Manuel Ayau: herói da liberdade

3 de outubro de 2010
Autor: Mary Anastasia O'Grady - Convidada

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No alto de uma colina com vista para o pitoresco lago vulcânico Amatitlán, na Guatemala, Manuel “Muso” Ayau — possivelmente o mais influente herói da liberdade da América Latina na segunda metade do século — partiu para o descanso no mês passado.

Eu vim ao local, 40 dias depois, para assistir uma cerimônia memorial. De manhã cedo, deixo a Cidade da Guatemala e viajo uma hora para o monastério grego ortodoxo que agora abriga a cripta de Ayau. Muitos amigos da região e da Espanha se cumprimentam. A multidão transborda pelos fundos da pequena igreja. Somos jovens e velhos, latinos, europeus e gringos, crentes e incrédulos, mas todos compartilhamos a mesma tristeza de termos perdido um professor, mentor, líder e amigo. Mais tarde, na prestigiosa Universidade Francisco Marroquín (UFM), o ponto alto do legado de Ayau, aproximadamente 300 pessoas se amontoam no pátio para uma celebração da sua vida.

Americanos desencorajados pela erosão dos direitos individuais nos Estados Unidos poderiam aprender muito com a corajosa jornada de Ayau. Em poucos casos uma única vida contribuiu tanto para a causa da superação da tirania simplesmente através do comprometimento com a promoção do livre pensamento — e ele o fez em um ambiente extremamente hostil à liberdade.

Ayau, nascido em 1925, era um engenheiro educado nos Estados Unidos. Mas foram os seus instintos como empreendedor na Guatemala que moldaram seu destino como um ícone da liberdade. Ele iniciou e dirigiu diversas empresas de sucesso, incluindo uma companhia de gás industrial e uma fábrica de pisos. À medida que trabalhava, ele ficava perplexo com a contradição entre o potencial empreendedor do país e o alto número de empresas fracassadas. Isso motivou-o a procurar respostas para a pobreza e subdesenvolvimento insistentes na Guatemala.

Foi uma época turbulenta. Os comunistas miravam a Guatemala. Em 1954, seu homem, o presidente Jacobo Arbenz, foi derrubado. O que se seguiu foi uma mistura tóxica de governos militares e uma insurreição de guerrilha que espalhou violência pela nação.

Em meio a esse tumulto surgiu Ayau, juntamente com seis guatemaltecos de pensamento similar, armados apenas com o desejo de descobrir as ideias que poderiam tranformar seu país em uma nação justa e próspera. Eles criaram o Centro de Estudos Econômicos e Sociais (CEES), em novembro de 1958. O objetivo, escreveu Muso em uma autobiografia de 1992 sobre a fundação da Universidade Francisco Marroquín, “era estudar e disseminar os princípios éticos, econômicos e legais de uma sociedade livre”.

Ayau e seus colegas liam vorazmente e debatiam vociferantemente. “Todos nós éramos autodidatas nesses assuntos, o que viria a absorver muito do nosso tempo”, ele relembrou. Nos cinquenta anos seguintes, o CEES publicaria mais de 900 panfletos em defesa do mercado. As muitas contribuições de Ayau (98) incluía títulos como “Sobre a moralidade do governo”, “Planejamento: racional ou absurdo” e “Robinson e Sexta-feira inventaram o mercado comum”. Em outubro de 1978, ele escreveu um ensaio em um panfleto do CEES chamado “Controle de preços”, enquanto Milton Friedman redigiu “Em defesa do dumping” na mesma publicação.

Aqueles panfletos alcançaram toda a região. O peruano Enrique Ghersi, um dos coautores do best-seller de 1986 The Other Path [O outro caminho], diz que um deles, chamado “Dez lições para o subdesenvolvimento”, foi “essencial para despertar em mim a vocação e compromisso para defender a liberdade”. O CEES trouxe à Guatemala gigantes intelectuais como Ludwig Von Mises (1964), Friedrich Hayek (1965) e Ludwig Erhard (1968).

Promovendo tais ideias, Ayau ia contra os comunistas, mercantilistas, sindicatos do setor público e planejadores centrais em instituições poderosas como o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento. Mas ele estava apenas começando.

Chegados os anos 1960, estava claro que a esquerda, com toda a sua intolerância, era quem controlava a academia na Guatemala. Portanto, em 1971, Ayau e seus companheiros defensores da liberdade fundaram a UFM em uma casa alugada com contribuições de um punhado de guatemaltecos totalizando US$ 40.000. Oito estudantes se formaram na primeira turma. No ano passado, foram 509.

Os alunos formados pela Marroquín estão entre os mais procurados no país pela sua competência. Mas a universidade diz que há algo mais que os torna únicos: “Todos os estudantes, independentemente da disciplina, são ensinados a respeito das causas e origens da riqueza das nações”. Aleluia.

Ayau não viveu para ver tudo que sonhou para a Guatemala, mas ele chegou a testemunhar algumas grandes mudanças das quais pôde se orgulhar. Ex-alunos da UFM influenciaram a reforma constitucional de 1993 para proibir empréstimos do banco central para o governo, a lei de telecomunicações de livre mercado de 1996 e a lei que tornou moedas competidoras dinheiro de uso legal em 2001. Um viajante no tempo vindo dos anos 1960, quando Ayau começou a desafiar o estatismo ao mesmo tempo em que Fidel Castro moldava sua manifestação definitiva em Cuba, poderia se surpreender ao ver de quem são as ideias que melhor resistiram ao teste do tempo.

Talvez o Sr. Ghersi, que compareceu à cerimônia aqui, capture melhor a contribuição de Ayau nestas palavras: “É decisivo na história da liberdade. A UFM é a santa sé do liberalismo [clássico] na América Latina; e Manuel Ayau é nosso papa”. Descanse em paz, Muso.

Publicado originalmente no Wall Street Journal. Reprodução do site “OrdemLivre.org

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Os artigos assinados não traduzem a opinião do Instituto Millenium. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate sobre os valores defendidos pelo Instituto e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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