(Fotos: Claudio Mafra. Reprodução permitida mediante citação dos créditos. Clique nas imagens para ampliá-las)
“Sua escuridão era impenetrável. Olhava para ele como olharia alguém que se encontra no fundo de um precipício onde o sol nunca brilha” (Joseph Conrad)
O Querido Líder, Kim Jong-il, parece que ficou gravemente doente e correu pelo mundo a notícia de que poderia morrer. Para decepção dos seus magérrimos generais, que já estavam preparados para atacar suas famosas adegas e armazéns de comidas importadas, ele se recuperou, e voltou com a corda toda. Agora, está ameaçando, iniciar uma guerra se interceptarem o foguete que ele mandou passar por cima do espaço aéreo japonês. O mentiroso Querido Líder diz que está testando o lançamento de um satélite e que se alguém derrubar o foguetaço será o fim dos tempos, um novo conflito que todos os coreanos, do Norte e do Sul, temem desde o armistício firmado em 1953. Ele é um grande jogador e o mundo ocidental nunca sabe se está blefando. As maiores apostas são que sim, que ele não se atreveria a enfrentar o formidável poderio americano, e chegar ao fim de seus dias sendo exibido como um espetacular troféu de guerra. Acontece que a pequena fração de dúvida é suficiente para grandes temores. Afinal, ninguém conhece os limites de sua loucura, e mesmo com uma ação militar combinada USA-Coréia do Sul, parece que ele faria enormes estragos, matando por volta de 60 mil sul-coreanos. Kim Jong-il também acena para seus vizinhos e para os Estados Unidos, com a possibilidade de fabricar a bomba atômica. As negociações para impedir que siga avante com seu programa nuclear arrastam-se há muitos anos, da mesma maneira como acontece com o Irã. A diferença nos dois casos é que, para Kim, a bomba é apenas uma maneira de conseguir chantagear o Ocidente e conseguir dinheiro para se sustentar no poder. Para isso ele conta com a ameaça terrivel (e um louco sentimento de vingança) de poder vender seus segredos nucleares para os terroristas islâmicos.
Em 2004, resolvi viajar para a Coréia do Norte, saindo de Pequim, na China. Escrevi um artigo para o jornal O Estado de São Paulo. O que se segue é a matéria completa, sem a edição feita pelo jornal.
No país mais fechado do mundo, o último que conserva o stalinismo em seu estado puro, é terminantemente proibida a entrada de jornalistas sem expressa autorização do governo. A única agência de turismo em contato com os norte-coreanos exige que a pessoa assine uma declaração afirmando não ser da imprensa e faz uma longa advertência sobre as consequências de uma mentira. Afastada essa hipótese, e sem querer me expor, pedindo uma permissão que certamente seria negada, decidi tentar diretamente a embaixada norte-coreana, onde meu plano era o de contar uma meia verdade, dizendo ser um funcionário público aposentado querendo fazer turismo.
A tensão começa quando o soldado chinês abre o portão da embaixada. Tecnicamente eu e a minha intérprete já estamos em território da Coréia do Norte e este é um país muito perigoso. Fomos levados para uma pequena sala onde o funcionário, fumando um cigarro atrás do outro, abre um sorriso quando nos apresentamos e faz a habitual introdução que é o grande trunfo dos brasileiros em qualquer lugar do mundo: “Brasil, futebol”. Faltou a continuação, que é “Ronaldo, Rivaldo”, mas já está muito bom. A intérprete entra firme com a história do funcionário público e do turismo. Depois de alguns minutos de conversa ele se levanta e diz para voltarmos no outro dia. E assim foi durante toda a semana. Pequenas entrevistas onde a única coisa que muda é o preço da viagem, sempre subindo. Finalmente ele anuncia que eu vou poder viajar. O pacote é para quatro dias e cinco noites. Vou visitar a capital Pyongyang, as cidades de Muohyang, Kaesong, e um lugar especial, Panmunjom, na fronteira com a Coréia do Sul. Os hotéis, refeições, transporte e guias estão incluídos no preço de 860 euros. A passagem de avião Pequim-Pyongyang-Pequim custa 286 euros. No total são 1.146 euros, ou 1.433 dólares. O dólar foi oficialmente banido da Coréia do Norte, mas é o que eu tenho na mão, e ele o aceita sem qualquer hesitação. Um pouco sem graça me pergunta se eu quero que ele mesmo compre a passagem. Avisa que vai ficar mais caro. Não posso comprá-la sem sua autorização, é claro. Percebo que existe malandragem nessa história, procuro deixá-lo à vontade, e concordo com tudo. Também fico mais aliviado. Afinal não são tão durões assim. Imagino se ele não está arriscando o seu pescoço.
Na manhã seguinte, quando vou buscar os meus papéis, a intérprete me diz que não vou mais poder viajar. Será que eles descobriram alguma coisa? Não, é apenas um truque para gerar insegurança. O próprio funcionário já havia me advertido de que nada é definitivo. Eu posso ir, ou não, o programa ser mudado, ou até me despacharem de volta antes da hora. Estou tendo uma demonstração, no microcosmos, do que a comunidade internacional conhece como sendo a imprevisibilidade e truculência do comportamento norte-coreano. Mais alguns minutos de conversa e fica o dito pelo não dito – a viagem foi autorizada. Três horas antes do embarque me entregam o passaporte sem o visto, apenas com um papel carimbado, solto entre as folhas. A passagem é só de ida. Nenhum documento sobre os hotéis e sobre os guias. O funcionário da embaixada diz que é para eu não ficar preocupado. O pessoal dele vai me reconhecer por fotografia quando eu desembarcar. E a passagem de volta? Recebo outro “não se preocupe”. O engraçado nessa história é que eu tenho todos os motivos para me preocupar.
Finalmente embarco no avião russo, caindo aos pedaços, da Air Koryo. A viagem é curta, 1 hora e 40 minutos e, pela janela, a primeira visão que tenho da Coréia do Norte é a de um espaço desolador. As estradas chamam atenção pela ausência de veículos.
Após o desembarque, quando todos pegaram suas malas e foram embora, me deixando completamente sozinho no aeroporto, e já na iminência de ser interpelado por um guarda, achei que não tinha sido uma idéia muito boa haver entrado naquele avião. Eu me encontrava na delicada posição de não haver contado toda a verdade sobre a minha identidade e, no feroz regime da Coréia do Norte, o sequestro, a tortura, a morte, ou o confinamento em campos de concentração são uma rotina. Neste estado paranóico, todo estrangeiro é um potencial agente da CIA planejando assassinar o líder. O governo norte-coreano já provou várias vezes não ter a menor preocupação sobre o que pensa o resto do mundo a respeito do seu comportamento delinquente. Protestos diplomáticos e apelos de organizações internacionais são sumariamente ignorados.
CONTINUA:
Parte 3 – MAGROS PRISIONEIROS PERPÉTUOS
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