A TV da Mula sem cabeça
junho 27th, 2010 by Leandro Ferreira
Se é comum entre os grêmios estudantis e grupos ligados à esquerda dizer que determinados brasileiros são reacionários e procuram “comunistas debaixo da cama”, podemos afirmar, sem qualquer medo, que boa parte de nossos governantes procuram americanos debaixo dos colchões antes de tirarem sua soneca patriótica.
A nova arma dos deputados brasileiros para tornar a terra de Macunaíma um país mais distante e menos globalizado culturalmente tem nomezinho de desastre radioativo: PL 29.
A proposta, vergonhosamente apoiada por retardatários em fóruns, engloba questões a respeito da regulação do setor da TV paga brasileira e, o objeto mais bizarro, ordena que as emissoras distribuídas pelas várias empresas que atuam no ramo exibam, diariamente, 3 horas e meia de conteúdo nacional no horário nobre, sendo metade deste tempo oriundo de produtoras independentes. A proposta ainda “pede” que para cada 3 canais estrangeiros distribuídos, um nacional seja introduzido.
Discutir publicidade no setor, regras para participação, até é cabível, pelo menos para um país em que o assessor do presidente da República se refere à indústria do entretenimento com expressões respeitosas como “esterco cultural” e compara as TVs pagas com a 4ª Frota da Marinha Americana. Criar regras nas programações daquilo que pagamos para uma empresa privada nos oferecer me parece um exagero.
Afinal, indiretamente o PL 29 traduz o pensamento arejado que lemos no parágrafo acima. O argumento para a lei é sustentado somente no nacionalismo e no medo da americanização. O curioso é que em uma tremenda demonstração de falta de confiança ou apoio aos artistas brasileiros, a alternativa encontrada pelos governantes para louvar nossa terra seja a censura velada, ao invés de reduzirem impostos ou criar incentivos culturais mais eficientes.
Não é a primeira vez que assistimos este governo lançar projetos contra as empresas de comunicação. Basta lembramos que a TV Brasil foi criada nesta mesma esteira, abarcando ainda questões ligadas ao jornalismo e ética.
A lorota de lançar uma alternativa para os brasileiros fugirem das grades das emissoras abertas e fechadas, levando informação “filtrada” e mais sobre os costumes nacionais não enganou ninguém. Tanto que, mesmo com investimentos que superavam o faturamento da Bandeirantes, a emissora registra no Rio de Janeiro médias diárias que oscilam entre 0,3 e 0,5 pontos, o equivalente a zero. É a TV da mula sem cabeça.
Paralelamente, no mercado livre, sem obrigações e imposições, tivemos, recentemente, uma bela mostra do respeito ao que há de bom feito no Brasil. E justamente no público mais sincero: o infantil. A animação “Peixonauta”, maior sucesso do Discovery Kids, foi criado a partir de dinheiro captado por leis de incentivo cultural, e conseguiu espaço no horário nobre do canal. Sem colchões queimados, investimentos absurdos e traços no monitoramento de audiência.
Até agora, apenas uma empresa comunicou seus clientes a respeito do projeto, que agora visitará o Senado. Esconda seu controle remoto.
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