Arquitetando um outro mundo possível

31 de agosto de 2010
Autor: Antonio Fernando Borges

pequeno normal grande

Se Deus é mesmo o Grande Arquiteto do Universo (como querem os teístas e heréticos em geral), só espero que Ele continue velando por nós, e nos protegendo de seus “colegas menores” de ofício, aqui na Terra.

Já nem estou falando das megatolices dos S. Bernardes & Cia., ou das obsessões niemeyerianas que poluem as cidades e os espíritos. Quem dera! Estou cada vez mais convicto de que hoje o verdadeiro perigo reside nas legiões de arquitetos jovens e anônimos que saem dos bancos universitários empenhadíssimos em arquitetar para nós um futuro mais justo e mais feliz.

(Um “outro mundo possível”, não é o que dizem? Deus do céu!)

A bem da verdade, nunca tive maiores interesses na matéria, até minha sobrinha-afilhada se encantar pela carreira, que acabou abraçando. Mas meu interesse virou preocupação quando, há menos de um ano, encantou-se também (e acabou literalmente abraçando) um jovem arquiteto que parece ter vindo ao mundo não para construir ou reformar prédios e residências, mas para “reformar os espíritos” e “construir um mundo melhor” – queiram ou não os humanos.

A ressalva em itálico é dele mesmo, e me foi dita ao vivo (e em todas as suas sinistras cores) quando o conheci, meses atrás, a pedido de minha sobrinha-afilhada, cada vez mais encantada com a arquitetura e com seu excêntrico prosélito. “As pessoas nem sempre sabem o que é melhor, tio”, explicou-me à mesa da lanchonete, incorporando-se à família logo no primeiro encontro. “Às vezes, é preciso decidir por elas, para ajudá-las a amadurecer.” (O itálico, mais uma vez, é meu. O espanto também.)

Certamente, jovens arrogantes brandindo em voz alta a solução para os males do mundo já não constituem nenhuma novidade, na vida de minhas retinas fatigadas. Mas, desde que conheci esse mais novo “sobrinho”, não pude parar de pensar no perigo que os arquitetos representam. Nenhum exagero: egressos de um ambiente acadêmico onde Marx e Durkheim disputam espaço na grade curricular com Desenho Geométrico I e Materiais, Técnicas e Estruturas IV, os novos designers urbanos já não se contentam em planejar casas e edifícios: querem ajudar a planejar e construir cidades e consciências, certamente no tal “outro mundo possível”.

Meu novel “sobrinho”, por exemplo, não pensa miúdo: ele e alguns “companheiros de profissão e missão” (sic) estão em vias de elaborar mais um PAC, não menos assombrosso do que os outros: um Programa de Arquitetura Cidadã, que sonham em ver um dia adotado nas escolas e incoporado por decreto oficial às normas incontornáveis para a construção de prédios, ruas e cidades. Pela proposta, os cálculos arquitetônicos a respeito da resistência e resiliência dos materiais já não deverão se limitar à etapa de construção nem à “parte inanimada e inorgânica dos prédios” (sic). Em outras palavras: moradores e usuários (nós, humanos) também precisam ser rigorosamente calculados.

Cega como o Amor e Homero (mas sem a transcendência épica dos dois), minha sobrinha-afilhada parecia incapaz de enxergar a violência inerente àquelas ideias: via apenas ousadia e originalidade, matérias-primas superfaturadas entre os jovens. Lançava um olhar orgulhoso ao redor: “Ele entende muito disso tudo, tio” — e o isso tudo, àquela altura, abrangia não apenas a lanchonete e o shopping, mas talvez a cidade, o planeta e o Universo.

O jovem monstro só fazia crescer, em arrogância: “Claro que entendo! E não pense que são só palavras vazias, meu caro tio. Queremos anexar ao projeto básico do nosso PAC (ele – et pour cause – parecia adorar a sigla…) uma série de exemplos da nova arquitetura cidadã. Um shopping center, um edifício comercial, um condomínio residencial, um centro médico hospitalar.”

Não tenho por hábito cutucar demônios nem vespeiros, sobretudo se estou muito perto. Mas, naquela tarde, não consegui resistir: quis saber detalhes (não sei se para alimentar meu temor ou minha incredulidade). E, como a vaidade também cega, meu sobrinho-postiço não se deu conta da ironia e me presenteou, à larga:

“Detalhamento é o que não falta, meu caro tio. Queremos pensar em tudo – sobretudo naquele aspecto tão descuidado, que é a parte orgânica dos projetos.”

“Você quer dizer: as pessoas”, emendei.

“Claro, tio. Mas preferimos usar uma linguagem mais técnica e científica. Afinal, vivemos numa era pós-moderna, que é também pós-humana, não é mesmo?”

As propostas pós-modernas e pós-humanas que ele desfiou a seguir eram capazes de alimentar, de fato, tanto a incredulidade quanto o temor de quem ainda seja pré-moderno e eventualmente humano – e incluíam, entre outros assombros, até mesmo o controle rigoroso do peso dos moradores ou usuários de uma edificação, cabendo aos síndicos de condomínios impor regras alimentares que impedissem a variação da massa corpórea estabelecida com antecedência para cada unidade. E, como se não fosse o bastante, nossos arautos da nova arquitetura cidadã apregoavam também o controle da obsolescência para materiais orgânicos: depois de um grau preestabelecido de “degenerescência cronobiológica”, as pessoas passariam a ter a obrigação de abrir mão de suas “rotinas psicofisiológicas”.

“Em outras palavras: simplesmente morrer”, traduzi para a linguagem humana.

Ele assentiu, com certo desgosto: “Isso mesmo, se o senhor prefere usar esta nomenclatura ultrapassada.”

(Apesar da descontração e da leveza que o ambiente de lanchonete sugeria, ele não estava “zoando”…)

Certamente, não é de hoje que nossa vida é marcada por um punhado de ideias traumáticas, saídas dos volumes de sinistras bibliotecas filosóficas – e arquitetos como Wright e Aalto, Niemeyer e Gropius nunca foram meros e inocentes construtores de prédios, mas verdadeiros planejadores sociais. Mesmo assim, a verdade é nunca tinha vislumbrado com tanta clareza o potencial macabro de réguas-T e AutoCADs sobre os nossos destinos. E, talvez para aproveitar o que ainda nos restava de autodeterminação e livre arbítrio, decidir ir embora e sugeri que pedíssemos a conta.

Tudo isso aconteceu há poucos meses – e ainda não deu para ver sinais mais explícitos das ideias do moço no mundo real. Mas pude perceber, por certo, os estragos que elas tinham feito no espírito e no comportamento de minha sobrinha-afilhada. A moça, antes alegre, humilde e adorável, foi se tornando soberba, apagada e (acima de tudo) triste.

Mas quis o Destino, cujo potencial didático e lenitivo ainda desconhecemos, que minha parente querida acabasse se cansando de bancar a cobaia nos projetos daquele jovem calculista de pesadelos. Ainda queria ser arquiteta, mas dividia agora os interesses profissionais com a paixão recente pela dúvida, que vinha dominando (e amaciando de novo) seu coração tão doce. E, como Deus costuma ser também o Grande Maestro do Universo, a moça anda ensaiando os primeiros compassos de um novo romance, com um talentoso pianista, recém-chegado de uma pós-graduação na Europa.

Soube das novidades na semana passada, quando encontrei sorridente numa esquina do Centro, perto de onde trabalha. Deixamos o sinal abrir e fechar umas cinco vezes, antes de seguirmos nossos respectivos caminhos – e, neste breve intervalo, contou-me a versão compata das venturas e deventuras recentes. Feitas as contas, o saldo mostrava claramente que ela estava mais livre. E mais leve. Escaldado pelo espírito volúvel dos jovens, e sempre com zelos de padrinho, cheguei a insinuar: “Mas este rapaz não tem nenhum projeto de tornar o ensino da música obrigatório, nem de que todos tenham um teclado em casa, não é mesmo?”

Minha doce sobrinha-afilhada deu uma gargalhada (como nos velhos tempos) e disse apenas: “Mas que absurdo, tio!”. Beijou-me o rosto e se afastou. Enquanto ia seguindo meu caminho rotineiro, olhei em volta, pensei no mundo e no prontuário de nossos erros recentes e tive que admitir: um Ministério do Piano, por exemplo, não seria mais absurdo do que um Ministério da Cultura ou dos Esportes. Seria apenas mais específico…

(Publicado em “OrdemLivre.org“)

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Os artigos assinados não traduzem a opinião do Instituto Millenium. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate sobre os valores defendidos pelo Instituto e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

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