15 de janeiro de 2010
Autor: Paulo Guedes
Em algum momento de nossa longa história evolucionária, o ser humano formulou uma extraordinária concepção existencial, o mais pretensioso projeto que poderia conceber para escapar a sua própria natureza. Com uma declaração de excepcionalidade entre as espécies, atribuiu suas origens a uma criação divina e passou simplesmente a pretender a vida eterna. A vida, um acaso biológico, uma dádiva da natureza, passou a ser considerada um presente de Deus, ou dos deuses.
Mesmo que frágil, curta e sangrenta para cada espécie animal – como também foi a vida humana até bem pouco tempo atrás –, seres animados por seu sopro podem reproduzir o milagre da criação. Essa precariedade das vidas individuais torna ainda mais assombroso o fenômeno da transmissão de suas fagulhas através dos túneis do tempo, as centenas de milhões de anos de evolução das espécies.
“Neste universo de cegas forças físicas, algumas pessoas vão se ferir, enquanto outras terão sorte. E você não encontrará razão ou justiça nisso. As propriedades que observamos são as de um universo em que não há projeto, nem propósito, nem bem, nem mal. Nada além de uma impiedosa indiferença”, adverte o biólogo Richard Dawkins. “Quanto mais compreendemos o Universo, mais ele parece não ter sentido”, fulmina o físico Steven Weinberg.
Compreender, porém, é um milagre ainda maior do existir. Com a vida consciente começa a escalada do ser humano e sua aspiração a transcender o material e o temporal. A consciência é a apropriação individual da oportunidade de experimentar um universo de possibilidades que transcendem as dimensões materiais de um mundo físico.
A espiritualidade, a estética, a moral, a música, a imaginação e a própria consciência da razão são dimensões inacessíveis a indivíduos de outras espécies. E as diferentes coordenadas que posicionam cada ser humano nesse universo multidimensional é que o tornam único. Essas dimensões extras nos retiram de um plano existencial primitivo, a savana da mera sobrevivência do mais adaptado ao meio ambiente natural. Criamos, em uma mesma época, 6 bilhões de universos existenciais profundamente distintos, que cada um de nós experimenta de modo único. Não há práxis individualista ou utopias coletivistas que legitimem a extinção de um só desses universos. Cada uma dessas vidas é sagrada.
Uma vida com significado requer inteligência,
imaginação, trabalho e, acima de tudo, muito amor
É a consciência dessa dádiva ainda maior do que a simples existência, essa forma perceptivelmente superior que é a vida consciente, a causa de nossa pretensão à eternidade. Trata-se de uma busca de sentido para a existência, de uma revolta contra a muralha de nossos limites cognitivos. Estamos diante do maior dos desafios: dar significado a nossas vidas finitas. “A transitoriedade de nossa existência de forma alguma retira seu significado. Ao contrário, torna-se um incentivo para nos dedicarmos com toda intensidade a nossas possibilidades de realização”, afirma o psiquiatra e filósofo Viktor Frankl, em A busca humana por significado (1959).
“Esquecemos com frequência de celebrar quão preciosas são a vida e a consciência. O real sentido da vida é justamente criar nossos próprios significados para essa existência. Nosso destino é esculpir o próprio futuro. Desenvolver nossos talentos ao máximo, aperfeiçoando habilidades em busca de nossos sonhos. Freud ressaltou a importância do amor e do trabalho na busca de sentido para a vida. O trabalho traz o significado da responsabilidade e da cooperação com os demais, o esforço em busca de sonhos comuns. E sem amor estamos perdidos, somos vazios, andarilhos sem raízes, insensíveis aos semelhantes”, alerta o físico Michio Kaku, em Universos paralelos (2005).
A vida é uma dádiva. A vida consciente, um milagre ainda maior. Mas uma vida com significado requer inteligência, imaginação, trabalho e, acima de tudo, muito amor. São os pensamentos que dedico a você, leitor, com os melhores votos de felicidade, muita saúde e grandes realizações em 2010.
Fonte: Revista ÉPOCA, 11 de Janeiro de 2010.
Os artigos assinados não traduzem a opinião do Instituto Millenium. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate sobre os valores defendidos pelo Instituto e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.