As FARC e as “comunidades da paz”

17 de dezembro de 2009
Autor: Mary Anastasia O'Grady - Convidada

pequeno normal grande

Agora que os Estados Unidos se preparam para enviar mais 30.000 tropas para o Afeganistão, em uma missão que incluirá defender a população civil em uma narco-economia, a experiência da Colômbia com traficantes de drogas e terrorismo pode ser instrutiva.

O testemunho do ex-segundo comandante das Forças Armadas da Colômbia (FARC), que operam na região de cultivo de bananas e tráfico de drogas conhecida como Urabá, pode ser a Primeira Lição.

O ex-comandante de guerrilha Daniel Sierra Martinez — conhecido pelo nome de guerra “Samir” — entregou-se às autoridades colombianas em dezembro de 2008, em resposta à oferta de reconciliação nacional do Presidente Álvaro Uribe. Em troca de uma sentença reduzida, ele teria que confessar tudo sobre suas atividades em mais de duas décadas nas FARC. Na última semana, as autoridades colombianas concordaram em deixá-lo se sentar comigo e conversar sobre sua experiência de rebelde.

Samir me contou um bocado sobre o negócio de cocaína das FARC e a exploração de civis em zonas designadas por “organizações não governamentais” como “comunidades da paz”. Ele também me contou que os supostos pacifistas que dirigiam a ONG local eram seus aliados, e uma importante ferramenta das FARC em seu esforço para desacreditar as forças armadas.

Em um discurso em setembro de 2003, o Presidente Uribe expressou sua preocupação com a possibilidade de que alguns grupos de “direitos humanos” fossem na verdade fachadas para terroristas. A esquerda internacional, incluindo o senador americano Chris Dodd, pularam em cima do presidente colombiano por conta de sua alegação. Mas os comentários de Uribe eram baseados em informações coletadas pela inteligência colombiana. Agora, o testemunho de Samir e de incontáveis outros que vêm da selva dão a Uribe ainda mais endosso.

O território das FARC inclui uma cidade chamada San José de Apartadó, designada como comunidade da paz em meados dos anos 1990 sob um plano proposto pela diocese católica local. A ideia era criar um lugar onde os civis podiam viver sem medo de organizações paramilitares ou guerrilhas. Conforme relatei em novembro de 2003, “a administração desta proposta, que pede o total desarmamento de todos os agentes na área da ‘comunidade da paz’, foi entregue essencialmente à ONG colombiana intercongregacional Justicia y Paz. A ONG recebeu endosso da Anistia Internacional e das Brigadas de Paz Internacionais.”

Mas a comunidade da paz de San José de Apartadó, segundo Samir, não era nem um pouco neutra. Em vez disso, diz ele, as FARC tinham uma relação próxima com seus líderes, datando de seu início.

Samir afirma que a comunidade da paz era um porto seguro para rebeldes doentes ou feridos das FARC e para armazenar suprimentos médicos. Ele afirma também que fornecedores das FARC se encontravam com rebeldes na cidade, onde sempre havia também cinco ou seis membros das Brigadas de Paz Internacionais.

Segundo Samir, a comunidade da paz ajudou as FARC em seu esforço para tachar o exército colombiano de violador dos direitos humanos. Quando a comunidade estava se preparando para acusar alguém de violação dos direitos humanos, Samir administrava as “testemunhas”, mandando membros da FARC, fingindo-se de civis, prestarem testemunho.

Edward Lancheros, membro do conselho da comunidade da paz, e seu grupo (que inclui um padre jesuíta, chamado Javier Giraldo, e Gloria Cuartas, a prefeita notoriamente esquerdista do município que contém San José de Apartadó), insistiram que a “paz” requeria que o exército se mantivesse fora da área. Mas os grupos paramilitares não se submeteram a essa convenção. Quando ocorreram conflitos entre as FARC e os paramilitares, diz Samir, a comunidade da paz tinha um papel-chave em apresentar a história de modo que o público culpasse o governo.

Um tal incidente ocorreu em 2000, quando os paramilitares pararam uma ambulância que carregava uma guerrilheira e atiraram nela. Samir diz que a comunidade da paz alegou que ela era membro de seu grupo, e que o exército a havia assassinado. A comunidade também ajudou a esconder o envolvimento das FARC na área. Em 2005, diz Samir, um rebelde das FARC chamado “Alejandro” foi morto pelos paramilitares. A comunidade da paz insistiu que ele era um civil de seu grupo.

Samir diz que se ressente da decisão das FARC de se envolver no tráfico de drogas e trabalhar com grupos paramilitares da operação do tráfico. Ele também objeta à exploração dos nativos pelas FARC. Cheio de tudo isso, ele liderou uma reação contra os abusos das FARC, e, em 2008, mais de duas dúzias de áreas se separaram da comunidade da paz. Ele então foi acusado de ser um infiltrante militar e o secretariado das FARC ordenou que fosse à corte marcial. Foi aí que decidiu se entregar.

É claro que seus adversários o acusam de inventar tudo isso para ganhar as boas graças do governo. Mas o que não se pode negar é que, enquanto as FARC já estão largamente desacreditadas entre as populações rurais, foi o exército colombiano, e não a chamada comunidade da paz, que pacificou Urabá e deu nova vida a seus habitantes.

(Publicado em OrdemLivre.org)

{lang: 'pt-BR'}
TAGS -

Os artigos assinados não traduzem a opinião do Instituto Millenium. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate sobre os valores defendidos pelo Instituto e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

    Ainda não há comentários

Nome
(Requerido)

E-mail
(Não será publicado)

Comentário:

 characters available

Por que a pergunta?



ENQUETE
  • Qual é a sua opinião sobre a privatização dos aeroportos?

    View Results