura. No ano de 1995, mudou-se para a Faculdade de Artes e Letras – com um filho nascido em agosto deste mesmo ano e terminou, depois de cinco cursos, a especialidade de Filologia Hispanica.
Se especializou em literatura latinoamericana contemporanea e apresentou uma incendiária tese intitulada “Palavras sob pressão. Um estudo sobre a literatura da ditadura na america latina”. Ao terminar a universidade compreendeu duas coisas: a primeira, que o mundo da intelectualidade e da alta cultura a repugnava e a mais dolorosa, que já não queria ser linguista.
Em setembro de 2000 foi trabalhar numa obscura oficina da Editorial Gente Nueva, enquanto chegava a certeza – compartilhado pela maioria dos cubanos – de que com o salário ganho legalmente não poderia manter sua família. De maneira que, sem concluir meu serviço social, pediu baixa e dedicou-se ao trabalho melhor remunerado de professora de espanhol – freelancer – para alguns turistas alemães que visitavam La Habana. Era a etapa (prolongada até os dias de hoje) em que os engenheiros preferiam dirigir um taxi, os maestros faziam o impossível para trabalhar no arquivo de um hotel e nos balcões de uma loja poderias ser atendido por uma neurocirurgiã ou um físico nuclear.
Em 2002 o desencanto e a asfixia econômica a levaram a emigrar para a Suiça, de onde regressou – por motivos familiares e contra a opinião de amigos e conhecidos – no verão de 2004.
Nesses anos descubriu a profissão que a acompanha até hoje: a informática. Se deu conta que o código binário era mais transparente que a rebuscada intelectualidade e que se nunca havia ido bem no Latim, ao menos poderia empreender com as compridas cadeias da linguagem html. Em 2004 fundou com um grupo de cubanos – todos radicados na Ilha – a revista de reflexão e debate Consenso. Três anos depois continua trabalhando como web master, articulista e editora do portal Desde Cuba.
Em abril de 2007 se enredou na aventura de ter um Blog chamado “Generación Y” que definiu como “um exercício de covardia”, pois a permite dizer neste espaço o que está vedado em sua ação cívica.
Vive em La Habana, com o jornalista Reinaldo Escobar – com quem divide a vida há quase quinze anos.Ver os posts do autor (156)

Espera-nos um verão inseguro, onde se anunciam cortes de eletricidade, alta de preços e até se prognostica uma dispersão migratória. Com certeza, muitos cubanos ante o dilema de solucionar suas dificuldades cotidianas ou tentar mudar algo, preferem se concentrar na sobrevivência pessoal. Organizam a escapada no âmbito das fronteiras nacionais, esquivando-se das leis ou – o que dá no mesmo – delinquindo. Não são só aqueles que entram pela janela do armazem à noite, os que roubam uma mochila de um turista inocente, mas também o lojista que frauda as faturas ou o guardião que viola o selo do recipiente que deveria proteger. Há uma forma de infringir as leis, socialmente aceita, que consiste em roubar do Estado. Dentro dela se move o garçom que aumenta os preços ou introduz no restaurante insumos adquiridos por sua conta para vendê-los como se fossem “da casa” e o comerciante que muda a lista de consumidores do mercado racionado para dispor das mercadorias que sobram.
A linha da ilegalidade passa também pelo encarregado da recepção de um hotel que – em conluio com o administrador – vende um quarto que nunca registra, o taxista que faz uma viagem sem ativar o taxímetro ou o torneiro que fabrica uma peça “por fora” do seu plano de produção. O alfandegário deixa passar objetos proibidos, o policial não aplica uma multa, a funcionária de um escritório municipal do instituto de moradia acelera um trâmite, o professor eleva uma qualificação e o inspetor torna-se cego frente as infrações que deve reportar.
Com os ganhos resultantes dessas “feitorias” reforçam as paredes da bolha que os protege dos discursos, porém que também os dissuade de protestar publicamente. O fruto de tantas ilegalidades termina sobre os balcões das lojas em divisas estrangeiras e materializa-se nessa lâmpada recarregável que este verão iluminará algumas casas. Entretanto, lá fora, que lhes importa que reine o apagão.
(Publicado em Geração Y)
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