O inimigo americano
25 / 12 / 2009 Convidado - Demétrio Magnoli
Não é falsa, mas gera pouca luz a tese predominante sobre as motivações originais da polÃtica externa do governo Lula. Essa tese assegura que a polÃtica externa inaugurada na primeira posse de Lula foi concebida como uma compensação “de esquerda” à polÃtica econômica ortodoxa capitaneada por Antonio Palocci e Henrique Meirelles.
As coisas são mais complicadas. Numa ponta, a substituição de Palocci por Guido Mantega introduziu uma ambivalência na polÃtica econômica, que agora combina um núcleo ortodoxo com iniciativas orientadas pelo programa do capitalismo de Estado. Na outra, a polÃtica externa sofreu uma inflexão sutil, que acentua suas inclinações antiamericanas. A crise em Honduras, a visita do iraniano Mahmoud Ahmadinejad e a aprovação parlamentar do ingresso da Venezuela no Mercosul delineiam os contornos de um novo cenário.
Na montagem de seu primeiro governo, Lula entregou nove décimos da polÃtica econômica aos liberais ortodoxos, deixando apenas o feudo do BNDES ao grupo nacionalista ligado a Carlos Lessa, que teve vida curta. A polÃtica externa, em contraste, foi dividida equitativamente entre os ultranacionalistas, representados pelo secretário-geral do Itamaraty, Samuel Pinheiro Guimarães, e a corrente majoritária petista inspirada pelo castrismo e personificada no assessor presidencial Marco Aurélio Garcia. O ministro Celso Amorim, um mestre da maleabilidade polÃtica, da dissimulação e do equÃvoco, ficou encarregado de administrar a coalizão de interesses, que só é estranha na superfÃcie.
A ponte entre as visões de mundo dos dois grupos é constituÃda pelo antiamericanismo. A esquerda bafejada pelo castrismo norteia-se por uma caricatura da teoria do imperialismo que substitui o sistema de relações da economia mundial pelo “império americano”. Os ultranacionalistas, cujas referências históricas formam um panteão que conecta Getúlio Vargas a Ernesto Geisel num mesmo “projeto nacional”, encaram os EUA como a fonte principal dos valores odiosos de democracia polÃtica e liberdade econômica. Uma polÃtica externa consistente, mesmo se abominável, pode emanar de tal coalizão.
Lula, hoje todos sabem, não é uma rainha da Inglaterra. Ele arquitetou seu governo como um caleidoscópio de grupos de interesses, mas nunca renunciou ao exercÃcio do comando efetivo. Amorim qualificou-o como o “Nosso Guia”, lançando mão de um panegÃrico ridÃculo para produzir uma asserção verdadeira. O presidente, um provinciano incorrigÃvel, jamais nutriu interesse pela polÃtica internacional, interpretando a polÃtica externa essencialmente como um instrumento para a edificação de sua imagem de estadista. No primeiro mandato, com essa finalidade, o “guia” definiu como meta prioritária a ascensão do Brasil à condição de membro permanente do Conselho de Segurança (CS) da ONU.
Lula cultivou uma relação pessoal com George W. Bush e o Brasil atendeu a um pedido expresso da Casa Branca para liderar a missão da ONU no Haiti, oferecendo uma solução à crise aberta por um gesto aventureiro dos neoconservadores americanos. O Itamaraty cuidou de amenizar a crÃtica brasileira à geopolÃtica de Bush no Oriente Médio e de não fazer nenhuma menção significativa aos escândalos de direitos humanos em Abu Ghraib e Guantánamo. O presidente e o ministro Amorim alimentavam a esperança de retribuição, na forma do apoio de Washington ao ingresso definitivo do PaÃs no CS. Mas, previsivelmente, os EUA decidiram não imolar sua polÃtica para a ONU no altar da obsessão do Brasil.
No segundo mandato, em virtude do fracasso daquela pleiteação, Lula afrouxou as rédeas que cerceavam o impulso antiamericanista da coalizão de polÃtica externa. A virulência desse impulso não diminuiu, mas cresceu, com a troca de comando na Casa Branca. O aparente paradoxo decorre de um temor fundamentado: enquanto as diretrizes de Bush serviam como contraponto ideal para as manifestações de apreço do Brasil a tiranos de diversos matizes, as de Obama tendem a restaurar a credibilidade dos valores polÃticos defendidos pelos EUA.
A alardeada “quÃmica pessoal” entre Lula e Bush deu lugar a uma crescente hostilidade retórica contra os EUA, expressa no tom arrogante das crÃticas à cessão do uso das bases militares colombianas, e a gestos antes impensáveis: a conversão da embaixada hondurenha em tribuna para Manuel Zelaya, o apoio explÃcito à duvidosa reeleição de Ahmadinejad e a proclamação de confiança no suposto caráter pacÃfico do programa nuclear iraniano. Nesse curso, pouco antes da visita de Arturo Valenzuela, novo secretário-assistente para as Américas, Marco Aurélio Garcia manifestou publicamente a “decepção” brasileira com a polÃtica de Obama para a América Latina – uma iniciativa que desafia as convenções da diplomacia entre paÃses amigos.
O ato mais recente na escalada triunfante do antiamericanismo foi a admissão pelo Senado do ingresso da Venezuela no Mercosul, uma decisão de amplas repercussões, derivada de intensa pressão do Executivo sobre a sua base parlamentar. A presença de Hugo Chávez implicará a “morte” do Mercosul original, como anunciou certa vez o próprio venezuelano, e sua conversão numa plataforma de denúncia permanente do “império”. Não é, obviamente, um cenário ideal para a parceria entre EUA e Brasil com a qual contava Obama na hora em que anunciou as grandes linhas de sua polÃtica latino-americana.
PolÃtica externa é a expressão internacional dos valores e dos interesses da sociedade nacional. Não é a esfera adequada para a veiculação de doutrinas partidárias ou de correntes ideológicas minoritárias. É o campo da unidade, não da confrontação interna. No primeiro mandato de Lula, a polÃtica externa brasileira oscilou no interior dos limites de uma tradição. No segundo, ela viola essa tradição, transformando-se aos poucos num pátio de folguedos de ideólogos irresponsáveis.
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