21 de janeiro de 2009
Autor: Claudio Shikida
Dizem por aí que o desemprego aumentou por causa da crise. O governo diz que aumentará os gastos aqui e ali por causa da crise. Já há quem diga que estamos em crise, apesar do otimismo – cada vez menor – da administração do presidente da Silva.
Entretanto, o que ninguém consegue é explicar por que tudo o que acontece é causado pela crise. A tal crise é como a guerra das Malvinas para a ditadura argentina nos anos 80: uma bela desculpa para fugir à responsabilidade e ao fardo de explicar, corretamente, os fatos.
Para começar, quedas e subidas nos dados de emprego são típicas em qualquer lugar do mundo. Quanto disso se deve à crise? Ninguém, até onde eu saiba, mostrou um estudo cientificamente decente até agora. Claro que é difícil fazer isto, mas pode-se levantar algumas hipóteses.
Suponha que consigamos descontar o efeito sazonal do ciclo econômico de cada setor da economia. Ainda assim não sabemos o quanto dos movimentos dos dados se devem à crise. Para isto, precisamos saber o quanto cada setor é influenciado pela economia mundial. O setor importa? Exporta? Tomou empréstimos no exterior? Tem dívida em dólares? Em euros? No nível da empresa, pode-se perguntar ainda sobre a relação de cada uma delas com empresas no exterior (por exemplo: a empresa é filial de alguma multinacional?).
Absolutamente nenhuma reportagem na imprensa esclareceu, até o momento, cada uma destas perguntas e esta é uma bela tarefa para bons jornalistas. Entretanto, isto ainda é pouco para se responder à pergunta sobre a crise. Afinal, os mesmos setores estão diferentemente representados, geograficamente, no país. Isto nos leva à segunda pergunta: qual é a composição setorial de cada economia estadual? Também para esta pergunta não temos resposta.
Outro fator importante diz respeito ao impacto da intervenção governamental em cenários como este. Neste ponto também há duas importantes dimensões. A primeira diz respeito a questões como: há algum impacto de maiores gastos públicos na economia? Se há, são positivos, negativos ou neutros? Em situações de crise, as conclusões mudam? E o que dizer de menores impostos? São diferentes de maiores gastos? Qual é a melhor opção para a economia brasileira: mais gastos ou menos impostos?
Além disso, a intervenção governamental se dá via regulação. Qual o papel das agências regulatórias? Suponho que tenha a ver com a manutenção da concorrência, mesmo em ambientes de crise. Outro aspecto da regulação diz respeito à preservação do equilíbrio entre os três poderes, essencial para a boa condução de qualquer política pública. No Brasil, neste sentido, a situação é precária.
Este pequeno “guia” de perguntas é provavelmente o mínimo que cada um deve considerar para começar a entender os dados sobre a economia atual. Fica claro que ainda falta muito para podermos dizer algo mais preciso sobre a crise. Um bom profissional deve ser cuidadoso em seus diagnósticos, e espero ter ajudado o leitor na busca pelas melhores respostas sobre esta crise.
Os artigos assinados não traduzem a opinião do Instituto Millenium. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate sobre os valores defendidos pelo Instituto e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
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