Fretes e comércio exterior

7 / 5 / 2010 José Celso de Macedo Soares

Trato de tema de minha especialidade: transporte marítimo. Lembro os tempos em que fui Superintendente Nacional da Marinha Mercante.

Quando se fala em comércio exterior, seria bom pensar no que significam os fretes marítimos na formação do preço das mercadorias exportadas e na necessidade de termos uma marinha mercante eficiente. Poucos países prestam atenção à rubrica chamada “invisíveis” no balanço de pagamentos das transações internacionais. O Brasil não foge à regra. Um dos principais itens desta rubrica são os fretes marítimos que, juntamente com juros, amortização da divida externa, royalties, seguros etc., constituem a maioria dos pagamentos.

Nosso comércio exterior, em 2009, foi da ordem de US$ 280 bilhões, exportação mais importação, e 95% dos produtos foram transportados por via marítima. Daí se verifica a importância do frete, parte integrante do preço das mercadorias. O frete marítimo de longo curso está entre 10% e 12% do valor dos bens transportados, alguns itens atingindo 15%. Vê-se, pois, que são gerados, no mínimo, US$ 28 bilhões de fretes, receita auferida pelos navios. O importante é saber quanto deste total é transportado por navios de bandeira brasileira, gerando divisas para o país nesta época de “exportar ou morrer”.

Alguns anos atrás, o Brasil carregava em seus navios 42% das mercadorias do comércio exterior, ficando com o frete correspondente. Hoje o quadro é melancólico: o total é inferior a 3%. Tivéssemos mantido a porcentagem anterior, estaríamos gerando divisas de cerca de US$ 12 bilhões. Em vez disto, estamos com um déficit anual de US$ 10 bilhões na rubrica fretes marítimos. Quem não controla os fretes marítimos, de uma maneira ou de outra não controla o preço dos bens importados ou exportados. Nesta batalha internacional que é o comércio exterior, muitas mercadorias se tornam gravosas pela simples manipulação dos fretes.

Com a revitalização de nossa industria naval, principalmente devido à indústria petrolífera, seria bom pensar em financiamentos adequados para construção de navios de carga geral e graneleiros de carga seca; eliminação de impostos para os componentes necessários para sua construção, aço principalmente, tendo em vista aumentar nossa frota mercante. O que se perderia nos impostos seria compensado com o ganho de divisas.

Todas as grandes nações protegem suas frotas mercantes, principalmente “debaixo do pano”.  Lembro de um experimentado armador italiano  que há tempos conversava comigo: “Lembre-se, caro amigo: todos que navegam são piratas”.

Melhorar nossa receita de fretes marítimos não depende da eliminação de nenhuma barreira estrangeira. Depende de nós mesmos e de engenho e arte. Já é tempo de o Brasil começar a pensar seriamente no assunto.

Olhando o panorama atual dos fretes marítimos, não posso deixar de lembrar de John David Wright, empresário americano: “Fazer negócios é como andar de bicicleta. Ou você continua pedalando ou você cai”.

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Comentarios

2010-09-09 10:17:24
Mea culpa: imbróglio, não embróglio......
Claudio Oliva de Lyra