30 de outubro de 2010
Autor: Claudio Mafra
Já basta ter passado pela outra. E aquela foi de direita, muito mais branda, menos acafajestada do que as da esquerda latino-americana, e incomparavelmente mais amena do que as tenebrosas do leste europeu e sua versão cubana. Na época faltava um parafuso na minha cabeça, mas até que eu achei bom os militares não terem nenhuma dúvida de que bandido era bandido, e não um problema sociológico. Muito tempo depois, eu me convenci que eles também tinham razão em não permitir “baderna” na reforma agrária. Não passava pela cabeça de ninguém invadir terras. Claro que o melhor momento foi quando finalmente passamos a rezar pela mesma cartilha: cultuar Marx, Lenin, Stalin, Fidel, Che, Mao, tratava-se de burrice ou maldade dos adultos, ou coração generoso e pouca experiência da juventude.
Desde o primeiro dia do golpe disseram que iriam entregar o poder de volta aos civis. Não propunham nenhuma ideologia, apenas queriam evitar que a maior calamidade da história da humanidade, o comunismo, também viesse para o Brasil. Nós, os que vivemos aquela época, vimos que Castelo Branco desonrou sua palavra e não promoveu as eleições em 65. Mas pelo menos morreu de vergonha quando depois dele assumiu o grosseiro e mal preparado, general Costa e Silva. Era tudo o que ele não queria. Ser sucedido pelo seu ministro do Exército era repetir a história das republiquetas de bananas, e passar para a posteridade como mais um reles ditador sul-americano. E foi o que aconteceu.
Durante a presidência de Costa e Silva o general Mourão Filho soltou a célebre frase: “Ele é de uma burrice sesquipedal”. A piadas corriam soltas: Reunião com os ministros da área de Energia. Discutia-se a compra de petróleo e só se falava em milhões de barris para cá, milhões para lá. Costa e Silva assistia calado. De uma hora para a outra abriu a boca: “Eu só gostaria de saber o que é vocês fazem com todos esses barris vazios”.
Acontece que os militares gostaram demais do poder. Era tão bom nomear os parentes e amigos para sinecuras, tão bom (foi odioso) cassar o mandato dos que não ficaram do lado deles na deposição de Getúlio em 1954, tão bom aprender as mutretas com os civis em projetos grandiosos, e sem dúvida maravilhoso criar estatais para um Brasil poderoso. Dessa maneira foram ficando por lá, até se desmoralizarem completamente. Hoje não têm coragem de andar fardados nas ruas. Ninguém mais sabe como é que se diferencia um capitão de um major, ou de um tenente, e assim por diante. É o fim da picada. Estão absolutamente, completamente, afastados dos brasileiros.
Meninos, vocês não devem saber que o dia 7 de setembro era uma festa nacional. Um verdadeiro programa assistir à “Parada”. A população ia aos milhares, em todas as cidades do Brasil, ver os militares desfilando. Havia tanta gente que nossos pais tinham que nos colocar nos ombros para que pudessemos enxerga-los, marchando ao som das empolgantes bandas com o seu som altíssimo, completamente diferente das músicas que costumávamos ouvir. Eram muito aplaudidos, muito admirados. A Banda dos Fuzileiros Navais era famosa, a melhor do Brasil, havia aprendido alguns truques com as bandas americanas e seu desfile era um show. Eram chamados para “abrilhantar” grandes festas ou grandes clássicos de futebol. No rádio tínhamos Emilinha Borba, “a favorita da Marinha”, Marlene, “a favorita da Aeronáutica”, e assim por diante. Quando chegava a hora da decisão do que fazer na vida, nós considerávamos as carreiras militares em pé de igualdade com Engenharia, Medicina, Advocacia, Arquitetura, Economia. O problema era unicamente vocacional. Estudar durante os cursos secundario e colegial no Colégio Militar ( Exército) ou no Colégio Naval (Marinha) era o maior charme. A admissão era dificil, um concurso disputado, e se você não quisesse seguir a carreira pelo menos estaria dispensado do serviço militar, esse sim, chatíssimo, todo mundo tentava cair fora.
Até que se os militares não tivessem errado feio na economia não teria sido tão ruím assim. Mas ditadura é ditadura, ela humilha você, alguém está o tempo todo dizendo o que é melhor para sua vida. (Não precisam me dizer, eu sei que a de hoje é muito pior).
Duas pequenas histórias: Em uma solenidade, Castelo Branco, presidente da República, vê o seu ministro do Exército, Costa e Silva, dirigindo-se às Forças Armadas, e protestando contra as leis, e contra o Supremo Tribunal Federal, que ainda permitia que os comunas recebessem habeas corpus e escapassem da prisão. O objetivo de Costa e Silva era agradar a “linha dura” e conseguir a presidência. O discurso foi num crescendo de violência, passou por cima da autoridade de Castelo e tornou-se altamente indisciplinado e desrespeitoso. A presença do presidente foi acintosamente ignorada. O Chefe da Casa Militar, general Ernesto Geisel, sussurrou para Castelo: ” O senhor precisa demitir o ministro imediatamente”. Bem, Castelo não teve peito e pagou por isso.
Muitos anos mais tarde, repete-se a cena com outros protagonistas. Geisel se depara com seu ministro, general Silvio Frota, que da mesmíssima forma que Costa e Silva queria ser o próximo presidente. Fazia discurso toda hora, ordem do dia, não parava de falar no perigo do comunismo e blá, blá, blá. Por algum tempo desafiou a autoridade de Geisel. No momento certo foi chamado ao Palácio e, após trocas de palavras ásperas e históricas, saiu demitido. Do Palácio dirigiu-se direto para o prédio do ministério do Exército, comportou-se como se ainda fosse ministro, quis resistir, mobilizar os 4 exércitos, em espetacular, dramático episódio, mas não conseguiu. Geisel já havia visto aquele filme, e sabia exatamente o que estava fazendo.
Eu estava em Nova Yorque, em 1965, e resolvi visitar Juscelino no exílio. Fui até seu pequeno hotel, acompanhado de uma amiga. Ele e D.Sarah nos receberam com sincera alegria. Conversaram animadamente com os dois jovens emocionados que naquela noite traziam algum conforto ao homem mais amado do Brasil. Quando achei apropriado perguntei: “Presidente, o general Castelo Branco tinha um compromisso com o senhor para a realização das eleições neste ano ?” Antes que ele respondesse, D.Sarah, de maneira impetuosa, interveio e me lembro que parecia levantar-se da cadeira, estendendo os dois braços em minha direção: ”Deu sua palavra de honra!” Juscelino esperou um pouco para não interrompê-la e disse: “Em todos os meus anos de vida política nunca vi uma traição igual”.
Não me recordo de mais nada, já que a declaração era tão marcante que eclipsou as amenidades, ou fatos menos importantes. Ficamos algum tempo tomando café, e na carinhosa (e triste) despedida, ele se demorou um pouquinho além da conta segurando a mão da Nádia, que era a linda namorada de um amigo. Aqui está o depoimento dela: “…e foi assim que revivi, muitas vezes, a nossa visita, no final de outubro, no Beverly hotel, na rua 57. Bendigo o momento em que você teve a lucidez de me propor essa visita! Devo-lhe esta, meu amigo, porque sem você acho que não teria tido a coragem de ir até lá. Aliás, ele, o JK, fez questão de me dar um abraço apertado, na saída, perguntando se eu não estava com frio. Mostrei meu casacão de lã, que carregava no braço. E ele uma vez mais sorriu, com simpatia e ternura. Abraço apertado demais, Nádia.”
Os artigos assinados não traduzem a opinião do Instituto Millenium. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate sobre os valores defendidos pelo Instituto e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
Toda a generalização é assaz perigosa. É possível que algum militar, como o senhor diz, “tenha gostado do poder” e praticado o nepotismo e participado de sinecuras. Mas a quase totalidade, aí incluindo os presidentes, deixaram o poder com os modestos bens que possuiam antes de assumí-lo. A assertiva de que não tem coragem de andar fardado na rua, se real, deve-se muito mais à preocupação de ser alvo preferencial de bandidos à procura de arma do que por se sentir desprestigiado perante a sociedade. Os militares não estão afastados dos brasileiros. O senhor consulte o site do Exército, por exemplo, e veja as diversas atividades realizadas em proveito da sociedade como um todo e do Brasil como nação. São inúmeros exemplos. Veja também a participação dos militares e suas instituições de ensino na vida da Academia. O senhor também deve fazer muito tempo não comparece a uma parada de 7 de setembro. Agende para assitir no ano que vem, em qualquer local do país, até mesmo em municípios que não possuem Organização Militar e verá com os seus próprios olhos. Estive numa unidade do Exército no interior de São Paulo e no 7 de setembro a Unidade desfilava, por solicitação dos prefeitos, em três municípios vizinhos à sede. Quanto à Banda Marcial do Corpo de Fuzileiros Navais ela não era famosa, não senhor. Ela é. Consulte o site da Marinha do Brasil para se informar. Veja com que antecedência o senhor tem que agendar uma possível apresentação dela em qualquer recanto do país. É quase tão solicitada quanto o Esquadrão de Demonstração Aérea, mais conhecido como Esquadrilha da Fumaça. Mas, para ficar na Banda, além dela existe a Sinfônica que também se apresenta por todo o país, assim como a Sinfônica do Exército Brasileiro, que no ano passado se apresentou na sede do Clube Militar no Rio de Janeiro. E mais, as demonstrações de Ordem Unida realizadas pelo Batalhão da Guarda Presidencial não ficam nada a dever às realizadas por militares de outros países. Procure no youtube que o senhor irá encontrar e assistir. Os Colégios Militares, assim como o Colégio Naval continuam a ser instituições ímpar e seus concursos de admissão são concorridíssimos. Todos sabem da excelência da educação ali ministrada, que pode ser constatada pelos resultados alcançados por seus alunos no Brasil e no exterior. Procure se informar a respeito. O aluno do Colégio Militar cumpria e continua a cumprir o serviço militar inicial obrigatório num programa existente dentro da própria instituição. Ele não se livra, não. Quanto aos aspectos da economia que o senhor critica, hoje fica fácil fazê-lo. Difícil foi para quem tinha a obrigação de decidir naquela época. E o fez, bem ou mal, o certo é que o Brasil se tornou a 8ª economia do mundo. Quanto aos fatos que o senhor testemunhou eu não tenho o que comentar.
Marco Balbi
Quanta baboseira falada em tão poucas palavras!
Achar que a ditadura do Brasil foi mais branda do que outras ditaduras na AL é de uma ignorancia sem tamanho…
Branda deve ter sido para você, que estava em Nova Iorque, aproveitando o máximo sua liberdade, enquanto outros brasileiros, como a presidente eleita, estavam sendo cerceados e torturados.
Acreditar que o próximo governo assemelha-se a uma ditadura é, no mínimo, uma grande bobagem. E se puder, antes de citar o Colégio Militar e a Reforma Agrária, estude um pouco mais.
Estudar no Colégio Militar não garante o cumprimento do serviço militar obrigatório. É necessário fazer um curso lá dentro.
Reforma agrária é coisa de capitalista. Não vem falar que a reforma é coisa de comunista comedor de criancinhas e de baderneiro. TODOS os países desenvolvidos fizeram reforma agrária. É uma condição sine qua non para o desenvolvimento. Além do mais, a reforma agrária está na Constituição.
Daniel