Quando me deparei pela primeira vez com um caso de plágio explícito em um trabalho de conclusão de curso (TCC), meu primeiro sentimento foi de revolta (1). Tantos alunos se dedicando para fazer um trabalho digno, muitas vezes conciliando acrobaticamente seus estudos com seu emprego, e… eis que surge das sombras o sujeito “esperto”, que apenas faz um copy / paste e se livra instantaneamente de horas de investigação e elaboração. Minha revolta se transformou em indignação quando percebi que minha recusa formal de participar da banca teve o mesmo efeito que o crepitar intestinal de um cupim: a aluna foi aprovada com pleno conhecimento de instâncias superiores (2). Decerto eu devia estar sendo muito severo com um trabalho copiado ipsis literis ao longo de 60 páginas…
Esse episódio deplorável foi um ponto de inflexão na minha carreira de professor, encerrando a pauladas certa inocência que eu cultivava involuntariamente. Percebi que a meritocracia na ciência podia ser facilmente distorcida e manipulada. Como em qualquer outro campo que envolva seres humanos, sempre haverá gente pouco comprometida com a verdade.
Quando surgiram na mídia brasileira os casos de erros no currículo cometidos pela Ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff (3), e pelo atual líder do governo, Aloísio Mercadante (4), há alguns meses atrás, percebi que esse tipo de tema nada tinha de paroquial. Achei surpreendente que pessoas com tamanha visibilidade pública divulgassem, pela própria boca (ou pela própria pena, ou pela própria omissão)(5), informações que depois precisariam ser radicalmente retificadas (6).
Isso não é um problema exclusivo do Brasil. Os dados abaixo não são de um país de terceiro mundo, mas dos EUA (7):
Até uma nação rica, desenvolvida, com uma avançada democracia e um papel científico de destaque absoluto no mundo, passa por coisas semelhantes. Isso ilustra como a disposição para obter vantagens de maneira ilícita não é monopólio de nenhum povo. A vitrine que apresentamos aos outros é o recurso para conquistar simpatia, respeito, admiração. Ou eleitores, leitores e aliados. A ânsia irracional para obtê-los é uma força poderosa que arrasta muitas almas para o pantanoso terreno da mentira.
Certa vez um colega, não tendo nenhum artigo científico publicado, resolveu incluir resumos de anais de congresso no local destinado a artigos de periódicos (8). Embora a Plataforma Lattes tenha algumas entradas que possam eventualmente gerar confusão (“produção técnica” e “outras produções técnicas”, por exemplo), a distinção naquele caso é clara e cristalina.
Outro caso, um tanto folclórico, é o do colega que arrumou um jeito de INFLAR seu currículo LATTES (criando uma nova modalidade: o currículo INFLATTES): inventou, da sua imaginação, um instituto de pesquisa com um pomposo nome estrangeiro. Esse instituto não tinha sede física e tampouco registro legal, o que mostra a força da imaginação humana. Mas sua maior obra foi fazê-lo produzir: introduziu no seu currículo algumas dezenas de entradas de cursos ministrados e feitos por e nesse instituto (9). Pela extensão, faria inveja a um decano da USP.
É claro que a frequência com que esse tipo de coisa ocorre está ligada ao tipo de consequência que cada sociedade atribui ao descobrir o embuste. O descompromisso com a precisão vindo de figuras com tamanha visibilidade pública como a ministra e o senador apenas atestam quais são seus alicerces: a amnésia coletiva de que padece grande parte do eleitorado e os valores pastosos que compõem a cultura brasileira.
Como evitar ou minimizar essas manipulações (ou esses erros)? Frequentes e elásticos no grau de distorção, eles não podem perambular por aí iludindo as pessoas com tamanha desenvoltura. É imprescindível que a base de currículos do CNPq continue aprimorando os mecanismos automatizados de confirmação e de certificação de informações (10), como feito recentemente ao se incluir o DOI nos artigos e o índice de impacto da publicação (11). E as pessoas que avaliam currículos (notadamente jornalistas) deveriam olhar com atenção redobrada seu conteúdo, sem avaliá-lo apenas com uma fita métrica (12). Embora dê bastante trabalho, checar a veracidade das informações, sua precisão e sua relevância é de suma importância para um julgamento justo.
Felizmente, distorções como as citadas anteriormente podem agora ser expostas para acesso público pela Internet — como ocorreu com os erros de currículo de Dilma Roussef e Aloísio Mercadante.
Parafraseando aquele velho ditado árabe – Que as pulgas de mil camelos infestem o seu sovaco – eu digo: Que as páginas de mil blogs reverberem eternamente essa incongruência que é ser sem nunca ter sido.
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[1] Um breve relato dessa lamentável história pode ser visto em http://www.microbiologia.vet.br/plagio.htm
[2] O plágio não é apenas imoral, mas ilegal. A leniência com que ele é encarado por algumas pessoas que deveriam liderar o exemplo da ética é um avesso diabólico.
[3] “Site da Casa Civil dizia que Dilma tinha feito mestrado em teoria econômica. Unicamp nega” http://oglobo.globo.com/pais/mat/2009/07/03/site-da-casa-civil-dizia-que-dilma-tinha-feito-mestrado-em-teoria-economica-unicamp-nega-756655236.asp
[4] “Mercadante disse que era doutor. Não era e nunca foi!” http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/mercadante-disse-que-era-doutor-nao-era-e-nunca-foi/
[5] http://www.youtube.com/watch?v=AZLeZtIC0NE
[6] http://www.youtube.com/watch?v=Ip19IeZ2Oe8
[7] SEKAS, G and HUTSON, W.R. Misrepresentation of Academic Accomplishments by Applicants for Gastroenterology Fellowships. Ann Intern Med. 1995;123:38-41.
(acessível em http://www.annals.org/cgi/reprint/123/1/42.pdf)
[8] A avaliação de um resumo é, normalmente, muito mais condescendente que um artigo científico. Resumos têm limitação estrita de espaço para os dados, não permitindo uma avaliação rigorosa, apenas um julgamento panorâmico. A título de comparação, os resumos do Congresso de Microbiologia que ocorreu no ano de 2009 tiveram como limite 500 caracteres com espaços. Um artigo típico tem, por exemplo, 25.000 caracteres.
[9] Ele sabia que alunos e pessoas inexperientes costumam se assombrar com o tamanho e não com a qualidade.
[10] “CNPq muda site para tentar evitar fraudes em currículos”, Folha de São Paulo, caderno Ciência de 20/11/2009
(http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u655175.shtml)
[11] O DOI é um número fixo de localização no universo virtual de qualquer documento ou conteúdo (http://www.doi.org/). O ÍNDICE DE IMPACTO avalia o impacto que determinada publicação tem na comunidade científica. Artigos em revistas com alto índice de impacto tendem a ter um peso muito maior do que aqueles publicados em revistas não indexadas (e sem índice de impacto).
[12] No dia 24 de setembro de 2009, a Folha de São Paulo noticiou uma análise dos currículos dos ministros do Supremo Tribunal Federal (“Sete dos dez ministros do Supremo têm doutorado” –
Acessível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2409200914.htm), salientando o TAMANHO do currículo do recém indicado ao Supremo, José Dias Toffoli, o que mostra que muitos jornalistas são o reflexo de determinado tipo de leitor. Quantas vezes alunos vieram até mim expressar seu espanto diante do tamanho de um currículo? Esse foco no aspecto QUANTITATIVO parece ser algo quase biológico. Poucos atentam que a quantidade em si pode não significar muita coisa: é preciso que haja QUALIDADE. Um resumo de congresso nacional não tem o mesmo peso que um trabalho científico de revista indexada internacional. Orientar um TCC não é a mesma coisa que orientar um doutorado stricto sensu. Talvez óbvio para alguns, não é tão óbvio para a maioria das pessoas que não pertence ao meio acadêmico (e mesmo para algumas desse meio). Julgar exige conhecimento.
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