Burocracia e totalitarismo

15 de November de 2009
Autor: Alexandre Lourenço

pequeno normal grande

“A burocracia é um poder gigantesco
exercido por pigmeus.”
HONORÉ DE BALZAC

Abro a Internet e, dentre os e-mails da caixa postal, tenho a satisfação de ler uma mensagem do Paulo Uebel, diretor executivo do IM, pedindo textos que contribuam para as comemorações dos 20 anos da queda do Muro de Berlim e do comunismo. Pensando no que poderia escrever, lembro de um texto meu já publicado há poucos meses: uma crônica sobre BUROCRACIA.
Aspecto menos visível dos totalitarismos de esquerda, a burocracia infernal que eles estabeleciam sempre me chamou a atenção. Como é que um sistema irracional que atrapalha a vida das pessoas se torna uma política de Estado? Houve época em que eu pensava que isso era apenas produto de pura incompetência (e muitas vezes o é). Mas hoje vejo que não era só isso. A burocracia é um dos instrumentos para destruir a iniciativa individual. Uma ação orquestrada por pessoas ou grupos com veleidades totalitárias para instituir um controle opressivo sob um verniz de Estado de direito livre e democrático.
Duas situações me vêm à cabeça como exemplos. A primeira é o Estado brasileiro.
Um país como o nosso, que cria uma gigantesca trama de impostos impossível de ser plenamente compreendida até por um dos mais respeitados tributaristas do país, só pode ter como serventia o exercício do poder de pressão e chantagem, oferecendo aos amigos tudo e aos inimigos a lei. Não são somente os impostos, mas detalhamentos de uma ciranda de legislações que beiram a insanidade nas suas minúcias nas mais diferentes esferas, deixando qualquer iniciativa de empreendedorismo se transformar na captura de King-Kong com um estilingue. É o famoso “criar dificuldade pra vender facilidade”, tão conhecido de todos nós (vender não implica necessariamente apenas dinheiro, mas submissão).
O segundo exemplo é mais visceral, pois sofri diretamente os efeitos de uma burocracia tentacular que chegou ao paroxismo de nos fazer interromper as atividades normais na empresa para que essa mesma burocracia fosse cumprida, com claros prejuízos para a própria empresa. Diante da violência psicológica de uma burocracia invencível, só me restou fazer aquilo que tantos já fizeram em situações semelhantes: escrever.
O produto é o texto abaixo. Ele foi publicado originalmente na revista Versátil Magazine em Fevereiro/Março de 2009 (a publicação original pode ser vista na página 38 em
http://issuu.com/versatil.magazine/docs/vm08_site). Agradeço à sua editora, Cláudia Liba, por incentivar esta republicação de um texto que considero dos mais provocadores que escrevi. Embora muitos possam achá-lo inverossímel, é bom que saibam que alguns trechos dele são uma transcrição fiel dessa vivência surrealista.


O que é Burocracia?

Comunicado aos funcionários:

Comunicamos que haverá uma mudança na dinâmica dos andares do nosso prédio.
Até hoje os andares tinham um valor fixo (1º, 2º, 3º, etc.) e suas salas, um número correspondente ao andar (101, 203, 309, etc.). No entanto, a partir de agora, o número do andar irá variar de acordo com o dia da semana e do mês.
Três itens simples regem essas mudanças

A) nas segundas, quartas e sextas, os andares anteriormente ímpares (1,3,5,7 e 9) terão seus números modificados para, respectivamente, 103, 408, 297, 56 e 78 (exceto nos meses de julho e dezembro).
B) às terças e quintas, esses mesmos andares terão seus números originais acrescidos do dia anterior. Exemplo: terça, dia 15, você está no 2º andar, ou seja, 2 + 14 = 16º andar. Portanto, salas 1601, 1602, 1603, etc..
C) em todo dia par do mês, independente do dia da semana, os andares pares (2º,4º,6º e 8º) serão modificados para 171º, 125º, 15º e 2º. Nos demais dias, prevalece a numeração original.

Com estas mudanças, várias providências terão que ser implementadas:

1. Um funcionário do audiovisual será deslocado para fazer a troca das placas dos andares e das salas de acordo com a escala acima.

2. Um funcionário da manutenção será deslocado para fazer as modificações no painel do elevador.

3. Um funcionário será desviado do setor de xerox para fazer a administração operacional do sistema e atualizar diariamente o mural central, no andar térreo.

4. Um funcionário será deslocado da secretaria geral para ficar dando informações na recepção aos nossos clientes, quando estes estiverem confusos.

5. Um funcionário será deslocado do laboratório para que faça a fiscalização da troca dos números das salas.

6. O setor de compras terá que providenciar a aquisição das placas numeradas.

7. Ao preencher relatórios e formulários, cada funcionário deverá anotar o número da sala em que se encontra e QUE SEJA CORRESPONDENTE ao dia da assinatura do documento em questão, de acordo com as instruções acima.

8. Será constituída uma comissão com os dez funcionários mais antigos que discutirá quinzenalmente os efeitos das mudanças propostas. Essa comissão terá que elaborar um relatório completo e minucioso com uma radiografia da situação em curso. Esse relatório deverá ser feito à mão e em seis vias.

Não se esqueçam de olhar TODO DIA o mural para confirmar as mudanças diárias de sala. Eventualmente mudanças não previstas de numeração poderão ocorrer.

TODOS devem seguir e se adequar a estas mudanças, sob pena de advertência por escrito. Lembramos que três advertências abrem a possibilidade de demissão por justa causa.

Para evitar futuras dúvidas, estamos publicando uma lista de FAQUAs (Frequent Asked QUestions Antecipatórias) que esperamos possam esclarecer plenamente os funcionários acerca das novas regras e da nova cultura da empresa.

FAQUAs

Qual o sentido dessas mudanças?
— Elas foram idealizadas para melhor organizar o funcionamento da empresa.

Como elas podem melhorar o funcionamento da empresa?
— Elas criam um nível adicional de organização.

Mas qual a vantagem desse nível adicional?
— Apenas cumpra as determinações divulgadas. A diretoria sabe o porquê.

Por que não foram contratados funcionários novos para essas novas funções?
— Estamos em regime de contenção de despesas.

Mas os setores que perderam funcionários ficaram prejudicados. No caso do xerox, só havia um funcionário!
— Justamente: o setor de xerox será desativado, já que ficou sem funcionários.

A comissão supracitada já se reuniu três vezes e por três vezes consecutivas aconselhou a extinção desse sistema. Por que ele continua em funcionamento?
— É preciso de tempo para que ele possa dar frutos e passe a fazer parte do cotidiano das pessoas.

E se alguém quiser se informar sobre as mudanças e estiver, por exemplo, no 10º andar?
— Terá que descer até o térreo e olhar o mural central.

Isso não implica um gasto maior de energia dos elevadores?
— Sim. Pensando nisso, a empresa decidiu desativar dois deles.

Por que relatórios feitos à mão se eles podem ser digitados e impressos, facilitando a leitura?
— Assim foi determinado pela diretoria.

Por que 6 vias?
— Uma para a presidência, outra para a direção do setor, a terceira para o sub-chefe do setor, a quarta para o depto. de pessoal, a quinta para a secretaria geral e a sexta ficará como cópia reserva na filial da empresa.

Não haverá um gasto excessivo com papel por causa dessas anotações redundantes?
— Sim, haverá. Por isso, a empresa está estudando um plano de demissão involuntária para se ajustar ao regime de contenção de gastos e compensar esses acréscimos de despesas.

Uma vez que esse sistema é totalmente contra-intuitivo, por que não instalar informações em cada andar do prédio?
— Porque não.

Por que a diretoria decidiu por essas mudanças?
— Isso faz parte de uma nova estratégia empresarial chamada OFF-SPRING-ON-ROAD.

O que é isso?
— Uma nova técnica de gestão que busca a qualidade total.

Em que consiste essa abordagem?
— Consiste numa gestão que persegue a qualidade total da empresa.

Isso é um raciocínio circular!
— Faz parte da OFF-SPRING-ON-ROAD.

———————————

SUGESTÕES DE LEITURA

1. Bureaucracy – Ludwig Von Mises.

2. A lei de Parkinson – C. Northcote Parkinson. Editora Nova Fronteira, 2008.

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Os artigos assinados não traduzem a opinião do Instituto Millenium. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate sobre os valores defendidos pelo Instituto e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

  1. Alê,

    Ainda bem que disparar e-mail sobre auto-avaliação não gasta, pelo menos, papel…

    Se

    Selene


    17-11-2009 18:15:13
  2. Inacreditável! Muito bom!

    maria ligia coutinho carvalhal


    17-11-2009 22:22:25
  3. Alê!
    Que sistema administrativo fantástico!
    Vamos vender implantação e consultoria para OFF-SPRING-ON-ROAD.
    Vamos ficar ricos.

    Que texto brilhante! Adorei.

    aziz


    18-11-2009 10:32:13
  4. Ale, você é muito 10, adorei.

    Alice


    18-11-2009 22:52:48
  5. Gosto muito do texto. Infelizmente não é novidade o tema, frequentemente observado no ambiente de trabalho.
    Sobre vender e implementar o sistema, há quem compre. Seguramente.

    Cláudia

    Cláudia


    19-11-2009 10:11:06
  6. Alê, vc tem mesmo uma cabeça privilegiada!!
    Adorei!!
    Não deixe de escrever. Nunca.

    Wânia Viegas


    20-11-2009 21:34:21
  7. Muito bom Alê!
    Pela estratégia adotada pelos amigos de mais de 20 anos…minha nota para artigos muito bons é 5, considerando que hoje é dia 23 (impar). Nos dias impares as notas vão de 0 a 5…nos pares de 1 a 10. Isso vale só para o mês de novembro!!!!!

    Carla Macedo


    23-11-2009 11:36:32
  8. Parabéns, Alexandre, por mais um talento especial!

    Zilda


    23-11-2009 21:47:44
  9. Incrível.
    Prefiro não saber onde o texto tenha sido fiel a sua vivência.
    Isso me deixaria chocada.

    Parabéns pelo texto.Realmente incrível.

    Camila


    25-11-2009 13:03:21
  10. Parabéns Alê! Vocé é simplesmente GENIAL!!!
    O que dá uma tristeza, é que este tipo de “tecnocracia” ainda tem muitos adeptos.

    José Antonio Jerez


    27-11-2009 15:31:19

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