Haiti – O calor! O calor!

18 de novembro de 2009
Autor: Claudio Mafra

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Fotos: Claudio Mafra. Reprodução permitida mediante citação dos créditos

 Haiti – O calor! O calor!

A patrulha brasileira sai do antigo reduto de criminosos, o Forte Nacional, na favela de Bel-Air, com o objetivo de intimidar os bandidos e confraternizar com o povo haitiano. O Major Lídio está no jeepão da ONU com mais 5 soldados que devem estar assados dentro de tanto uniforme e equipamentos de proteção. Sou dispensado do colete à prova de balas porque já viram que eu não vou usar de jeito nenhum. Mesmo de bermudas e camiseta  já estou quase nocauteado pelo calor.

O carro vai devagar entre as vielas do antigo Fort Dimanche, lugar onde Papa Doc enterrava vivos os seus adversários, e que hoje é uma favela degradante. Em nossa passagem somos muito bem recebidos. Todos estão acenando.  É divertido ouvir os soldados brasileiros dizendo “bonjour!”, para os haitianos.   Foram treinados para serem especialmente educados:  “Bonjour madame, bonjour monsieur, merci, merci… “ Tão populares, e não se trata do futebol, a eterna motivação que ajuda os brasileiros no exterior. Além de serem combatentes da ONU, ainda gozam do prestígio do maravilhoso trabalho feito pelo major Lídio.  Ele ajuda  as crianças de até 16 anos. Na área médica foi construída uma clínica geral e odontologica. Na educacional ensinam informática, formação de agentes de saúde, português, inglês, espanhol. Além disso tem capoeira, dança, corte de cabelo, gincanas pinturas, artesanato, futebol e atletismo. As crianças participam de jogos, aprendem uma profissão, ou simplesmente saem por algumas horas do convívio sufocante nas favelas.

O próprio major é uma figura única. Tornou-se famoso. Por ser muito grande e forte, é chamado de BIG- LI. É um ídolo das crianças. De longe elas já o identificam e vem correndo aos gritos de BIGLI!, BIGLI!, BIGLI! Agarram-se ao seu corpo. Gritam de alegria. Ele não consegue se mover. Em nenhum momento olharam para a minha câmera. Lágrimas correm pela sua face . Ele conhece a maioria delas, chamando-as pelos nomes. Enquanto andamos me diz que vai sentir muitas saudades quando vier o próximo contingente. Custo a acreditar que o comando brasileiro possa ficar sem ele.

Sou levado para uma pequena escola improvisada e me pedem para que faça algumas perguntas aos meninos. Eu ensaio um pequeno discurso, as crianças atentas, educadas, e o professor, tão humilde, me agradece com toda sinceridade. A cena é muito comovente. Na saída está quente demais, estou sem boné, o major fica com medo de que eu pegue uma insolação e decide que tenho que ir embora. Ordens do general. Depois percebe uma minúscula mancha verde no meu braço. É água de esgoto. Diz que preciso me lavar imediatamente. Tudo aqui é perigoso para a saúde.

O médico François Duvalier, o “Papa Doc”, que esteve no poder de 1957 até 1971, é seguramente a figura mais famosa de toda a história do Haiti. Foi um ditador sanguinário, excomungado pela Igreja Católica por sua ligação com o vodu, um tipo de umbanda com traços de malignidade. Mas, a marca registrada de Papa Doca foi haver criado uma polícia especial subordinada unicamente a ele próprio. O Haiti é um país de negros, o número de mulatos e brancos é inexpressivo. Então, essa polícia exclusivamente de negros, vestindo ternos e gravatas escuras, uma espécie de versão haitiana do FBI, usando óculos escuros redondos ( o que foi novidade na época), fez sucesso em todo o mundo pelo exotismo da sua aparência, aliada a um comportamento de crueldade e mistério. Eram chamados pelos haitianos de Tonton Macoutes ( bicho-papão) cujo comportamento, segundo a imagem feita pelo meu chofer, era de “um búfalo, ou um leão na selva”. A personalidade e o visual tonton-macoute transformaram-se em um cult. A bem da verdade, o mundo da época só tomou conhecimento de que existia o Haiti por causa do fascínio macabro do seu regime. Um dos que ficaram impressionados foi o grande escritor inglês, Graham Greene, que esteve em Port-Au Prince em 1965, e escreveu o romance Os Comediantes, mostrando o terror da ditadura duvaliana. Greene hospedava-se no hotel Oloffson, que ele usou com o nome de Trianon como ponto de referência para alguns momentos no livro. Hoje, completamente decadente, o Oloffson continua apenas como expressão do colonial francês. Papa Doc não gostou do romance : “ O livro não é bem escrito. Como obra de um escritor e de um jornalista não tem nenhum valor.”

Com sua morte, François Duvalier foi sucedido pelo seu filho, Jean-Claude Duvalier, apelidado com perfeição pela imprensa internacional de “Baby Doc”, uma figura estranhíssima, gordo, ocioso, uma certa indefinição sexual. Ele foi deposto em 1986, fugindo para a riviera francesa aonde vive muito bem até hoje, gastando os milhões de dólares roubados pelo seu pai e por ele mesmo. A França burocraticamente recusa-se a extradita-lo. Enfim, quando Baby Doc se foi, acabou-se o charme do regime. Muitos haitianos repetem a eterna ladainha dos que prezam pouco a liberdade: “no tempo de Papa Doc era melhor, havia mais segurança”.

“O enfrentamento foi fortíssimo” – me conta o general Santos Cruz, enquanto oferece água mineral.  (O senhor tem certeza de que não tem outra coisa melhor, não?)  “Muito tiroteio, alguns soldados da Bolívia e da Jordânia foram feridos” Ele mesmo participou do fogo cerrado. “Nós temos que dar uma resposta proporcional, não podemos exagerar e correr o risco de altos danos colaterais, atingir os civis inocentes. Felizmente o preparo é muito bom, e conseguimos nos sair bem nas emboscadas.”

A ONU venceu a milícia e o Haiti não vive mais um problema militar. Continua sendo um dos países mais pobres do mundo, com a corrupção sugando todo o dinheiro que chega do exterior em programas de ajuda.

Para se sobreviver em Porto Principe a melhor coisa a fazer é ficar sempre em algum lugar que tenha ar-condicionado. Depois, precisa-se de um bom 4×4 para enfrentar os enormes buracos das ruas. O problema é que as entidades internacionais que trabalham para tirar o país do caos também sabem disso, e a maior de todas, a ONU – o grande cabide de empregos – deve ter de centenas deles, o que torna o trânsito insuportável. Falta luz regularmente. A água vem em caminhões pipa e tem cheiro de podre. Muita coisa é estranha: Os quadros que os haitianos penduram nas paredes ficam absurdamente tortos. É vodu ou alguma coisa cerebral? Se eles vivem em estado de penúria como é que conseguem estar sempre com a roupa limpinha? Por que no calor de “derreter catedrais” eu nunca vi um haitiano sem camisa, ou de bermuda ? Na chuva, fortíssima, você olha pela janela do carro e percebe, espantado, que eles vão andando devagar, sem guarda-chuva, como se nada estivesse acontecendo, parecendo zumbis. O que isso quer dizer?  Você vê mulheres lavando roupa na água do esgoto. O melhor mesmo é ir para a praia, na República Dominicana.

 Haiti – O calor! O calor!

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Os artigos assinados não traduzem a opinião do Instituto Millenium. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate sobre os valores defendidos pelo Instituto e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

  1. muito massa!! =]

    Carla


    20-11-2009 12:30:07

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