China

29 de abril de 2009
Autor: Claudio Mafra

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(Fotos: Claudio Mafra. Reprodução permitida mediante citação dos créditos. Clique nas imagens para ampliá-las)

Introdução:
Depois da queda do Muro de Berlim, o fascínio dos intelectuais ocidentais pelos regimes comunistas sofreu um golpe duríssimo, mas não definitivo. Por quê? Paul Hollander, autor de Política Pilgrins, escreveu: “Fica difícil para as pessoas abandonar essas crenças e comprometimentos, principalmente quando foram feitos na juventude. O sentido de identidade deriva da posição política que elas assumiram”. Bem, eu sempre achei que o cérebro defende estas pessoas da desestruturação a que se refere o autor. Por exemplo, não é fácil você dedicar vinte, trinta anos da sua vida, fazendo mestrado, doutorado em Lacan e depois descobrir que ele é o típico picareta francês. A resistência em aceitar a verdade vem do cérebro, que protege a pessoa do sofrimento. Ela finge para si mesma que não sabe de nada e continua a sua vida lacaniana. Desta maneira não perde a sua identidade.

Eu também acho que os intelectuais de esquerda são fascinados pela violência. Não sendo capazes de, eles mesmos, tomarem alguma atitude radical para a defesa do que acham que deva ser o mundo e, possuindo um forte sentimento de autodepreciação por apenas ficarem atrás de um computador, só lhes resta o caminho da cumplicidade platônica com os movimentos violentos e a admiração por líderes que, mesmo cruéis, compõem a imagem aproximada do seu alter-ego. Foi assim antes do Muro e continua hoje, sob outras formas mais elaboradas. Um ótimo exemplo é a admiração mal disfarçada por Fidel Castro. De fato, qualquer um que se opuser aos Estados Unidos tem o seu apoio, por mais irracional que isso possa ser. Mão Tse-Tung, um mass murder, e a nostalgia pela antiga China socialista são bem vindos aos subterrâneos mais escuros do cérebro do intelectual de esquerda.

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CHINA

“A mentalidade tacanha e a falta de altruismo podem produzir uma personalidade desequilibrada que constantemente oscila entre dois extremos: um sentimento crônico de inferioridade e uma extrema arrogância. Em sua inferioridade, uma pessoa chinesa é um escravo; em sua arrogância, é um tirano. Raramente ele ou ela têm um sentimento saudável de amor-próprio. Em seu modo de inferioridade, todos são melhores do que ele, e quanto mais perto chega de gente com influência, mais largo se torna seu sorriso. Da mesma forma, no modo arrogante, não há ser humano na terra que equivalha a ele. O resultado desses extremos é um animal estranho com a personalidade dividida.”

Bo Yang
(O chinês feio), 1984

1 - Em frente à Cidade Proibida apresenta-se um guia. Explico que moro em Pequim e que não preciso de ajuda, mas quando diz que é professor universitário fico interessado. Melhor ainda, descubro que ele quer desabafar. Ao invés de fugir do assunto político vai logo dizendo que o país é uma ditadura, que passa fome, e que não existe liberdade de expressão. Subitamente pede para que eu me afaste, vira as costas e caminha devagar para junto dos outros guias. Depois volta e diz que ficou com medo de estar sendo vigiado por um agente do governo. No fim, se convenceu de que não é nada, e aproveita as minhas perguntas para falar mal dos poderosos. Ele me diz que eu não tenho idéia de como é ruim ser chinês, ganha pouquíssimo, é contra o regime; se pudesse, iria embora. Ao contrário da quase totalidade do seu povo, tem uma boa noção das mudanças que estão ocorrendo. Quando pergunto em quanto tempo ele pensa que a China se transformará em uma democracia, responde com muita confiança: “Uns 15, ou 20 anos”.

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2 - No caminho ladeado por estátuas da impressionante tumba Ming encontro uma espetacular modelo profissional. A melhor representante possível dos novos costumes da nova China. Vendo o meu entusiasmo ela faz um sinal para os seus fotógrafos, e gentilmente começa a posar para mim. Surpresas como essa não são raras para quem mora em Pequim. Os chineses gostam de entrar em contato com os ocidentais, e algumas vezes tomam a iniciativa. Esta é uma cidade com muitos encantos. Os grandes espaços, as ruas arborizadas, os parques, os lagos, os antigos templos e palácios. Gosto da larga avenida que leva à Praça Tianammen (Praça da Paz Celestial), que é o centro do poder e onde estão a tumba de Mao e a Cidade Proibida. Ao contrário do que se imagina, não se anda trombando nos chineses quando se caminha pelas ruas principais da cidade. Pequim tem um movimento igual ao das grandes capitais brasileiras.

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O difícil de suportar é a poluição brutal, as pessoas cuspindo no chão, empurrando, fumando feito chaminés e fazendo o maior barulhão enquanto comem com a boca aberta. Também incomoda muito a ansiedade que domina o chinês. Está longe da consagrada serenidade oriental. Ele nunca parece tranquilo, é sempre elétrico: você ainda não acabou de mostrar o que deseja e alguma coisa já foi feita, geralmente na direção errada. A expressão “paciência chinesa” não pode ser aplicada aos chineses.

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No táxi, você estende o papelzinho com o endereço escrito. O chofer pega, olha, torna a olhar, resmunga, sai do carro e se dirige ao seu colega em outro táxi. Esse também olha, os dois conversam, ele volta e balança a cabeça dizendo que não. Mas, um lugar tão famoso e não sabem aonde fica? Ou não querem me levar? Nada disso. Eles não sabem ler, são analfabetos. Nesta cidade tudo é possível.

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3 - A China é a mixagem de um estado policial com a índole peculiar de um povo que é humilhado, pisado, há séculos. Todo o poder para quem está no poder. Isto é, os altos dirigentes do Partidão podem tudo, inclusive meter a mão na grana. Na China rouba-se pra valer desde tempos imemoriais, e o Grande Carniceiro já se preocupava com o assunto, enquanto desfrutava a cama com cinco, seis chinesinhas, de menos de 18 anos de idade. O cara chegou ao máximo que o poder pode oferecer: a frugalidade. Não colocava os próprios trapos. Era vestido, penteado, davam banho nele, e escovavam seus dentes de vez em quando. Recebeu Kruschev de calção de banho, só para sacaneá-lo. Sabia aproveitar. Se alguém do povo conseguia cumprimentá-lo nunca mais lavava a mão, e os parentes vinham de longe da China só para admirar misticamente a mãozinha. O chinês flutua ao sabor da vontade dos seus dirigentes. Não sabe nada do que está acontecendo, nem quais são os planos para o futuro do país. No momento, assiste passivo, errante, ao capitalismo obsceno que tomou conta das grandes cidades. Pequim impressiona pelos edifícios luxuosíssimos, as griffes famosas, e a classe média muito bem vestida usando as maravilhosas falsificações. Nas palavras dos chefões do Partido Comunista, a China está passando pela “modernização do comunismo”, mas a faixa etária dos que visitam a China não é a mesma da Disneylândia, e a adoção pelos chineses da cultura de consumo, ícone do “tigre de papel”, tornou-se uma atração para o turista, que não perde oportunidade de observar que hoje são aplaudidas as mesmas coisas que foram violentamente condenadas pelo presidente Mao, as mesmas que levaram a China a um banho de sangue em passado recente. Com isso, os miolos dos chineses já viraram geléia de mocotó. O enorme retrato do antigo ditador continua na frente da Cidade Proibida – ótimo para confundir ainda mais a cabeça dos pobres coitados. A cara dele também está em todas as notas da moeda chinesa, o renminbi, (ou yuan). O que pensam os chineses sobre isso? Não pensam, apenas aceitam o que as autoridades decidiram: “Mao foi um grande líder, mas, como todo ser humano, passível de erros. Ele errou 30% e acertou 70%.”

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Cenas do cotidiano, da esquerda para a direita: Os chineses e a chegada do fast-food.
Garota em ritual budista, bem vestida com as falsificações de griffes.
Barbeiro cortando o cabelo na rua. (Clique nas imagens para ampliá-las).

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4 – Quando passa por mim um homem que parece ter 50 anos de idade, a fascinante Revolução Cultural me vem à cabeça. Fico imaginando se ele bateu ou apanhou, torturou ou foi torturado, se ele matou ou morreu.

A Revolução Cultural teve início em 1966. Tudo começou quando Mao percebeu que estava perdendo o controle do poder. A razão era muito simples. Ele havia matado de fome 30 milhões de chineses com o seu absurdo programa econômico chamado “O Grande Salto Para Frente” (1958). Mao queria dobrar a produção de aço da China no prazo de 1 ano e, pensando que havia descoberto a pólvora, ordenou aos chineses que fizessem pequenos fornos nos fundos dos quintais de suas casas e derretessem panela, garfos, colheres. Em um ritmo frenético, após acabar com toda madeira disponível, os camponeses passaram a usar sua mobília para alimentar os “fornos”. O resultado eram umas bolotas de alguma coisa indefinida, chamada de aço. Na agricultura, ele criou as comunas populares e desmantelou o sistema produtivo. De vez em quando, em ataques de lucidez, conversando com o seu séquito de aduladores, Mao perguntava, intrigado, se não haveria alguma coisa errada, porque, afinal, o resto do mundo construia siderúrgicas cada vez maiores. Como é que os americanos e ingleses não haviam percebido que era muito mais fácil fazer aço no quintal, ao lado das galinhas?

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Cenas do cotidiano: Mãe e filho no metrô.
Bebê chinês e a calça aberta: uma alternativa
muito prática ao uso de fraldas.

Aproveitando o monumental fracasso do plano louco, os inimigos de Mao começaram a questionar a competência do Grande Timoneiro. Bem, já que os camaradas do Partido estavam engrossando, eles resolveu mostrar que realmente todo o poder emanava do povo. Para isso fez algo realmente espantoso, sensacional: usou o seu carisma, um dos maiores que qualquer homem teve durante toda a História, e convocou dezenas de milhões de estudantes. Disse a eles que o passado era feudal e burguês, e que deveria ser destruído. Oficialmente, a ordem era atacar os Quatro Velhos: velhos costumes, velhos hábitos, velha cultura e velhos pensamentos. Na prática, Mao disse que tudo o que fizessem estaria absolutamente correto. De uma hora para a outra, dentro da sociedade chinesa, o monopólio da razão passou para as mãos da juventude escolar do nível secundário. Se adolescentes já são insuportáveis em qualquer lugar – até na Suécia -, imagine os jovens chineses, nascidos em meio a ódios, medo e submissão, recebendo carta branca vinda do deus vivo. Nos dois primeiros anos, de 1966 a 1968, quase acabaram com a China. Mostraram realmente o que é o doce pássaro da juventude. Ficaram completamente histéricos e surraram, torturaram e mataram seus professores. Caçaram os intelectuais e os artistas, acabaram com as escolas, queimaram bibliotecas, destruíram velhos prédios, templos e obras de arte. O Exército foi obrigado a defender os dois maiores monumentos nacionais, a Cidade Proibida e a Grande Muralha. Desta forma, na China viveu-se a situação extraordinária em que, pela primeira vez na História, as crianças mandavam nos adultos.

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Quando a situação ficou além do imaginável, com o risco do país desmoronar, o Grande Timoneiro havia alcançado o seu objetivo e encontrava-se na posição de dono absoluto do poder. Sendo assim, decidiu chamar o exército para que impusesse a ordem e despachou seus milhões de adoradores para o interior do país, colocando-os nos célebres programas de “reeducação”, instituição típica dos regimes comunistas. Oficialmente, a Revolução Cultural acabou com a morte de Mao, em 1976, aos 83 anos de idade.

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Hoje, quando você vai ao espetacular mercado de antiguidades de Pequim, o Panjiayuan, e os chineses lhe oferecem, a preço de banana, alguma peça muito bonita – uma cabeça de Buda – dizendo que é “olda”, (old – antiga) e insinuando que é produto da Revolução Cultural, vindo da quebradeira dos estudantes nos velhos templos, é melhor deixar o entusiasmo de lado. Para dar a aparência de velho, os chineses enterram peças na lama e descascam as estátuas de madeira. Uma martelada aqui, um amassão lá, vamos arranhar, e passar alguns líquidos sujos. Não deixa de ser divertido admirar essas neo-antiguidades.

punks 202x300 China5 – As mocinhas chinesas são bem bonitas. Nos restaurantes em Pequim elas nos atendem aos sorrisinhos, miando. A embaixatriz brasileira disse que também miava quando era moça. As nossas mulheres não gostam nada de ver a gente se derretendo todo, e disputando a atenção das delicadas garçonetes. Na hora de pagar a conta sou informado de que os chineses não recebem gorjetas. Ficam ofendidos. Bem, eu levei um bocado de tempo para perceber que era simplesmente uma invenção muito cômoda. Claro que gostariam das gorjetas, só que não sabem que elas existem, e os ocidentais aproveitam-se disso. Alertei os meus espertos compatriotas para o fato de que, dentro de alguns anos, essas meninas vão nos odiar, sabendo que poderiam ter comprado um carro caso simplesmente tivéssemos nos comportado com decência e deixado os 10% a que estamos acostumados em nosso país. Para grande desgosto dos brasileiros, passei a deixar minha gorjeta, religiosamente.

6 - Outro dia vi uma batata doce de 30 quilos em uma badalada exposição de fotografias. Batata falsa, é claro, que deve ter sido feita de pano ou papel. É uma foto dos tempos do Grande Salto Para a Frente, quando o governo dizia que a agricultura chinesa estava conseguindo cultivar cenouras de 1 metro de comprimento e outras insanidades. No balcão, onde se vendiam as cópias, não confirmaram que a batatinha era falsa. Disseram que não sabiam de nada, e passaram a me evitar. Ninguém quer se meter em encrencas. Mao já se foi, mas o estado totalitário protege os seus ex-líderes, o que é uma maneira de proteger os atuais. No Brasil, eram publicadas nos jornais as notícias dos pepinos, alfaces e jilós maravilhosamente gigantescos, mas de maneira neutra, sem críticas. Alimentava-se o sonho de que na China estava acontecendo algo realmente inovador, épico.

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7 - Os meus melhores amigos chineses estão na Praça da Paz Celestial. É onde eu levo as minhas pipas para empinar. Ficamos um tempão na ociosidade, mostrando nossas habilidades. Os chineses são os mestres das pipas. Algumas são realmente lindas, e tão baratas que eu compro todas que me oferecem. Eles gostam de passar a mão na minha barba porque acham hilário os fios de cabelo brancos. A começar pelos honoráveis dirigentes do Partidão, todo mundo na China tinge o cabelo de preto.

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8- Faz muito tempo que peguei um barco e passei três dias navegando pelo Yang-Tsé. Fui ver o rio antes que ele virasse um lago. Fui também para constatar que a construção da Barragem de Três Gargantas, a maior do mundo, é uma tragédia ambiental e social. Estão relocando mais de um milhão e quinhentas mil pessoas, empurradas para o interior do país, acreditando-se nos dados oficiais que sempre são – segundo a melhor tradição comunista – mentirosos.

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Os prédios das cidades que vão submergir não foram implodidos porque todos os tijolos, portas, todas as velharias vão para o interior, para as “novas casas” dos relocados. Tudo foi demolido na marreta de pedra, em construções com mais de 10 andares. Isto quer dizer que morreu muita gente porque o trabalho era perigoso. O governo diz que a primeira função da barragem é evitar as mortes e prejuízos que são causados pelas devastadoras enchentes do rio. É difícil de acreditar. Os dirigentes chineses não têm a mais vaga preocupação com seu povo. Para eles é algo abstrato. Governam como se estivessem fazendo uma tese. E, assim, perde-se um lugar maravilhoso, porque o canyon feito pelo rio é lindo. Em alguns lugares as águas são barrentas, mas em outros elas são transparentes, verdíssimas, montanhas tão altas de perder o fôlego. Animais, inscrições seculares esculpidas nas rochas, tudo vai embora.

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9 - Muitas delegações de senadores e deputados brasileiros em Pequim. São totalmente despreparados e preguiçosos. A gente almoça, eles bebem muito mais do que deveriam, e depois vão, atrasadíssimos, para os seminários. Outro dia, um deles dormiu em plena conferência e foi fotografado por um de seus colegas. Muitas risadas. Depois dorme quem fotografou e o outro se vinga filmando. Recebem diárias em dólares. Trazem as mulheres, as filhas, e saem comprando pérolas, sedas, e também todas as falsificações que ainda fazem sucesso no Brasil.

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Foto: “Quarteirão das Concessões” em Shangai

10 - Diplomata brasileiro, apaixonado por arte oriental, compra, baratíssimo, um Buda de madeira. Ele acredita que a peça deve ter no máximo 100 anos de idade, o limite estabelecido pelo governo chinês para que ela possa sair do país. Pouco depois é informado por um expert de que foi enganado – é uma das tais antiguidades envelhecidas a martelo. No dia em que vai deixar a China, quando está empacotando sua mudança, aparece um inspetor do patrimônio chinês e embarga a peça. Não pode levar porque ela é muito “olda”, muito velha. Completamente confuso, já que é impossível saber o que se passa na cabeça de uma autoridade chinesa, ele viaja e deixa o Buda com seus colegas para ser vendido pelo preço que pagou. Eu resolvo me arriscar e compro o Buda. Algumas pessoas “práticas” me aconselham a escondê-lo na casa do vizinho até a hora da minha partida, mas advertem, conspiratoriamente, que existe o risco de minha empregada chinesa me dedurar para as autoridades. O quê? Sim, já aconteceu, me dizem. Elas podem ser espiãs do governo, da mesma maneira que se acredita que sejam espiãs as intérpretes chinesas que trabalham nas embaixadas.

Bem, eu resolvi me arriscar, e hoje o Buda que ficou todo o tempo colocado no centro da minha sala, encontra-se agora em estado de completo repouso dentro de uma enorme caixa de papelão, no Brasil.

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Foto: Plano geral da cidade de Shangai

Todo mundo na embaixada brasileira quer ser sinólogo. E vamos aguentar demonstrações em qualquer saidinha para jantar, de quem sonha que está falando chinês. Neste Jardim da Infância é a maior competição para ver quem gagueja menos. E o garçom em pé, olhando, pasmo, tentando adivinhar o que aquele louco está querendo dizer. A nau dos insensatos.

11 - As autoridades chinesas assumiram, mas não cumpriram, o compromisso de deixar o céu de Pequim azulzinho para as Olimpíadas. Mas, aqui tudo é possível. Você se assusta quando vai comprar alguma coisa e, quando chega, vê que o lugar não existe mais. Eles derrubam um quarteirão inteiro da noite para o dia, colocam vasos de flores em frente do tapume e começam a construção num rítmo só possivel em um país totalitário com essa população inacreditável. O número de guindastes em cada obra é tão grande que não sei como não ficam batendo um no outro. Eu acho que eles podem pegar um canto qualquer e construir uma Brasília em menos de um ano.

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12 - Outro dia uma guia me disse: “O senhor sabe que no Tibet tem mais tibetanos do que chineses?” Fiquei espantado (não era para ficar) com a pergunta tão absurda. Respondi que o Tibet é um país que foi invadido e anexado pela China em 1952, que os templos haviam sido destruídos, seu povo violentado, seus monges torturados e que o governo chinês havia entupido o país de chinos justamente para acabar – literalmente – com a raça tibetana. Depois de passar esse trator em cima dela, eu ainda resolvi provocá-la: disse que o Tibet voltaria a ser livre e que a China ainda corria o risco de perder a região dos uigures, no norte ocidental. A moça ficou muito alerta, buscando no arquivo da lavagem cerebral o que dizer. Preferiu ficar calada.

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13 - A língua chinesa é muito dificil de se aprender. Escrever, nem pensar. O estrangeiro que consegue fazer ideogramas estudou uns seis, sete anos. A cultura de um chinês pode ser medida pela quantidade de ideogramas que ele aprendeu. Quem sabe mais ideogramas é escolhido para presidente da república. O Dr.Ho, que é o atual chefão, sabe 17.352 ideogramas. O mais sábio entre os sábios.

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Após terminar o poema, a tinta se apaga.
Quer dizer, “tudo é efêmero”.

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Os artigos assinados não traduzem a opinião do Instituto Millenium. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate sobre os valores defendidos pelo Instituto e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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