Dois dedos de prosa, e o indivíduo em extinção

1 de agosto de 2009
Autor: Antonio Fernando Borges

pequeno normal grande

Num único dia, qualquer dia, milhares de pessoas mundo a fora (indivíduos que não se conhecem) já perderam o bonde, o táxi, a chave de casa e a esperança, e outros (não poucos) perderam até o avião ou navio pontual onde começaria a viagem há tanto tempo sonhada.

Milhares perderam os amigos, o animal de estimação, o amor de suas vidas e, por culpa de um despertador que nunca tinha falhado antes, perderam a hora do trabalho, a prova de matemática, o exame de sangue em absoluto jejum.

Que nenhuma dessas pequenas/grandes tragédias tenha rendido uma nota miserável na imprensa prova apenas que a vida continua sendo um acontecimento individual – e nem todos se coletivizaram ainda.

E no entanto, e no entanto, e no entanto…

E, no entanto, na outra ponta da linha, é com espanto que lemos: num único dia, 70 mil pessoas perderam o emprego em multinacionais, graças à…crise do capitalismo neoliberal. Ficamos espantados não pelo número, não pelo acontecimento em si: espanta-nos a afirmação reducionista de que os 70 mil fatos constituem um único fato e que, graças à sociologia e à imprensa, a dor de cada homem é apenas fragmento de uma explicação “sociopolítica”, de uma teoria conspiratória qualquer.

Na raiz de nosso espanto, aninha-se a suspeita (pior: a quase-certeza!) de que a vida individual se encontra em franca extinção, em nome de um “outro mundo possível”. (Não olhe agora, mas alguma nova lei maligna acaba de ser votada para restringir seus direitos…)

Os muito politizados que me perdoem – mas uma pitada de Literatura é inevitável: na verdade, estes dois dedos de prosa são apenas uma tentativa menos “óbvia” de dizer que o Instituto Millenium está de parabéns pelo seu trabalho em defesa de valores como a democracia, a economia de mercado, a liberdade e o Estado de direito – essas armas indispensáveis contra a ameaça de extinção do indivíduo na face real (a única existente) do nosso planeta.

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Os artigos assinados não traduzem a opinião do Instituto Millenium. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate sobre os valores defendidos pelo Instituto e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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