De gorilas e caudilhos
julho 2nd, 2009 by Yoani SánchezfecharAutor: Yoani Sánchez
Nome: Yoani SánchezAcerca: Yoani Sánchez estudou durante dois cursos no Instituto Pedagógico a especialidade de Espanhol-Literatura. No ano de 1995, mudou-se para a Faculdade de Artes e Letras – com um filho nascido em agosto deste mesmo ano e terminou, depois de cinco cursos, a especialidade de Filologia Hispanica.
Se especializou em literatura latinoamericana contemporanea e apresentou uma incendiária tese intitulada “Palavras sob pressão. Um estudo sobre a literatura da ditadura na america latina”. Ao terminar a universidade compreendeu duas coisas: a primeira, que o mundo da intelectualidade e da alta cultura a repugnava e a mais dolorosa, que já não queria ser linguista.
Em setembro de 2000 foi trabalhar numa obscura oficina da Editorial Gente Nueva, enquanto chegava a certeza – compartilhado pela maioria dos cubanos – de que com o salário ganho legalmente não poderia manter sua família. De maneira que, sem concluir meu serviço social, pediu baixa e dedicou-se ao trabalho melhor remunerado de professora de espanhol – freelancer – para alguns turistas alemães que visitavam La Habana. Era a etapa (prolongada até os dias de hoje) em que os engenheiros preferiam dirigir um taxi, os maestros faziam o impossível para trabalhar no arquivo de um hotel e nos balcões de uma loja poderias ser atendido por uma neurocirurgiã ou um físico nuclear.
Em 2002 o desencanto e a asfixia econômica a levaram a emigrar para a Suiça, de onde regressou – por motivos familiares e contra a opinião de amigos e conhecidos – no verão de 2004.
Nesses anos descubriu a profissão que a acompanha até hoje: a informática. Se deu conta que o código binário era mais transparente que a rebuscada intelectualidade e que se nunca havia ido bem no Latim, ao menos poderia empreender com as compridas cadeias da linguagem html. Em 2004 fundou com um grupo de cubanos – todos radicados na Ilha – a revista de reflexão e debate Consenso. Três anos depois continua trabalhando como web master, articulista e editora do portal Desde Cuba.
Em abril de 2007 se enredou na aventura de ter um Blog chamado “Generación Y” que definiu como “um exercício de covardia”, pois a permite dizer neste espaço o que está vedado em sua ação cívica.
Vive em La Habana, com o jornalista Reinaldo Escobar – com quem divide a vida há quase quinze anos.Ver os posts do autor (156)
Nove anos se passaram desde que escrevi as últimas linhas de uma tese sobre a figura do ditador na literatura latinoamericana. Ainda que meu estudo assinalasse ainda a existência de vários caudilhos que serviam de magníficas referências para escrever novelas, no fundo não acreditava de que se tratava de seres em extinção. Pouco tempo depois comecei a duvidar se os tiranos não estariam em incubação para voltar a brotar sobre nossas terras americanas. De um tempo para cá já não me restam dúvidas: os ditadores – ou aspirantes a sê-lo – estão aqui, ainda que agora vistam jeans, guayaberas ou camisas vermelhas.
Tampouco extinguiu-se outro perigo: o militar que toma a justiça em suas próprias mãos; o uniformizado que impõe sua vontade pelas armas. Continuamos nos jogando nos braços de uns ou de outros, porque uma tradição de personalismos e demagogos não se erradica tão facilmente. Em Honduras, agora mesmo, toda uma nação pode jogar-se no espinhoso abrigo dos soldados ou hipnotizar-se frente ao regresso “triunfal” – no estilo Chávez – de quem foi deposto pela força. Desse dilema, os cidadãos, poucas vezes saimos bem.
Não gosto dos golpes militares, nem dos presidentes que tentam se reelegerem infinitamente. Tenho a mesma desconfiança tanto de quem desce de uma montanha com as armas à frente, quanto do eleito nas urnas que administra seu país como uma fazenda; como se tratasse da velha propriedade rural de seus pais. Daí que esteja preocupada por Honduras. Tenho o temor de que o acontecido prepare o caminho para o surgimento de outra figura investida de plenos poderes. Cuidado! Na ampla gama exibida pelos sátrapas, a pior combinação é quando convergem – numa mesma pessoa – a figura do caudilho e do gorila armado.

(Publicado em Geração Y)
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