Exportações e transportes

16 de julho de 2010
Autor: José Celso de Macedo Soares

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O candidato José Serra disse, outro dia, uma verdade insofismável: “Custa mais caro transportar soja de Mato Grosso até Paranaguá ou Santos, que destes portos à China”. Repetiu o que venho escrevendo, há anos, sobre a deficiência da infraestrutura de transportes no Brasil e a má escolha do tipo de transporte usado. País com mais de 40.000 quilômetros de vias fluviais navegáveis, pouco uso faz delas. Nossas ferrovias foram mal administradas quando estatais e, só agora, ensaiam ligeira recuperação, quando as deficitárias estatais foram privatizadas. Baseamo-nos inteiramente no transporte rodoviário, o mais caro de todos e, além disto, tem seus custos aumentados pelas péssimas condições das rodovias. Pode-se afirmar que, por causa físicas, em números médios, o transporte por hidrovias é 4 vezes mais econômico que o ferroviário e 12 mais econômico que o rodoviário. Os números são claros. O Brasil, em todos recentes governos, tem negligenciado o aproveitamento das vias fluviais e das ferrovias. Vou citar alguma obras que, no meu entender, como especialista no estudo do transportes no Brasil, considero altamente prioritárias.

Em primeiro lugar vem a Hidrovia Araguaia-Tocantins. O rio Tocantins, com a construção da barragem de Tucuruí e terminação da construção da eclusa, tornar-se-á navegável numa extensão de 715 km, desde Belém até Imperatriz (MA). No rio Araguaia, afluente do Tocantins, espera-se a construção da barragem de Santa Isabel, obra simples com projeto e concorrência de construção realizados. No entanto a obra está paralisada desde 2002 por objeções do Ibama. Vencido este obstáculo, o interior do Brasil ficaria com excelente hidrovia com 2515 km, desde Belém até a cidade de Balisa (GO). Mato Grosso é hoje o maior produtor de soja do país, e a soja, em vez de escoar-se pelo porto de Paranaguá ou Santos, seria embarcada pelo porto de Vila do Conde, próximo a Belém. Isto economizaria 5000 milhas marítimas e o transporte rodoviário até aqueles portos, com notável barateamento do preço da soja brasileira no mercado mundial pois, como disse anteriormente, o transporte hidroviário é 12 vezes mais barato que o rodoviário.

Outra importante obra é a Ferrovia Norte-Sul que partindo de Açailândia (MA), onde se interliga com a estrada de ferro Carajás, já construída, segue em direção ao sul, até Senador Canedo (GO) completando a ligação com o sistema ferroviário sul. Uma vez concluída, trará grandes benefícios à região central do Brasil, onde grandes empreendimentos agropecuários estão em desenvolvimento, mas carentes em transportes, encarecendo a produção. A soja produzida poderia escoar-se pelo bem equipado porto de Itaquí, em São Luis, dos mais bem dotados do país em matéria de calado, podendo receber navios até 300.000 tdwt e, excelentemente bem equipado para graneis e carga geral. A obra está incluída no PAC mas, lamentavelmente, vai a ritmo lento.

Terminando, não posso deixar de lembrar o que dizia o naturalista Saint Hilaire em seu livro “Viagem às nascentes do Rio São Francisco”, escrito em 1824, comparando nossos rios aos rios europeus: “Como são insignificantes nossos cursos de água, comparados com estes rios caudalosos e extensos, que atravessam tantas e tão variadas regiões e cujas águas depois de banharem a floresta majestosa da zona tórrida, vão regar a humilde vegetação dos climas temperados. Infelizmente, muitos anos ainda vão escoar-se antes que os brasileiros possam tirar bons proveitos da natureza e que contem com outros meios de comunicação além de seus burros, atualmente os únicos navios de seus desertos.”

E lá se vão 186 anos desta profecia. Espero que o candidato Serra, uma vez eleito Presidente, lembre-se do que disse como candidato. Vamos esperar e confiar porque, como disse Cesare Pavese, escritor italiano: “Esperar é ainda uma ocupação. Terrível é não ter nada que esperar”.

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Os artigos assinados não traduzem a opinião do Instituto Millenium. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate sobre os valores defendidos pelo Instituto e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

  1. Prezado Jose Celso de Macedo Soares

    Como um cidadão paulistano, conheço muito bem o candidato José
    Serra, em momentos de campanha politica um critico severo em
    relação aos problemas do Brasil.
    Porem como governante, suas ações são absolutamente antagonicas
    as anteriores, como um simples exemplo posso citar as rodovias
    do estado de São Paulo, privatizadas em seu governo!
    Os custos de pedagios nas estradas paulistas são abusivos, chegam
    ao absurdo de serem mais altos de que os custos de combustivel
    gastos em determinados trechos!
    Portanto as afirmações do Senhor Serra devem merecer muito cuidado
    por parte de todos nós.

    Atenciosamente
    Jose Paulo de Macedo Soares Junior

    José Paulo de Macedo Soares Junior


    21-07-2010 08:22:33

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