Global e internacional

9 de novembro de 2011
Autor: Murillo de Aragão

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Murillo de Aragão

Em debate na Universidade de Miami, percebi que existe uma grande confusão entre globalização e internacionalização. Mesmo para experientes observadores das relações internacionais e do mercado financeiro.

Muitos confundem globalização com fluxo de investimentos e abertura da economia. Creem que se mede uma economia globalizada por tais vetores.

Deixam de considerar que globalização é, sobretudo, a intensificação das relações sociais além das fronteiras geográficas. O que envolve não apenas economia, mas pessoas, hábitos, costumes e culturas.

A globalização representa muito mais do que investimentos diretos e especulativos em determinado país. Até mesmo porque tais investimentos podem não significar que o país seja verdadeiramente globalizado. O Brasil é, no campo da globalização, paradoxal.

Altamente globalizado, mas com uma economia pouco internacionalizada. É evidente que os aspectos econômicos da globalização aprofundaram a inserção – antes incipiente do Brasil – nas relações econômicas mundiais.

Vamos considerar, para efeito de nossos argumentos, o processo de abertura de nossa economia a partir do final dos anos 80. Basicamente, três aspectos foram tratados. No mercado de capitais, já no governo Sarney (1985-1990), ocorreram alguns movimentos com a edição da Resolução do CMN nº 1.289/87 e seus anexos.

Collor aprofundou tais movimentos. O segundo aspecto refere-se à redução das barreiras tarifárias. O terceiro, ao estímulo maior ao investimento estrangeiro, seja direto, no setor privado, seja na aquisição de empresas estatais.

Em 1990, o Brasil recebeu US$ 4,4 bilhões em investimentos diretos estrangeiros. Em 2000, chegamos a US$ 32,8 bilhões. Em 2006, o montante superou US$ 18 bilhões. Em 2010, foram US$ 48,5 bilhões. Este ano, os investimentos estrangeiros diretos no Brasil já acumulam US$ 50,5 bilhões de janeiro a setembro, o maior valor para o período desde 1947, segundo o Banco Central.

Em 2005, de acordo com pesquisa de Gustavo Franco na base de dados do BC, cerca de 34% do PIB era composto por empresas com algum tipo de participação estrangeira em sua composição acionária.

Já 25% do PIB eram constituídos por empresas com capital majoritariamente estrangeiro. Embora os números sejam extraordinários, o Brasil continua sendo um país pouco internacionalizado. Nosso comércio internacional representa menos de 3% do comércio mundial. O impacto do comércio exterior no PIB é inferior a 20%.

Apesar da relevância das empresas multinacionais no Brasil, seu papel na economia não é central. Ainda viajamos pouco para o exterior e recebemos poucos turistas, em comparação a outros destinos.

Paradoxalmente à baixa internacionalização do país, que apenas recentemente se descobriu sul-americano, somos um país altamente globalizado no que tange à cultura e às comunicações. Somos o quinto país em termos de acesso à internet, com mais de 80 milhões de usuários. O Brasil tem mais celulares do que habitantes.

Na esteira das comunicações, nossos costumes e hábitos são influenciados pelos modismos e tendências de fora. Na prática, ainda estamos na adolescência da globalização e na infância da internacionalização de nosso país.

Brasil Econômico, 08/11/2011

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Os artigos assinados não traduzem a opinião do Instituto Millenium. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate sobre os valores defendidos pelo Instituto e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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