O Programa de Direitos Humanos e os nossos militares

13 de janeiro de 2010
Autor: Claudio Mafra

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Lula não teria coragem de apresentar o Programa dos Direitos Humanos no seu primeiro mandato. Vejam que ele levou tempo para colocar as manguinhas de fora na política externa, que se tornou abertamente anti-americana. Mas, o que realmente conta é que só pensa em si mesmo – uma suposta ideologia vem bem depois. Ele recuou quando viu que o Programa foi bombardeado pela imprensa, além de não ser nada fácil receber respostas pesadas  como a dos militares e a da Igreja. Lula não está interessado em manter uma postura petista que exija briga, disputa, e o risco de perda de popularidade. Igualzinho a Geisel, ele deve achar que a mudança brasileira para um regime mais à esquerda deve ser “lenta, segura e gradual”. O Programa é um balão de ensaio. Se a reação diminuir, ele insiste. Na sua cabeça deve haver uma premissa básica: NADA DE SE INDISPOR COM OS MILITARES. Isso é esperto, mostra que não se esqueceu do passado. Na imprensa sempre é possivel dar-se um jeitinho a partir da chantagem da publicidade da Petrobras, Banco do Brasil, além da Receita Federal para se jogar em cima. Com a Igreja chega-se a um acerto porque deixar crucifixos nos prédios públicos e mais alguma coisa não tem importância, mas os militares, ah, os militares, esses sim, são um grande problema.

O Programa é um desaforo, um documento tipicamente petista, e não me agrada dizer esse chavão, mas “a sociedade tem que ser mobilizada para rejeitá-lo”. Não faço ideia de como se consegue isso com um Congresso de trapaceiros, um Supremo desqualificado, e a inércia, o conformismo, a baixa-estima dos brasileiros, que é um fenômeno de depressão coletiva que alcança tanto a elite quanto o povo.

É muito dificil saber-se o grau de responsabilidade, ou de cumplicidade, que Lula tem com o Programa. Parece que não gostou da revisão da Lei da Anistia. Tanto é assim que afirmou ter assinado sem ler. Em conversas íntimas  deve estar pondo a culpa nos aloprados. Ou será que se empenhou, tomou conhecimento de tudo, e está nos fazendo de bobos? Encolhidos do jeito que estamos ante sua fantástica popularidade não temos o seu respeito. Até seu sentimentos com relação à recalcada Dilma são um mistério. Ele realmente deseja a sua vitória?  Se ela fizer um péssimo governo pode atrapalhar sua volta em 2014. Será? Ou pode até ajuda-lo? Juscelino em 1960 foi acusado de preferir Jânio Quadros ao general Lott. Se Lott ganhasse poderia prejudicar a sua volta em 1965 porque seriam três presidentes mineiros em seguida. Havia também outro motivo. Juscelino achava que Jânio, por ser desequilibrado, faria um péssimo governo, o que facilitaria o seu novo mandato. Será que Lula acha bom haver três governos petistas, um após o outro? E Dilma, ele sabe, é destemperada (desequilibrada também), e pode queimar sua volta em 2014, o raciocínio inverso ao de Juscelino. Serra, ou Dilma, ninguém pode ter certeza do que será melhor para Lula.

Essa Comissão da Verdade tenta ser uma cópia do que houve na África do Sul. Lá o nome foi Comissão de Verdade e Reconciliação. Funcionou porque era um problema de muitas décadas, ou secular, depende do ponto de vista. Tratava-se de mostrar os crimes dos brancos contra os negros. Sua principal característica era não haver punição de forma alguma. Procurava-se apenas os fatos. Eu assisti a uma das sessões, presidida pelo arcebispo Desmond Tutu. Muito pouca gente na sala, e muito pouca repercussão. De qualquer forma, em seu início, serviu como válvula de escape para os ressentimentos gerados pelo apartheid.

Todo o Programa de Direitos Humanos já foi analisado brilhantemente por Reinaldo Azevedo, mas existe um ponto que eu suponho importante demais para não receber uma atenção especial: os nossos militares.

Não adianta amordaçar a imprensa, jogar para o alto o direito de propriedade, invadir a área religiosa como se fôssemos um país de ateus, dar uma tremenda força aos sindicatos, se os petistas não conseguirem a adesão dos militares. Tudo que conseguirem pode ir embora em uma penada se os comandantes resolverem colocar os tanques na rua. Vai tudo para o beleléu. Se estou pregando um golpe militar?  Claro que não. Apenas enfatizo que os soldados existem para defender o país de uma agressão externa e de uma agressão INTERNA, que é a Constituição desrespeitada.  Por isso mesmo, o que mais me chamou a atenção no Programa foi a inclusão de uma matéria sobre Direitos Humanos nas escolas que preparam os nossos oficiais. Esse sempre foi o meu maior pesadelo. A colocação de professores de esquerda nessas escolas.

O que eu tenho dito reiteradamente, talvez em excesso, é que as correntes liberais no Brasil devem estreitar seus laços com a Marinha, Exército e Aeronáutica. Devem convidar os generais, coronéis, para as palestras, para os debates que são organizados pelo Millenium, pela Confederação Nacional das Indústrias, Confederação do Comércio, para dar alguns poucos exemplos. Os militares da ativa não podem se manifestar, não podem falar, mas podem ouvir. Os da reserva podem tudo, dentro de certos limites. Por que não são contactadas as escolas militares: Escola Naval, Agulhas Negras e Campo dos Afonsos? E a ESG, a Escola Superior de Guerra? Eles recebem os nossos blogs? É essencial que os militares continuem sem gostar do PT. Continuem na linha “reacionária” . A linha anticomunista. Já vimos os desastres quando passam para o lado de lá, quando se tornam de esquerda. Significa a eternização dos comunas no poder. Por esses dias assistimos a maneira veemente como reagiram quanto à revisão da Lei da Anistia incluída no Programa. O recuo de Lula foi daquele tipo dos velhos tempos. Um levíssimo cheiro de Zelaya no ar. Claro, ou vocês não sabem que tudo que Lula fez em Honduras foi  uma catarse, tentar bater nos militares de lá, já que não pode bater nos daqui? Ele deve ter muita inveja de Chávez por ter o exército ao seu lado, mas não é doido de achar que pode contar com os militares a não ser depois de uma imensa, formidavel mudança na maneira deles encararem a esquerda. Se eu fosse petista, o meu grande objetivo seria conquistar os militares, sem a menor dúvida.

Em toda minha vida eu nunca vi um presidente tão autoritário (com exceção de Jânio) do que o Lula. Imagino esse sujeito com o apoio do exército.

Não vamos continuar marginalizando os nossos oficiais, ou pagaremos caro por isso.

(Publicado em Reflexões Radicais)

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