O pior muro é o que não se quer ver ou derrubar
Claudio ShikidaO Muro de Berlim pode ter fisicamente caído há 20 anos mas será que todos se deram conta do que ganharam com isso? Uma breve pausa entre uma aula e outra na faculdade recheia minha mente com novas percepções a este respeito. De um lado, um aluno que não quer ler o livro acha que o exercício pode ser resolvido sem a leitura do capítulo. De outro, uma outra que não consegue entender o que significa o índice remissivo de um livro. Mais umas conversas no intervalo e descubro que um terceiro crê piamente que a culpa (culpa!) de estar na faculdade é dos pais, que não o entendem.
O Muro caiu e com ele milhares foram salvos da tirania. A tirania é odiada porque geralmente um ser humano deseja ser dono de seu próprio destino. Quando a tirania começa? Quando esta busca de liberdade se converte na busca dos benefícios da liberdade à custa de outros. Liberdade é poder errar e acertar e aprender com os próprios erros. Liberdade não é roubar os frutos do trabalho alheio, mas consegui-lo via trocas voluntárias.
Os exemplos do primeiro parágrafo são todos sinais de que há um muro na cabeça de muita gente. Um muro que procura guardar para si o fruto do trabalho alheio, sem os custos. Por que estudar se posso culpar o programa da disciplina? Por que ler se posso culpar o professor da disciplina prévia? Por que queimar alguns miolos para decidir sobre meu futuro se posso culpar meus pais?
Eis o pior muro de todos: o muro da má fé e da irresponsabilidade. Existe um processo de erro e acerto? Então vou jogar o erro para os outros e tentar ganhar os méritos no jogo da coerção (o jogo político que, certamente, remunera muito bem alguns bons advogados, políticos, etc).
A cultura da liberdade está em risco. Um discurso medonho diz, mais ou menos em alto e bom tom, que “só quem nunca roubou deve atirar a primeira pedra”. Como anjos não existem – e a lei sempre pode ser alterada para criminalizar pessoas (lembre-se do sistema legal nazista) – os donos do poder se divertem, descumprem prazos eleitorais, zombam da fiscalização dos tribunais que, ainda que imperfeitos, são os órgãos que a democracia escolheu para fiscalizar o cumprimento das leis, pervertem as instituições comprando humildes e não tão humildes com benefícios fiscais (o dinheiro vem do seu bolso, leitor), convencem as pessoas de que liberdade está fora de moda e que a crise trouxe o fim do capitalismo.
Pior ainda é que alguns se acham no direito de doutrinar pessoas com idéias discutíveis – e até erradas ou autoritárias – só porque travestem sua tentativa de diminuir as liberdades com chavões “ambientais”, “reparadores de injustiças” ou qualquer outro termo que geralmente se possa usar para adoçar o assalto às instituições fiscais do país (tente obter dados detalhados de gasto público com a mesma facilidade que lhe cobram o imposto de renda, leitor, para entender o tamanho do problema).
Este muro ainda não foi derrubado. Correndo o risco de parecer arrogante, pessoas precisam ser educadas. Precisam aprender que o custo dos próprios erros lhe é parte integrante. Precisam aprender que benesses fiscais para industriais, entidades ou amigos do rei não saem de graça, mas custam ensino básico, saúde e mesmo decência. Precisam aprender que leis têm conseqüências econômicas e não apenas poéticas. Precisam aprender que a democracia não é sinônima de eleição (como Hitler e seus modernos aprendizes nos ensinaram tão bem) e, finalmente, precisam aprender que ser conivente com a tirania é um passo para o atraso.
O desafio é encontrar pessoas que realmente almejem a Liberdade. Esta, como já dito, implica em errar e aprender com os erros sem jogar a culpa na sociedade, nos pais, no professor ou no trocador de ônibus. Exige muita coragem, vontade e valores morais muito bem sedimentados por anos de educação dos pais (não basta botar dinheiro em casa, papai, tem que participar…).
Derrubar o muro interior não é uma tarefa única, portanto. E nem fácil. Mas uma atitude menos covarde ajudaria um bocado.
Claudio Shikida é economista, professor do IBMEC-MG, e mantém o blog De Gustibus Non Est Disputandum.
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