O papel do passado nas eleições
Alberto Carlos AlmeidaA história é resultado da ação das instituições, do contexto e das pessoas. A interação entre instituições e pessoas é bem conhecida e mapeada. Jean Monet, polÃtico francês tido como o arquiteto da Comunidade Europeia, afirmou uma vez que as pessoas fazem as coisas acontecer, ao passo que as instituições fazem as coisas permanecer no tempo. As pessoas agem, decidem, tocam, mudam de rumo. As instituições conservam.
Foi preciso haver lÃderes de fibra para que a Comunidade Europeia tivesse sido fundada. Cabe aqui uma breve menção ao terceiro elemento-chave na história: o contexto. A decisão de unir os paÃses europeus foi levada a cabo pelas pessoas, mas motivada pelo contexto: uma Europa cansada de se destruir depois de passar por duas grandes guerras. A união dos paÃses, em particular da França e da Alemanha, poderia contribuir para evitar a repetição da tragédia.
As pessoas importam não apenas para tomar decisões que alterem o rumo da história, mas também, e isso é muito importante, para motivar o eleitor a escolhê-las. Exatamente isso. Pessoas diferentes atraem motivações diferentes. Um bom candidato é uma pessoa reconhecida pelo eleitorado. Reconhecida por vários atributos positivos. Um candidato sem chances é, na maioria das vezes, alguém sem tais atributos.
As pessoas e seus atributos são mais importantes quando a reeleição não é possÃvel. Esse é o caso da eleição presidencial de 2010: Luiz Inácio Lula da Silva não pode se candidatar novamente. Em 1994, primeira vitória de Fernando Henrique Cardoso, as caracterÃsticas pessoais do candidato foram mais importantes do que a avaliação que o eleitorado tinha do governo.
Qual é a base empÃrica para tal afirmação? A comparação entre o FHC de 1994 e o FHC de 1998. Em 1994, aproximadamente 60% dos eleitores que avaliavam positivamente Itamar Franco votaram em Fernando Henrique. Quatro anos mais tarde, esse mesmo porcentual subiu para incrÃveis 80%. Quando é o próprio governante quem disputa a eleição, o eleitor olha mais para o seu governo do que para a sua personalidade. Quando a reeleição não é possÃvel, o eleitor olha para os candidatos, nenhum deles exercendo o cargo que está em disputa, e avalia suas caracterÃsticas pessoais. Isso é algo lógico.
É exatamente pensando nas pessoas de José Serra e Aécio Neves, em comparação a Dilma Rousseff, Antonio Palocci ou qualquer outro possÃvel candidato do PT, que se pode afirmar o favoritismo dos tucanos para 2010. Comparem-se as figuras públicas e ver-se-á quem são os mais capazes para prometer o que vão prometer.
Serra goza de amplo reconhecimento em todo o Brasil. Para as pessoas da classe baixa ele é o homem que criou os genéricos. Os genéricos são sinônimo de medicamento mais barato. Pagar menos por algo que tenho de comprar sempre significa uma coisa muito simples: terei mais dinheiro no bolso para outras compras.
Ao se tornar o pai dos genéricos, Serra marcou em definitivo sua presença entre as pessoas de renda mais baixa porque contribuiu para que elas aumentassem sua capacidade de compra. Tanto isso é verdade que as pessoas de classe A e B valorizam não este, mas um outro atributo de Serra: o fato de ser um bom governador à frente do Estado mais importante da federação, São Paulo.
São muitos os atributos positivos de Serra: muito conhecido em todo o Brasil, alguém que cria e põe em prática legislações inovadoras e benéficas para o grande público, como são os casos recentes da Nota Fiscal Paulista e da lei antifumo - muito bem aprovadas pelos paulistas -, tem a imagem sólida de bom administrador, governa o segundo maior orçamento do paÃs, não pesam sobre ele denúncias ou escândalos de corrupção, está à frente de bons indicadores de emprego e desenvolvimento para São Paulo, etc. Ufa, a lista é longa.
Some-se a ela uma outra lista, a de atributos positivos de mais um tucano de grande destaque: Aécio, governador de Minas. Ele está em seu segundo mandato como governador desse Estado. Saiu de um mandato de deputado federal para o cargo de governador. Isso é raro, ainda mais na idade em que ele obteve tal feito. Esse passo gigante foi possÃvel porque antes Aécio tinha sido presidente da Câmara dos Deputados.
Ser presidente da Câmara, ou mesmo de uma Assembleia Legislativa, é algo obtido apenas pelos polÃticos jeitosos e conciliadores. Ser presidente da Câmara dos Deputados e, em apenas dois anos, tomar medidas de grande impacto que comuniquem uma imagem positiva para o presidente da casa não é fácil. Aécio conseguiu isso. Atualmente ele governa o segundo maior colégio eleitoral do Brasil e nestes quase sete anos de governo o neto de Tancredo Neves formou a imagem de bom gestor, divulgou aos quatro cantos que Minas, sob sua liderança, fizera um choque de gestão de grande envergadura.
Serra de um lado, Aécio de outro e Dilma contra ambos. Quem é Dilma? Sabemos que é uma petista tardia, de 25ª hora, o que mais? Sabemos que ocupa o cargo de ministra da Casa Civil do governo Lula, o que mais? Sabemos que já ocupou uma secretaria de Estado no Rio Grande do Sul, o que mais? Sabemos que foi guerrilheira. Não precisa mais nada. Dilma nunca disputou uma eleição, nunca foi eleita para nenhum cargo, nem o de vereadora em Porto Alegre. O currÃculo de Dilma está muito, muito aquém dos currÃculos de Serra e de Aécio. Mais aquém ainda se Serra e Aécio somarem seus currÃculos. Em eleição isso importa.
Qualquer eleição pode ser vista como uma entrevista de emprego. Os postulantes ao cargo, seja de presidente, governador ou deputado, se apresentam ao eleitor pedindo o voto. Os candidatos pedem um emprego para o eleitor, no caso de uma eleição nacional o emprego de presidente.
Recentemente, entrevistei várias pessoas para a vaga de jornalista em minha empresa. A primeira pergunta é clássica: por favor, conte-me um pouco sobre a sua carreira, sobre a sua experiência como jornalista. Por que o passado importa? Você confiaria em promessas de quem não tem passado? Confiaria em quem não tem um passado vinculado à quela vaga de emprego que você oferece? Suponhamos que um médico se candidatasse a um posto de assessor de imprensa. Creio que ele estaria em desvantagem diante de qualquer jornalista. O mesmo vale para a polÃtica.
Em 2010 os candidatos a presidente pedirão o seu voto. Eles vão fazer promessas para o futuro, dizer e mostrar como vão melhorar a sua vida. Porém, você só vai acreditar nas promessas, por melhor que sejam, se eles derem motivos para que acredite. Por se tratar de uma eleição sem candidato a reeleição, esses motivos virão, em grande parte, do currÃculo da pessoa. Façam-se três colunas em um papel e escrevam-se os currÃculos de Serra, Aécio e Dilma. A Wikipédia poderá ajudá-lo nessa tarefa. Olhando comparativamente esses currÃculos o leitor terá a chance de ver os motivos que levam Serra e Aécio a ser os favoritos para 2010.
Tive a chance de ver polÃticos irritados quando lhes era dito que tinham um nÃvel muito grande de lembrança ou recall, como se essa afirmação fosse um demérito. Como se recall fosse “só recall?” Recall não é pouca coisa. Por exemplo, não é tarefa fácil ser conhecido nacionalmente. Na verdade, isso é uma formidável barreira à entrada na competição polÃtica. Por que a maioria de nós, quase a totalidade, não tem a menor condição de ser candidato a presidente? Porque somos ilustres desconhecidos e o eleitor não vota em desconhecidos.
Ser desconhecido, porém, não é somente ser desconhecido, é muito mais do que isso. O recall ou nÃvel de conhecimento é uma forma de sintetizar o currÃculo do candidato, a avaliação da pessoa, seu reconhecimento, suas virtudes polÃticas. Por que a candidata do governo vem caindo nas pesquisas desde maio? Porque não é conhecida do eleitorado. E por que não é conhecida? Porque, ao contrário de Serra e Aécio, ela não tem um currÃculo polÃtico de grande envergadura.
Afirmei em meu livro “A Cabeça do Eleitor” que derrotar um governo bem avaliado não é tarefa para quem quer, mas sim para quem pode. Serra e Aécio são justamente os lÃderes polÃticos que podem fazer isso.
Dilma cresce rápido por causa de Lula e cai rápido por causa de sua falta de consistência. A sua falta de consistência recebe, por parte do eleitorado, o nome de desconhecimento: “Eu não conheço a candidata”.
O que acontecerá com Dilma quando Lula tiver que deixar sua candidata voar sozinha? Isso é inevitável. Será Dilma, e não Lula, quem irá aos debates. Será Dilma que terá que responder aos jornalistas em entrevistas coletivas ou situações de pressão. O currÃculo dela contribui para que tenha um bom desempenho em tais situações? A resposta é fácil: certamente não. Lula é o vento que sopra a sua pipa, mas para voar e permanecer no alto ela precisa ser leve.
(Valor Econômico, 02/10/2009)
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