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Alexandre Lourenço 03/08/2009

Dilúvio de informação: cadê a Arca de Noé?

Alexandre Lourenço

08 de julho de 1986: a partir de uma aula de bioquímica que relacionava entropia e informação, fiquei instigado em saber mais do assunto. Caminho: deslocar-me para a Biblioteca das Químicas da USP, vasculhar livros e periódicos por horas, entrar na fila do xerox e voltar pra casa com pouco material. Em casa, ao analisar o resultado colhido, me dou conta de que há meia dúzia de referências em outras bibliotecas que podem ser úteis. Volto à USP na semana seguinte pelo menos mais três vezes. No final, 12 artigos interessantes obtidos a partir de algo como 200 fontes iniciais.

08 de julho de 2009: coloco no Google os termos que serviram de base para a minha pesquisa ancestral há mais de duas décadas. Resultado (sem que eu precise sair da cadeira): em português, 2.997.000; em inglês, 533.860.000. Somo as duas: 536 milhões de potenciais sites de referência. Em um exercício de imaginação, especulo como seria se eu fosse aquele menininho chamado Flecha do filme Os Incríveis e levasse 1 segundo para avaliar cada uma dessas referências…

08 de julho de 2026: finalmente termino de avaliar todas as referências depois de passar 17 anos trabalhando ininterruptamente com a velocidade de um raio.

Nem Os Incríveis são páreo para o dilúvio de informação atual.

Caricaturas à parte, os números acima servem para ilustrar um problema que, embora não sendo novo (em ciência ele já era citado e debatido em 1982 [1]), tomou uma magnitude descomunal na era da Internet: o excesso de informação.

O gigantesco volume de dados e seu acesso simples, rápido e direto através da Rede Mundial são aspectos inevitáveis e profundamente transformadores deste início de milênio. Essa verdade está tão estabelecida que costuma dispensar maiores fundamentações. No entanto, eu enxergo que esse estado de coisas tão comemorado e enaltecido está mascarando um problema crescente que tem sido deixado em segundo plano: Como lidar com essa avalanche de dados?

Acreditar que apenas por haver bastante informação é o suficiente para um aprendizado significativo constitui um equívoco bem primário [2]. Às vezes, mesmo quando essas informações estão absolutamente corretas (o que nem sempre ocorre com a informação virtual), é possível gerar severas distorções caso elas não sejam adequadamente contextualizadas e integradas [3].

Não há dúvida que a Internet trouxe uma fabulosa democratização do conhecimento, mas é importante observar que isso está ocorrendo em um fenômeno de ida e volta: é fácil acessar (Web 1.0) e é fácil publicar (Web 2.0). Agora todos podem ser leitores e autores e qualquer um pode publicar sua opinião sobre qualquer assunto [4]. Engenheiros podem opinar sobre restaurantes ou cirurgias bariátricas e balconistas de lojas podem julgar o técnico da seleção brasileira ou as novas medidas do Ministério da Saúde contra a gripe suína. No entanto, essa democratização de mão dupla tem algo de diabólico. Quem publica deveria ter absoluta responsabilidade sobre o que está escrevendo (ver o Instituto Millenium destacando a responsabilidade individual como um dos seus valores é uma benção), mas isso muitas vezes não ocorre, seja por falta de ética, ou por excesso de presunção; a “informação” jorra de todas as bocas. Um médico competente pode divulgar informações importantes para o público que padece de certa doença, ajudando literalmente milhares de pessoas. Mas um adolescente egocêntrico de 15 anos TAMBÉM pode difundir informações sobre a mesma doença, dando orientações incorretas, perigosas e irresponsáveis, afetando também milhares de pessoas. Saber distinguir uma da outra é algo crucial. Um aspecto raramente abordado pela mídia [5]. Nesse grande dilúvio, temos que encontrar a Arca de Noé e separar o joio do trigo.

Não é a toa que temos um processo de qualificação e especialização que permite que algumas pessoas – mediante empenho, estudo e esforço ao longo de muito tempo – tornem-se capacitadas a exercer confiavelmente certas funções (para se ter uma sociedade de confiança, são imprescindíveis valores como os defendidos pelo IM: Estado de direito e Igualdade perante a lei). Por que você confiaria sua saúde a um médico e não a um amador de carpinteiro? A palavra-chave aqui é confiança. Porque o médico — falando de maneira simplificada — estudou e se preparou durante anos para cuidar da saúde alheia. Ele teve o mérito (o princípio da meritocracia, defendido pelo IM, muito bem ilustrado) de se sujeitar a grandes privações e grande esforço para poder atuar. Na vastidão de dados da Rede, sua opinião pode ser confundida facilmente com opiniões de amadores, que têm sido alçados à condição de especialistas [6]. Uma frase do jornalista Gay Talese ilustra isso muito bem: “Não é possível dar um google em tudo e achar que assim se está informado. A Internet está cheia de lixo” [7]. Garimpar informação confiável tornou-se uma tarefa muito mais complexa hoje do que no passado.

Um exemplo banal sobre isso: muitas páginas de notícias permitem que os leitores deixem comentários. Freqüentemente, o número e a extensão dos comentários supera em muito o tamanho da própria notícia. Há blogs políticos com 200 a 300 por postagem. Porém, se o volume de participação do público salta aos olhos, nada supera a sua qualidade discutível, que vai desde a mutilação cruel da língua portuguesa a meras expressões de opinião que não têm valor informativo ou estatístico algum [8]. Há comentários bons? Não há dúvida. Mas qual o custo de encontrá-los? Fazer uso de horas lendo centenas de comentários fúteis para achar um que valha a pena? Isso me parece uma autêntica vitória de Pirro. O tempo é um recurso finito. A imagem da agulha em um palheiro virou coisa de criança perto da Internet e sua enxurrada de dados. Aliás, um mar de dados que cresce dia a dia mais rápido que uma colônia de bactérias, pois segundo estimativas conservadoras, o conteúdo de dados disponível dobra a cada 8 anos. O custo para achar informação relevante e correta nesse dilúvio cresce de forma absoluta e relativa [9].

O que fazer diante disso, então? Abolir a Internet? Obviamente, não. Certamente é necessário abandonar a fase de paixonite deslumbrada e reconhecer os problemas que as novas tecnologias carregam. Criar selos de qualidade para sites confiáveis é algo levado a sério em muitas análises, embora envolva bastante subjetividade e um trabalho impraticável. Da mídia, começa um movimento tímido para abordar e divulgar esses problemas. Dos usuários (co-responsáveis), é preciso que haja conscientização e um esforço sincero de se apurar o senso crítico em relação ao que se encontra na Internet. Saber hierarquizar informações, reconhecer indicadores de qualidade, buscar certificações, ratificar os dados encontrados com mais de uma fonte, descartar dados não pertinentes, questionar e desconfiar de incongruências, usar mecanismos de busca de forma mais lógica [10], cultivar a paciência da análise… Isso é só o começo. E já dá bastante trabalho.

As sereias de Ulisses estão cantando alegres e felizes, pois o dilúvio de informação criou mil ambientes para essas sereias. Portanto, devemos reforçar a visão crítica com relação aos novos recursos tecnológicos, por mais sedutores e transformadores que eles possam aparentar ser. Não fosse essa vigilância crítica, passaria despercebido o erro descoberto recentemente no Currículo Lattes da Ministra da Casa Civil [11].

Diz um antigo ditado que “Quem muito abarca, pouco aperta”. Se continuarmos tentando lidar com esse volume de informação sem estratégia alguma, caminhamos por saber cada vez menos sobre cada vez mais – terminaremos sabendo quase nada sobre quase tudo.

Umberto Eco disse uma vez que uma sociedade com excesso de informação pode não ser muito diferente de uma com falta de informação. Desconfio que ele está certo.

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[1] LOCK, Steohen – Information overload: solution by quality? British Medical Journal, 284:1289-1290,1982.
Acesso gratuito em http://www.pubmedcentral.nih.gov/picrender.fcgi?artid=1498199&blobtype=pdf

[2] Tanto assim que uma nova classe profissional está surgindo para lidar com esse novo desafio: os arquitetos da informação. Vejo esse campo como algo promissor.

[3] Um exemplo elegante e engenhoso de que a simples disposição isolada de informação não é suficiente para produzir conhecimento confiável pode ser vista em uma propaganda da Folha de São Paulo veiculada pela TV há pouco mais de duas décadas: http://www.youtube.com/watch?v=pY4FCKlQISA

[4] Isso tem levado a situações surreais, como o caso do garoto que fraudou um verbete da Wikipedia e se passou por professor. A fraude chegou ao extremo de enganar várias escolas e a revista New Yorker: http://info.abril.com.br/aberto/infonews/042007/06032007-18.shl

[5] Um interessante reportagem que constitui valente exceção foi feita pelo Jornal Nacional de 23/06/2008. Infelizmente o vídeo ficou disponível pouco tempo, mas uma curta matéria escrita que resume a reportagem pode ser acessada em http://jornalnacional.globo.com/Telejornais/JN/0,,MUL611565-10406,00-INTERNET+PODE+SER+ALIADA+OU+INIMIGA+DA+MEDICINA.html

[6] Um livro recentemente editado em português aborda justamente essa questão: O culto do amador, de Andrew Keen, Editora Zahar, 2009.

[7] A entrevista completa está em http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u559328.shtml

[8] Essa participação é um interessante exercício de poder da população. Há até uma palavra que representa esse estado de coisas: ‘empoderamento’. Ela apareceu a 1ª vez num livro do Richard Wurman (Ansiedade de informação, Cultura Editores Associados, 1991) e tinha uma carga positiva. Mas em um sombrio inverso, empoderar se transformou em um instrumento de demagogia de governantes populistas que adoram bajular o povo para angariar votos. É mais fácil conferir títulos de nível superior como quem distribui panfletos de rua do que investir com eficiência (mais um valor do IM) no ensino fundamental e médio.

[9] Há uma técnica da Arte Mágica que exemplifica de maneira incrivelmente didática essa situação, o chamado Misdirection. Largamente empregada há muitos séculos para iludir os expectadores, essa técnica consiste em distrair a platéia com algum movimento sem importância enquanto o autêntico e decisivo movimento acontece sub-repticiamente diante de todos, mas longe de sua atenção, passando despercebido e possibilitando o efeito mágico final.

[10] Em uma pesquisa feita por nós com estudantes de ensino superior, comprovamos aquilo que já desconfiávamos: as pesquisas na Internet se restringem, grosso modo, aos 30 primeiros resultados, independente de sua qualidade: LOURENÇO, Alexandre ; COUTINHO, S. D. ; CARVALHO, V. M. ; SERAFIM, R. C. . O oráculo de Delfos do século XXI: a MICROBIOLOGIA revelada pelo Google. Microbiologia in foco, São Paulo - SP, p. 25 - 30, 05 out. 2007.

[11] http://oglobo.globo.com/pais/mat/2009/07/06/dilma-foi-alertada-do-risco-de-maquiar-curriculo-756686125.asp

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9 comentários

  1. Camila comentou:

    Excelente!

  2. Regina Motta comentou:

    Muito bom Alexandre, esta é uma aflição antiga que também tenho. Diariamente me deparo com o “Doutor Internet” receitando e ditando condutas de tratamento para meus pacientes. E o pior de tudo é que as pessoas sempre dão mais crédito a ele do que ao profissional que estão consultando e pagando… Acho que ainda vai demorar um pouco para que as pessoas tenham um raciocínio claro e criterioso como o seu.

  3. Zuleca Caulada Benedetti comentou:

    BRAVO!!
    Mais uma vez, vc acerta na mosca!
    Vivemos atualmente neste emaranhado de informações, com grande dificuldade de selecionar o útil do puramente publicável ( e mesmo em excelentes revistas)e assim fazer progredir e difundir conhecimento! E nós, que fomos treinados para análise e leitura criteriosa! Imagine o grande público que sem estas habilidades, tomam como verdade tudo o que está na internet…
    E isto me faz lembrar uma máxima dos idos da década de 90, quando Garfield proclamava no seu programa de TV “if it’s on television, must be true!” Pois é, passaram os anos e só mudamos de telinha….

  4. Regiane Sturn comentou:

    É Alexandre…
    A internet é como um medicamento mal receitado…
    Pode não causar o efeito esperado!!
    Abraço

  5. Gervásio Lourenço Júnior comentou:

    Fratèllo

    A biologia impõe determinismos com que devemos lidar, apesar das revoluções estomacais daí decorrentes …
    Mas há situações em que ocorre o inverso: ser seu irmão e ler o que você escreve me remete sempre a uma satisfação cada vez mais rara em minha vida.
    Como disse alguém aí nos comentários precedentes, você, mais uma vez, acertou na mosca.
    Ao mesmo tempo aproveito esta sua escrevinhação para, com a alma cheia de malícia, justificar a aversão que sinto pela “rede”, rancor este que você sempre criticou.
    Talvez, num futuro não tão distante, o profissional mais requisitado pelo mercado seja o “Garimpeiro de Memes”, aquele que seria capaz de em tempo razoável disponibilizar o (pouco) “não-lixo” da Internet.
    Aí sim teríamos a volta da valorização do ser humano efetivamente preparado - inspiração, transpiração e experiência - para lidar com o conhecimento.

    Abraços orgulhosos ( pelo mindinho em sua alfabetização ) de seu fã número um.

    Jú.

  6. Cláudia comentou:

    Alê
    Querido Alexandre
    Eu compartilho a mesma “angústia” que você aponta no texto…parece que o mundo anda produzindo coisas demais, em altíssima velocidade. E sinto, muitas vezes, que não consigo “consumir” as informações que poderiam ser interessantes e úteis para minha vida.
    No entanto, um rol de informações falsas, equivocadas ou superficiais estão sempre presentes para “confundir” nossas opiniões.
    Continuemos, então, na busca certeira daquilo que poderia nos alimentar e satisfazer: a qualidade. Aliás, a mesma qualidade que percebo em seus textos. Parabéns.

  7. Paulo Yasuda comentou:

    Alexandre, compartilho suas angústias. V. sabe que , pelo menos no Brasil, MERITOCRACIA já foi enterrada há muito. Haja vista, cotas e mais cotas para tudo!!! Que sociedade vamos construir com os exemplos que vem de cima, do meio e de baixo, tambem!!! Parabens pela lucidez.

  8. Wânia Viegas comentou:

    Continue cultivando seu cérebro e abra mais espaços para a sua produção!!
    Estou toda orgulhosa, você realmente foi brilhante!!
    Um abraço!

  9. Eneida S Lourenço comentou:

    Fratèllo II
    Realmente. O texto e a ideia (a maldita nova ortografia) estão irretocáveis.
    A confiança não é vendida nos bares ou em papelarias. É algo que se conquista. E os incautos foram já suficientemente conquistados. E foram conquistados justamente porque não vemos mais nem a inspiração, nem a transpiração, tampouco o conhecimento. Isto (a falta disso somado à
    pressa é a receita perfeita para as porcarias que pululam na internet atualmente.
    Beijos orgulhosos (pelo dedão em sua alfabetização, porque o mindinho é do JÚ) de sua fã número um (também!).

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