A expectativa de retomada da economia americana, em contraste com a aparente deterioração da situação europeia, invadiu os mercados de moeda nos últimos meses. A razão seriam os incessantes estímulos fiscais e monetários promovidos pelo governo americano, em contraposição à apatia do Banco Central Europeu e dos governos nacionais da Zona do Euro. Tornaram-se intensos tanto o anúncio da ressurreição do dólar quanto as especulações sobre a morte do euro.
A moeda continental europeia chegou a despontar como nova reserva forte da economia mundial. Mas a vulnerabilidade econômica de alguns países integrantes da Zona do Euro, conhecidos pela sigla Pigs (Portugal, Itália, Grécia e Espanha), vem aumentando o ceticismo quanto ao futuro do euro.
Corre entre os financistas até uma terrível profecia atribuída a Milton Friedman, ganhador do Prêmio Nobel de Economia: o euro morreria na primeira crise. Friedman era cético quanto a construções econômicas artificiais, politicamente motivadas, como a nova moeda europeia. Robert Mundell, o formulador intelectual do euro, também ganhador do Nobel de Economia e ainda mais especializado que Friedman em temas monetários internacionais, garantia que a Europa atendia às condições técnicas para formar uma região propícia para a adoção de uma moeda única, que ele chamou de “optimum currency area”. A motivação do euro era mesmo política, mas havia bons fundamentos econômicos para sua construção.
Imagine que Pernambuco, Ceará, Paraíba e Sergipe fossem países no continente Brasil, como são os Pigs na Europa. A Paraíba (Grécia) estaria melhor se flutuasse sua própria moeda em um momento de crise? Não seriam astronômicas suas taxas de juros nessa moeda?
A moeda europeia está fora do alcance dos governos
locais – inflexíveis e pouco inovadores
A mobilidade de recursos produtivos é crítica para o bom funcionamento de uma moeda única. A migração da mão de obra de regiões economicamente deprimidas para áreas de crescimento é um ajuste natural. Assim, ocorreram no passado as correntes migratórias do Nordeste para São Paulo. Como, porém, assistir politicamente a uma migração em massa se, em vez de entre Estados, ela ocorresse entre nações? Poderia a Grécia suportar, como suportaram os Estados nordestinos, a verdade econômica nua e crua imposta pela moeda comum?
Esse é um ônus político, um efeito bumerangue da motivação também política por trás da criação do euro. Ressurge o ceticismo de Friedman. Mas a morte da moeda continental europeia é simplesmente impensável. Pois o problema é muito mais dos Pigs, e particularmente da Grécia, que propriamente do euro.
As prematuras especulações sobre a morte do euro refletem uma enorme confusão entre moeda e crédito – a mesma confusão que embalou o excessivo otimismo anterior dos Pigs. Quando se anunciou a formação da Zona do Euro, houve uma convergência das taxas de juros em toda a região. Os juros na Alemanha e na França, relativamente baixos, subiram marginalmente, enquanto desabavam nos Pigs. O entusiasmo com a nova moeda levou a excessos na expansão de crédito na Espanha e na Grécia. Ou seja, a adoção da moeda comum induziu uma percepção equivocada de que os créditos seriam equivalentes.
O mesmo equívoco volta a ocorrer quando se deduz a iminência da morte do euro pela constatação dos excessos na Grécia e na Espanha. A crise financeira dos Pigs terá de ser tratada como tal. Quem gastou demais e abusou do crédito com a criação do euro agora vai pagar, pois não há escapatória à disciplina imposta pela moeda comum. O euro é uma moeda de emissão moderada, quando comparada à metralhadora monetária do Federal Reserve, o banco central americano. Uma moeda supranacional, fora do alcance e da manipulação de governos locais. Por isso se tornou uma moeda forte – apesar dos governos europeus e suas instituições pouco flexíveis e pouco inovadoras.
Fonte: ÉPOCA, 08/01/10
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