Em torno da estatística da tragédia
Alberto Carlos AlmeidaPor que os acidentes aéreos são sempre tão chocantes? Quais são as características dessa modalidade de tragédia que levam as pessoas a se mobilizar de forma tão emocional? Por que causam tanta comoção? Nas guerras mata-se e morre-se mais. Na criminalidade brasileira também. Nos dois casos não há a comoção que existe quando acontece um acidente aéreo de grandes proporções. Vale fazer uma breve reflexão acerca desse fato.
Em primeiro lugar, os grandes acidentes aéreos matam muitas pessoas de uma só vez, em apenas um episódio. Isso também ocorre em guerras, mas em situações excepcionais, quando uma escola cheia de civis ou um hospital é severamente bombardeado. É aí que entram outras características que tornam ímpar a fatalidade aérea. Qualquer guerra é deplorável. Mas, uma vez estabelecida, espera-se que haja mortes, muitas mortes. A maioria delas daqueles diretamente envolvidos no front de batalha. Mas é impossível evitar que ocorram perdas civis. Guerra é sinônimo de morte, acidente aéreo, não.
Adicionalmente, nos acidentes aéreos sabemos quase imediatamente a identidade e vemos flashes da história de vida de todas as vítimas. Há os recém-casados, os executivos em viagem de trabalho, os amigos ou amigas em viagem de férias, filhos que foram rever os pais, e toda sorte de situações bastante humanas. Os mortos em guerra também têm suas histórias de vida, mas não é possível interromper o conflito e mostrar na TV quais são elas.
Os acidentes aéreos matam de uma só vez muita gente. O acesso à identidade das vítimas é imediato. Em qualquer voo vamos encontrar pessoas que estavam lá rumo ao lazer ou ao trabalho. Eis o coquetel que nos deixa imensamente chocados. Adicione-se a isso que todos os passageiros de qualquer voo estão indefesos. Eles não têm nenhum controle sobre os destinos do avião.
Tenho um amigo que, viajando de ônibus, percebeu que o motorista estava com sono. Ele tomou medidas de autoproteção e também de proteção dos demais passageiros. Dirigiu-se ao motorista e pediu que ele fizesse uma breve parada porque estava passando mal, enjoado. Quando voltou da parada, sentou-se ao lado do motorista e passou o resto da viagem conversando com ele. O motorista perdeu o sono e guiou com segurança até o destino. Em viagens aéreas qualquer ação equivalente é impossível.
Nós pensamos a mesma coisa sobre todos os voos que têm o mesmo destino do AF 447: morreram centenas de pessoas inocentes, que tinham uma vida pela frente, morreram sem poder fazer nada para se defender, vidas ceifadas inutilmente, perdas imensas sem propósito algum. Para os que ficam, parentes e pessoas próximas, um sofrimento incomensurável que provavelmente deixará em muitos sequelas psicológicas para o resto da vida. Para a maioria que acompanha os trágicos acontecimentos a distância, pela mídia, a dor da empatia ao sofrimento alheio e o medo de se expor ao que inevitavelmente ocorrerá, um novo acidente aéreo.
Acidentes podem aumentar ou diminuir, porém nunca são zerados. Não existe taxa zero de acidente aéreo. A possibilidade de uma pessoa morrer em um acidente aéreo é de uma em oito milhões. Isso significa que, se você voar uma vez por dia, todo dia, escolhendo de forma aleatória a companhia e o avião de tal voo, levará 21 mil anos para que morra em um acidente aéreo (fonte: www.planecrashinfo.com/rates.htm). Todos sabemos disso. É por isso que sempre que entramos em um avião temos a total confiança de que chegaremos vivos ao nosso destino.
É por isso que aqueles que já estiveram em momentos de tensão dentro de um avião, foram vítimas de uma forte turbulência ou algo assim, acreditaram sempre que nada mais grave iria acontecer. O medo momentâneo de quem passa por uma situação dessas convive com a esperança estatística de que uma coisa muito rara jamais vai acontecer justamente com ele.
Se não fosse assim, não haveria tanta gente embarcando em aviões em todos os lugares do mundo. Voa-se muito porque o risco de morrer em um acidente aéreo é muito pequeno. No caso do voo da Air France, e também no da Gol 1907, o acidente aconteceu na mais improvável das situações: o avião estava em cruzeiro, não era nem na decolagem e subida nem na descida e aterrissagem. O avião navegava rumo à Europa, provavelmente em velocidade de cruzeiro e, desde que não houvesse razão contrária, seguindo as instruções do piloto automático.
Apenas 6% dos acidentes e 12% das mortes acontecem nessa fase do voo. Em voos de uma hora e meia de duração essa fase do trajeto corresponde a 57% de todo a viagem. A maior parte das mortes, 47%, acontece na decolagem e na subida, até que o avião atinja a altitude de cruzeiro, ao passo que 39% das mortes acontecem na descida e aterrissagem. Na verdade, a aterrissagem propriamente dita concentra a maior proporção de acidentes, 45%, mas a menor proporção de mortes, somente 2%. Isso acontece provavelmente porque o avião está em solo, em baixa velocidade e com os tanques de combustível vazios.
Essa tamanha improbabilidade de um acidente na fase de cruzeiro do voo explica a veemência das primeiras entrevistas de especialistas, assim como as hipóteses aventadas de ataque terrorista. Explica igualmente uma parte importante de nossa comoção: não é possível que nada pudesse ter sido feito, ainda mais por se tratar de uma fase do voo supostamente tranquila, na qual não há razão para preocupação. Pessoas comuns, passageiros e pilotos pensam assim. Todos conhecem, na prática ou teoricamente, essa estatística.
Adicione-se a isso o fato de os acidentes aéreos causados por condições climáticas e meteorológicas serem igualmente raros. Desde os anos 50 os acidentes aéreos são classificados de acordo com a sua mais provável causa. O erro do piloto é a causa líder: responsável por 50% de todas as ocorrências. Essa causa pode ser dividida em 29% quando o erro do piloto não foi produzido ou motivado por nenhuma outra condição adicional. A outra subdivisão é o erro do piloto causado por condições climáticas, com 16%, e, por fim, erro do piloto induzido por condições mecânicas, com 4%.
Há outros tipos de falhas humanas, como a de controladores de voo, que vêm sendo responsáveis por 7% dos acidentes aéreos. Somadas, as falhas humanas causaram 57% de todos os acidentes aéreos desde os anos 50. Em segundo lugar encontramos as falhas mecânicas, com 22%. É possível que algumas dessas falhas se tenha originado em falhas humanas no momento da manutenção dos aviões, nunca se saberá ao certo. O fato mais relevante que diz respeito ao acidente da Air France é que 12% dos acidentes se devem às condições climáticas. Nesta década, apenas 8% dos acidentes aéreos se originaram da situação do clima e do tempo.
Quem conhece probabilidade sabe, portanto, que as chances de que ocorresse o acidente com o voo AF 447 é 6% (probabilidade de acidente em cruzeiro) vezes 12% (probabilidade de acidente causado pelas condições climáticas). Supondo-se que se tratam de dois eventos independentes, e considerando-se somente os acidentes efetivamente ocorridos, isso totaliza uma chance de apenas 0,72%.
As mesmas estatísticas e bases de dados (www.planecrashinfo.com/rates.htm) que atestam a raridade do fato acontecido no dia 31 comprovam também que a Air France, comparando-a com outras companhias aéreas, não é das mais seguras. Tomando-se 88 empresas de todos os continentes e a quantidade de voos que elas operaram entre janeiro de 1989 e dezembro de 2008, descobre-se que a empresa mais segura é a americana Delta Airlines. Ela realizou pouco mais de 16 milhões de voos com apenas um evento fatal. Enquanto isso, a Air France fez pouco mais de 6 milhões de voos com três eventos fatais.
Na lista das 88 empresas a Air France fica no 65º lugar. No Brasil, nós nos sentimos seguros quando voamos de TAM ou de Gol. Assim, para termos uma comparação, a Gol e a TAM estão piores do que a Air France, ocupando, respectivamente, as 72ª e 82ª posições. A Gol fez quase 1 milhão de voos com um evento fatal e a TAM fez dois milhões de voos com quatro eventos fatais. As duas companhias menos seguras do ranking são India e China Arlines. A russa Aeroflot fica na 81ª posição. Brasil, China, Rússia e Índia. Não parece coincidência. Todos países continentais e emergentes, isto é, não plenamente desenvolvidos.
Eventos raros, muito raros, ocorrem. Quando são eventos felizes, como ganhar na Mega-Sena, não há, obviamente, comoção. Vibramos com o sucesso alheio. O acidente com o Airbus da Air France foi uma tragédia muito improvável. Foi o 21º acidente mais grave da história da aviação. Nada haverá que console aqueles que perderam seus amigos e parentes queridos. Porém, uma investigação rigorosa e transparente, com conclusões bem fundamentadas nas evidências que forem obtidas, ainda que escassas, vai ajudar sobremaneira a controlar e eventualmente reduzir as chances de que um evento dessa natureza volte a acontecer.
(Valor Econômico - 12/06/2009)
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