Do apagão ao racionamento (de ideias)

18 de dezembro de 2009
Autor: Antonio Fernando Borges

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Em seus textos afiados sobre a riqueza das nações, Adam Smith observava que as proverbiais “necessidades materiais” dos seres humanos são na verdade bem poucas – e, sobretudo, relativamente fáceis de se resolver. Na verdade, dizia ele, os homens sempre lutaram por coisas mais profundas: quando correm atrás de trabalho e dinheiro, por exemplo, também estão em busca de identidade e dignidade – não importa que seja um grande magnata ou um trabalhador modesto.

Nem só de pão vive o homem: a advertência bem-intencionada de Smith vinha renovar esta verdade eterna, mas pretendia sobretudo vacinar a economia capitalista contra as acusações de “alienação” e “desumanização” – que, de fato, já vicejavam nas sombras. Mas, se até os deuses cochilam (como dizia Homero), nós humanos ressonamos profundamente, e só costumamos acordar com a casa pegando fogo. Resultado: as boas intenções do inglês pouco puderam contra a inoculação sistemática do veneno anticapitalista nas veias do senso comum. E assim, durante o recente apagão de energia elétrica, já não foram os intelectuais (the usual suspects), mas prosaicas donas de casa, que formaram um coro indignado e de dedo em riste para acusar as empresas concessionárias de priorizarem o lucro, e não a satisfação das pessoas.

Além de injusta (por ser um evidente erro de foco), a acusação traz à tona uma situação crônica, endêmica – quer dizer, muito pior: o absoluto desconhecimento dos mecanismos econômicos, lógicos e éticos do sistema capitalista, i.e., do mundo real. A idéia de que a busca do lucro, mais do que ilegítima, trabalha na contramão da oferta de bons produtos e serviços é um triste sinal de que, em países como o Brasil, o capitalismo não passou pela alfândega: entrou de contrabando e parece não ter disseminado – além de suas cifras – sua complexa cultura.

É importante lembrar que, na época de Smith, a economia se chamava economia política, remetendo a outras preocupações e outros símbolos, para além do simples esforço racional de sobreviver. Privada do adjetivo que a enriquecia, hoje a Economia (disciplina) parece já não dar conta da economia (realidade). Depois de Smith, afinal, vieram Marx, Lênin e o pesadelo da utopia socialista – cuja derrocada no Leste Europeu fez seus súcubos mudarem de tática e apostarem as fichas na guerra da cultura, pelas mãos sorrateiras de Gramsci & Cia.

Foi uma batalha desigual: como é justamente cultura capitalista o que nos falta, os valores foram postos de cabeça para baixo sem maiores problemas. Hoje, basta olhar em volta: incautos e desavisados vão abrindo mão de liberdade, consciência individual, Estado de Direito e até do amor à verdade. E tudo isso em troca de quê? Do tal “outro mundo possível” – ou, na linguagem banal do economês, de uma suposta satisfação das tais “necessidades materiais”, que sequer se concretiza.

Certamente, de Adam Smith a Max Weber e Ludwig Von Mises (e, indo mais lá atrás, Santo Tomás de Aquino), grandes homens já se debruçaram com brilho sobre os aspectos extraeconômicos do capital. Mas não dá para negar que os próprios economistas fizeram menos do que podiam: em suas elucubrações numéricas, a maioria deles se acostumou a passar ao largo da ideia de cultura – talvez porque ela não seja suscetível de uma definição simples e unívoca, e portanto não ajuda a estabelecer padrões claros ou matemáticos do comportamento humano. Em troca, preferem classificar as pessoas de carne-e-osso como “maximizadores da utilidade racional”, entre equações semelhantes.

Graças a este abismo ainda não transposto, floresce no senso comum a visão estreita do capitalismo como um mero “sistema econômico” – e que, no fim das contas, ainda nem foi inteiramente implantado no pais. Nem só de pão vive o homem, repete-se com facilidade – mas o mais difícil é parar de pensar no capitalismo (quer dizer, no mundo real) como a simples “busca do lucro nos negócios”, para aceitá-lo como ele realmente é: um sistema de valores inegociáveis, sobre o qual se assenta a civilização ocidental.

Caso contrário, iremos – de apagão em apagão – apostando num perigoso racionamento de ideias, perspectivas e esperanças. Prefiro apostar na claridade, em todos os sentidos, e faço coro com Goethe: “Mehr Licht! Mehr Licht!”

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Os artigos assinados não traduzem a opinião do Instituto Millenium. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate sobre os valores defendidos pelo Instituto e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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