Mísseis na borda da Europa

1 de dezembro de 2008
Autor: Convidados

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“Porque as bases estão se aproximando da Rússia, era preciso conversar antes com a Rússia.” Frank-Walter Steinmeier, ministro do Exterior da Alemanha, referia-se aos sítios previstos para a instalação de mísseis antimísseis, na Polônia, e seus sistemas de radar, na República Checa. “Não precisamos de novos mísseis na Europa”, concluiu o alemão, ecoando o que pensa a maior parte da opinião pública européia.

O plano americano, divulgado em janeiro, de instalar elementos do sistema Thaad (Defesa Aérea de Teatro de Alta Altitude) nos dois novos membros da Otan e da União Européia provocou reações extremadas na Rússia. Moscou não deu ouvidos à alegação de Washington, de que o escudo se destina a proteger a Europa contra mísseis iranianos, e ameaçou retomar a produção de mísseis de alcance intermediário.

Há cinco anos, para avançar no projeto do escudo global Thaad, os EUA declararam morto o venerável tratado ABM, de 1972, que praticamente proibiu a construção de sistemas antimísseis e serviu como arcabouço para todos os subseqüentes tratados de limitação de armas estratégicas da guerra fria. Os russos, que espernearam contra aquela decisão, acusam agora os americanos de rasgarem disfarçadamente o tratado INF, firmado por Ronald Reagan e Mikhail Gorbachev em 1987, que eliminou os mísseis de alcance intermediário dos EUA e da URSS. Tecnicamente eles têm razão: os mísseis defensivos previstos para a Polônia poderiam ser convertidos em vetores ofensivos e atingir as principais cidades russas, distantes menos de 2 mil quilômetros.

A reação russa marca uma nova etapa nas relações entre Moscou e Washington. O Ocidente perdeu a Rússia durante o turbulento governo de Boris Yeltsin, quando americanos e europeus assistiram impassíveis à degradação da economia russa, ao seqüestro da riqueza do país pelas máfias e à desgraça dos jovens reformistas liberais, que sonhavam construir uma sólida ponte entre a potência do leste e a Europa. Sob o regime autoritário de Vladimir Putin, embalada pelas rendas do petróleo, a Rússia redefine seu lugar na ordem mundial. Um limite foi atingido em 2005, com a “revolução laranja”, na Ucrânia, interpretada como uma conspiração urdida nos EUA. Um outro, com a aproximação da Geórgia com o Ocidente, que converte a pequena nação do Cáucaso em corredor para os dutos que circundam a Rússia e conectam os campos de petróleo e gás do Azerbaijão à Turquia e ao Mediterrâneo.

O episódio dos mísseis transbordou o copo de cólera. Um documento oficial russo de diretrizes de política externa avalia que “o mito sobre o mundo unipolar se desintegrou de uma vez por todas no Iraque”. O texto retoma o fio do audacioso discurso de Putin em Munique, em fevereiro, no qual o chefe do Kremlin gelou o sangue do secretário de Defesa americano, Robert Gates, e da chanceler alemã, Angela Merkel, ao denunciar “ações unilaterais e ilegítimas” dos EUA, que “exibem desdém cada vez maior” pelas leis internacionais.

Os EUA parecem ouvir a voz, agora estridente, da Rússia. A secretária de Estado, Condoleezza Rice, se declarou pronta a dialogar com Moscou. Entretanto, tudo indica que Rice colocará sobre a mesa a carta do respeito às prerrogativas russas no seu “Exterior Próximo”, não o projeto do escudo antimísseis na Europa centro-oriental. O primeiro tema incide sobre a Doutrina Bush, isso é, a política de “difusão da liberdade” no mundo, que declina atrás do horizonte do fracasso no Iraque. O segundo, sobre uma prioridade americana, desenhada antes de Bush, que condensa uma estratégia mais ampla. Nessa fase de ocaso dos neoconservadores, Washington pode abandonar a Ucrânia e o Cáucaso à própria sorte, mas não renunciará a prender a Europa na teia da segurança transatlântica.

“Se quero falar com a Europa, qual número devo discar?”, indagou certa feita Henry Kissinger, enfatizando o fato de que a unidade européia não gerou um super-Estado. Desde os tratados de Maastricht (1992) e de Nice (2001), a União Européia persegue uma política de defesa comum. Há oito anos, vencidas as resistências britânicas, foi criado o cargo de alto representante europeu para a política externa e de defesa – e, quando Javier Solana passou a ocupá-lo, Bill Clinton exclamou que se cumprira o desejo de Kissinger de ter um número telefônico da Europa.

A meta da política de defesa comum permanece distante, neste aniversário de meio século da Europa de Roma, mas a guerra do Iraque conferiu urgência aos compromissos solenes. Logo após a queda de Bagdá, desafiando Washington, a União Européia deflagrou o estágio inicial do Sistema de Posicionamento Galileo, uma alternativa ao GPS americano, que pode ser desabilitado em caso de guerra por decisão do Pentágono. Em seguida, aprovou a Estratégia de Segurança Européia, que nutre a ambição de figurar como contrapartida da Estratégia de Segurança Nacional dos EUA.

Agora, diante da encruzilhada dos mísseis, franceses e alemães solicitam que o tema seja transferido para o âmbito da Otan, no qual a tomada de decisões obedece à regra do consenso, e Javier Solana conclama poloneses e checos a se curvarem ao princípio de que a sua soberania militar “deve se tornar compatível com o interesse geral da União na segurança”. Washington, por seu lado, já indicou que não admite a hipótese de subordinar o escudo antimísseis na Polônia e na República Checa às deliberações da Otan.

O que está em jogo é precisamente a existência de um “interesse geral da União na segurança”. A distinção conceitual de Donald Rumsfeld, então chefe do Pentágono, entre a Nova Europa e a Velha Europa, traduz a maldição que os EUA lançaram sobre o projeto de defesa comum européia. Washington pretende impedir a decupagem estratégica entre os EUA e a Europa – o evento singular que geraria uma ordem multipolar. Os alvos verdadeiros dos mísseis americanos na borda leste da União Européia não são a Rússia ou o Irã, mas Paris, Berlim e Bruxelas.


Demétrio Magnoli, é sociólogo e doutor em geografia humana pela USP.

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