A cada quatro anos uma rara combinação torna o ano curto. Ele começa nesta semana com o fim do Carnaval e vai até o início de outubro com a eleição do presidente. Há ainda uma Copa do Mundo entre esses dois eventos. Em 2014 essa Copa, não custa lembrar, será no Brasil. O ano é curto porque a maioria dos brasileiros sai de férias no verão, nada muito diferente dos europeus a não ser o fato de o verão aqui coincidir com o início do ano gregoriano. Metade dos brasileiros sai de férias de 1º de janeiro até 15; a outra metade descansa na segunda quinzena desse mês. Logo em seguida, as duas metades param no Carnaval, talvez o feriado mais longo do mundo, somente uma terça-feira e meia quarta-feira que se transformam em praticamente uma semana senão de folia, certamente de viagem, como fez o autor deste artigo.
O Carnaval é uma festa que não comemora nada. Não se trata de uma semana para comemorar a Independência do Brasil, a Proclamação da República, uma revolução qualquer, o nascimento ou a ressurreição de Cristo, nada disso, nada em especial é comemorado no Carnaval. É apenas festa, alegria, nosso mundo diário de cabeça para baixo, é apenas um grande parêntesis da vida, um período de esquecimento e suspensão do que nos aflige diariamente.
Quanto a isso, nada mais interessante do que ler qualquer portal de notícias durante o Carnaval. Só há notícias sobre o Carnaval, nada mais. As escolas de samba do Rio, o Galo da Madrugada no Recife, os trios elétricos da Bahia, o Carnaval em cidades menores, como Ouro Preto (MG), Barra de São Miguel (AL) e até mesmo o Carnaval de São Paulo.
É quase um passe de mágica. Até sexta à noite há todo tipo de notícias, inclusive sobre corrupção e, no caso deste ano, sobre a prisão de Arruda. Amanhece o sábado e o noticiário muda completamente, muda da água para o vinho, mais de acordo com o Carnaval, o noticiário muda da água para a cerveja e para a cachaça. Continua lá a notícia da prisão do Arruda. Mas ela, que antes ocupava o topo da página dos portais, desce repentinamente para o rodapé. O Cordão do Bola Preta, que não estava em lugar nenhum e todo ano sai no sábado de manhã no Rio, vai para o lugar de maior destaque dos portais.
O talibã, a crise do Irã e as declarações de Hillary Clinton, e sei lá o que mais, todas as notícias não carnavalescas são encontradas desde que o leitor utilize uma lupa de grande potência. O mundo inteiro funcionando e o Brasil parado, dançando e cantando anualmente para comemorar nada em especial.
Como eu gosto de Carnaval e há algum tempo não ia ao Nordeste especialmente para a festa, decidi ir a Pernambuco. Trata-se da combinação perfeita entre festa, praia, boa comida e divertimento. No sábado fui ao Galo da Madrugada no centro do Recife e no domingo fui a Olinda e ao Recife Antigo. Uma maratona da alegria, e física também. Segunda e terça foram de sol e praia, muito sol e pouca folia. Ainda assim, no mesmo clima carnavalesco, sem pensar em nada, sem notícias sérias, sem coisas para resolver ou decisões para tomar. Diga-se de passagem, em que pese a eficiência dos modernos telefones espertos (smart phones) muito poucos e-mails são recebidos ou enviados nesses quatro dias. Quanto a esse aspecto, parece muito com a noite de Natal. O feriado é realmente respeitado.
No Galo da Madrugada presenciei alguns eventos muito interessantes que falam sobre o Brasil. Quase em frente do camarote onde estávamos eu, minha mulher e vários parentes e amigos, apareceu José Serra acompanhado de outros políticos importantes de Pernambuco e do Brasil, tais como Sérgio Guerra, Jarbas Vasconcelos, Juthay Júnior, Cícero Lucena, Marco Maciel, Raul Jungmann e Bruno Rodrigues. A maioria deles acompanhou a passagem dos trios elétricos por meia hora ou um pouco mais. Esperava eu que algum artista ou cantor os cumprimentasse. Minha expectativa foi frustrada. Nada aconteceu.
Os trios elétricos se sucediam sem uma menção sequer a seus representantes. Recorri à minha memória das leituras de Roberto DaMatta, o nosso grande intérprete do Carnaval, para obter uma explicação sobre aquele evento. Aquilo provavelmente aconteceu porque o Carnaval é a maior manifestação da sociedade, em especial no Nordeste, e essa sociedade, ao menos no Carnaval, dispensa seus representantes. O Carnaval acontece com ou sem eles. O Carnaval é bom com ou sem eles. Talvez seja assim nos Estados Unidos quando se troca, nas duas frases anteriores, a palavra carnaval por economia. Quem sabe o Brasil viverá isso também daqui a alguns anos.
Essa sociedade pujante no Carnaval faz da festa um grande liquidificador. Tomo aqui emprestado de Roberto Campos a frase em que ele mencionou Hélio Jaguaribe como um liquidificador de ideias. Tratava-se de uma crítica. Como o Carnaval inverte tudo, estamos diante de um elogio: o Carnaval é um liquidificador de personagens, nacionalidades, hábitos. Vi todos os tipos de fantasia, tudo alegremente incorporado à festa: cubo mágico, Michael Jackson, Homem-Aranha, índios, Pierrô, Colombina, Beyoncé – que aqui foi transformada em fantasia de Bionça -, vampiro, Pedrita e Bam-Bam, pinguins, bruxas, até de agentes policiais que revistavam as moças. As fantasias que, ao esconder as pessoas, tornam tudo impessoal, estabelecem temporariamente, mesmo no Nordeste, a igualdade.
No beisebol o obsessivo americano, que tem hora e pontualidade para tudo, aproveita um jogo, deve ser dito que é o principal esporte deles, que não tem hora para terminar. Inverte-se o mundo diário temporariamente, ao menos durante a partida. No Brasil o Carnaval anula as desigualdades.
Ah, quanto a isso vale dizer que há coisas que independem do Carnaval. Digo isso pensando nos banheiros químicos disponíveis para os frequentadores dos camarotes. Havia 11 banheiros para as pessoas normais e 3 para os frequentadores do camarote de uma tal de Fundarpe. Neles tinha uma placa com o nome da organização e alguns vigias de banheiro químico prontos a impedir que qualquer cidadão que não fosse da Fundarpe os utilizasse.
Tive a chance de presenciar uma discussão por direitos. Alguns usuários comuns se revoltaram contra os três banheiros separadamente designados para somente um camarote. Aliás, não havia filas em tais banheiros, ao passo que nos outros 11 a fila era uma constante. Depois dessa discussão, a Fundarpe perdeu um banheiro. Menos mal, a fila dos comuns diminuiu um pouco com o banheiro a mais.
Não sei o que é a Fundarpe. Não pesquisei na internet, até porque era Carnaval e este artigo foi enviado para o Valor em plena terça-feira gorda. Ele foi a única ligação que tive com a realidade nos quatro dias de folia. Imagino que a Fundarpe seja uma instituição pública, paraestatal, dependente do governo na melhor das hipóteses. Faço menos ideia ainda do processo de decisão que alocou 3 banheiros para a Fundarpe e só 11 para todos os demais frequentadores dos camarotes. É possível que seja o mesmo processo de decisão que leva a oferecer um serviço ruim para todos, os banheiros químicos, as escolas públicas, a saúde pública, mas faculta a alguns terem acesso a um serviço de boa qualidade ou determinadas facilidades em função de posições, conhecimentos ou contatos.
Quando tomamos toda a população brasileira, 51% afirmam que o serviço particular de saúde é ótimo ou bom. Essa mesma avaliação é feita por somente 8% quando se trata do serviço público de saúde. É muito ruim a avaliação do serviço público de saúde. Sabem por quê? Porque o serviço é ruim mesmo, isso na avaliação de todas as classes sociais. O mesmo fenômeno ocorre quando são comparados os serviços particular e público de educação. As escolas particulares gozam de 62% de ótimo e bom e as escolas públicas, somente 21%. É interessante que nas duas avaliações os habitantes do Nordeste sejam os mais indulgentes e os habitantes do Sul os mais exigentes. O Carnaval no Nordeste é bem mais forte e presente do que no Sul.
Quem dera todos os 14 banheiros químicos fossem bons e de acesso permitido a todos. Quem dera a educação e a saúde pública brasileiras fossem boas e todos nós pudéssemos e quiséssemos utilizá-las. Sem escolas ou hospitais especiais para pessoas especiais, desta ou daquela organização. É possível que haja uma conexão entre não cumprimentar os representantes no Carnaval, sejam eles do partido político que forem, reservar banheiros especiais para uma organização especial e não oferecer serviços públicos adequados de saúde e de educação.
Entra ano, sai ano, entra Carnaval, sai Carnaval, entra eleição, sai eleição, e o Brasil continua a se debater com problemas antigos, não do século passado, mas retrasado. Problemas advindos de nossa herança escravista. Qual é a proporção do imposto que você paga vai para sustentar a organização do Carnaval? Talvez muito pouco. E mesmo assim o Carnaval é um sucesso. E justamente por isso o Carnaval é um sucesso, porque é um evento que a sociedade organiza. Sem a sociedade não há Carnaval; por outro lado, sem o governo há Carnaval. Qual é a proporção do imposto que você paga e vai para sustentar saúde e educação públicas? Muita coisa, provavelmente. E mesmo assim saúde e educação públicas são um fracasso. E justamente por isso ambas são horríveis.
Sem a pressão e o controle da sociedade não há salvação para o bom uso do dinheiro público. Sem isso, só os galhinhos de arruda nos salvarão dos mensalões da vida.
(“Valor Econômico”, 19/02/2010)
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