Omissão revoltante

8 de agosto de 2010
Autor: Moacyr Góes

pequeno normal grande

Se nada for feito, daqui a pouco uma mulher será morta por conta de uma acusação de adultério. Ela será apedrejada até que morra. Seu nome é Sakineh Mohammadi Ashtiani e nasceu iraniana.

É monstruoso, assim como o pouco empenho dos representantes de nossa política externa em tentar impedir esse crime é vergonhoso. Tenho, confesso, nojo quando ouço a alegação de que, em questões internas de outros países, não devemos nos meter.

Não acredito nisso quando a liberdade individual e a vida estão ameaçadas, onde for. Essa gente que dá de ombros a um crime como esse tem profunda desconsideração para com os indivíduos.

Para elas, o que existe são apenas o povo, as massas, os trabalhadores, os movimentos sociais. E o pragmatismo da política atual e a economia, e o poder.

Eu tenho horror a esse conceito de coletivo. Em nome dele os maiores crimes da história foram cometidos. Além do mais, isso acobertou e acoberta muita vigarice.

A dor é privada e individual. A vida é privada e única, e dura muito pouco. Será que não temos um legado civilizatório que nos obrigue a levantar a voz e dizer não? Será que Sakineh Mohammadi Ashtiani tem direitos?

Não é difícil imaginar as piadas machistas e mórbidas sobre essa mulher e a acusação de adultério rolando em muitas conversas. O mundo e a política estão ficando muito cafajestes.

Nesse momento, penso no psicanalista Sigmund Freud, aquele que passou sua vida dedicado a tentar desvendar o mistério do comportamento humano e, no fim, já exausto, disse que preferia viver em meio aos animais e às plantas.

O Homem é uma obra de arte imperfeita que não deu certo.

(“O Dia” – 08/08/2010)

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Os artigos assinados não traduzem a opinião do Instituto Millenium. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate sobre os valores defendidos pelo Instituto e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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