Os sábios de outubro

8 de fevereiro de 2010
Autor: Caio Resende

pequeno normal grande

Janeiro de 2010. Para grande parte da classe política brasileira, nesse mês tem-se início, dentro de cada um de nós, a gestação de um novo ser: o eleitor. Com a chegada do rebento, floresce na boca de políticos brasileiros a retórica da liberdade. Em que consiste essa retórica? Na magnanimidade do “povo”, como soma das decisões individuais desses “eleitores”. Em outubro de 2010, o “povo” voltará a ser o sábio da vez.

Seremos então, novamente, magnânimos. Livres. Seremos os responsáveis por definir os rumos do país. Nossa será a responsabilidade pelo futuro. Mas isso não é motivo para apreensões. Para esses, o “povo”, como coleção de decisões individuais, nesse momento específico, não falha. Não erra. A “vontade do povo” é a vontade geral. A encarnação do bem comum. É a democracia em pleno exercício.

Afinal, não é essa a democracia pela qual tanto lutamos? Pelo direito de sermos livres para decidir, de quatro em quatro anos, sobre o futuro do país?

Passado esse período eleitoral, a liberdade entrará novamente em estado vegetativo. O eleitor, para alguns, símbolo máximo em nossa democracia do ser pensante e livre para decidir, tem vida curta. No corrente ano, limitar-se-á, uma vez mais, ao mês de outubro. Chegado seu fim, iniciar-se-ão, novamente, as tentações autoritárias de limitação da liberdade individual.

Mas não se preocupe, caro(a) leitor(a). Finda nossa curta existência como eleitores, não ficaremos desprovidos de magnânimos. Uma vez concluído o período eleitoral, a magnanimidade voltará aos seus titulares originais: os políticos e os burocratas de Brasília. Serão eles os sábios da vez, cuja principal missão voltará a ser a de proteger o cidadão de si mesmo. O povo tão sábio, infalível e livre será colocado, novamente, em uma espécie de coma induzido.

E os sábios voltarão ao seu trabalho de praxe. Passará pouco tempo até que reafirmem que não podemos comprar picolés em farmácias. Remédios no balcão. Que nossos filhos estão proibidos de ver aquele desenho na televisão. Que não podemos ler determinado jornal. Comprar determinado produto. Que devemos estimular tal setor da indústria nacional. Que não podemos assinar determinado acordo trabalhista. Que devemos, compulsoriamente, poupar parte de nossa renda. Que nossos filhos devem ler esse e aquele livro, estudar essa e aquela teoria. Que devemos comer menos carne. Que devemos ir de bicicleta para o trabalho e assistir a TV oficial.

E não se engane, leitor(a): privar-nos-ão de nossa liberdade para nosso próprio bem!

Voltaremos a fazer parte, então, da horda de semi-acéfalos, incapazes de tomar decisões sobre nossas próprias vidas. Decidir o próprio futuro. Quão efêmeros nossos dias de sábios!

Felizmente temos a burocracia de Brasília. Viva nossos representantes, que elegemos tão sabidamente para proteger-nos de nós mesmos. O que seria de cada um de nós sem a inteligência, sagacidade e liberdade do eleitor! Daquele que vive na profundidade de nosso ser e desperta, de quatro em quatro anos, para nos apontar tão sabiamente quem deverão ser os condutores desse bando de incapazes. Sem esse ser magnânimo, que aparece como anos bissextos, em outubros memoráveis, livre para apontar-nos os iluminados.

Por que isso? Porque, segundo o que acreditam muito de nossos atuais representantes, nós, seres sábios para decidir o futuro do país, não somos sábios o suficiente para lidar com nossa própria liberdade. Somos magnânimos para decidir o futuro da nação, mas devemos ser constantemente privados da capacidade de decidir sobre nossas próprias vidas. Que tipo de liberdade estranha essa nossa, do cidadão ordinário, não? Livres para decidir quem serão os responsáveis por privar-nos paulatinamente de nossa capacidade de tomar decisões.

E esperaremos, apáticos, pela chegada do novo ciclo de florescimento de nossa sabedoria, daqui a quatro anos.

Reduz-se, assim, a democracia ao seu método eleitoral e esquece-se que um de seus componentes mais basilares, a liberdade individual, não deve comportar limitações temporais. Queremos o direito de tomar decisões de quatro em quatro anos? Ou o direito de decidir, diuturnamente, sobre nosso próprio futuro?

É preciso que nossos políticos entendam que a capacidade individual de tomar decisões não floresce somente em tempos de eleições. Que não somos capazes somente como eleitores e no exercício do voto, mas como indivíduos livres, em uma sociedade que respeite essa liberdade. Que reconheçam, portanto, que a capacidade do indivíduo para tomar decisões sobre a própria vida (e o resultado social ótimo daí gerado) não pode restringir-se ao período eleitoral.

Para isso, é importante que passemos uma mensagem clara que queremos o respeito a nossa liberdade individual não somente enquanto eleitores, mas enquanto indivíduos. Que, como tais, não necessitamos de políticos que nos salvem de nós mesmos, mas justamente do contrário: de um governo que proteja nosso direito de usufruir integralmente e a todo o momento de nossa própria liberdade. Só assim teremos uma verdadeira democracia.

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Os artigos assinados não traduzem a opinião do Instituto Millenium. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate sobre os valores defendidos pelo Instituto e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

  1. Passado esse período eleitoral, a #liberdade entrará novamente em estado vegetativo.
    http://www.imil.org.br/artigos/os-sabios-de-outubro/

    Instituto Millenium


    08-02-2010 20:33:49

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