26 de agosto de 2009
Autor: Alberto Carlos Almeida
Lula não é um gênio da comunicação. Lula não é um fenômeno. Lula não é um supercarismático. Lula não é tudo aquilo que todos dizem e em que acreditam. Lula é uma pessoa normal. Lula é um filho do Brasil, de família pobre do interior do Nordeste. Sua família, como milhares de outras, deixou Pernambuco para ganhar a vida em São Paulo. As pessoas vão para onde vão os empregos e as oportunidades. Foi assim com os migrantes que deixaram a Europa para ir para os Estados Unidos e o Brasil. É assim com os mexicanos que trocam seu país pela América do Norte. Nesse sentido, a história da família de Lula é tão comum quanto a de milhares e milhões de famílias espalhadas pelo Brasil e mundo afora.
Filhos de pais pouco escolarizados tendem a ter escolaridade mais baixa do que filhos de pais muito escolarizados. Essa é uma regra estatística e Lula é um dos exemplos individuais dessa regra. Ele não passou da quarta série do primário. Nada de surpreendente nisso. O Brasil nunca fez um esforço educacional do tamanho da Coreia do Sul, um esforço grande o suficiente para fazer que todos os filhos de pais analfabetos ou pouco escolarizados pudessem vir a cursar o grau superior. Aliás, se Lula tivesse feito o grau superior, provavelmente não teria entrado na política, não teria sido sindicalista. Consequentemente, muito dificilmente teria se tornado presidente eleito e reeleito.
Sorte a do Lula, relendo hoje a história do fim para o início, da Presidência para o sindicalismo do ABC; sorte do Lula que ele não se escolarizou. Sorte dele também que isso o tenha permitido se tornar torneiro mecânico. Sem essa inserção profissional ele não teria conhecido o Sindicato dos Metalúrgicos. Veio o envolvimento sindical, mais sorte. Quem conhece a história de qualquer liderança sindical sabe que há inúmeros fatores que atraem alguém para a vida do sindicalismo. Esses fatores cruzaram a vida de Lula. Veio então a chance de se projetar nacionalmente.
Não foi qualquer chance. A família de Lula, depois de sair de Garanhuns, foi parar no lugar certo na hora certa: o Estado de São Paulo rico e industrializado, durante a ditadura militar, que, como qualquer ditadura, acaba caindo; na região do ABC, que era a área do Estado que mais concentrava trabalhadores manuais especializados e semiespecializados.
Basta pensarmos: que fim tiveram os filhos de nordestinos que, como Lula, foram para São Paulo, mas se fixaram, e se tornaram sindicalistas, em Santos, São José dos Campos, Ribeirão Preto, Campinas ou Sorocaba? As condições do ABC estavam dadas: a maior concentração de metalúrgicos do Brasil. Ser sindicalista aí era mais relevante do que ser sindicalista em qualquer outro lugar de São Paulo. Aliás, ser sindicalista em São Paulo era mais importante do que ser sindicalista em qualquer outro Estado. Nada disso foi escolha de Lula. Eram coisas já predeterminadas pela sua família e pela época em que nasceu.
A propósito, nada mais apropriado do que a época em que os líderes sindicais assumiram a liderança dos metalúrgicos. A ditadura militar começava a dar sinais de cansaço. Os líderes políticos alijados da aliança militar, dentre os quais se destacava Ulisses Guimarães, precisavam de algum apoio social para ajudar a balançar os pilares fraquejados do regime. Esse apoio social não seria de turbas desorganizadas, mas de algum tipo de movimento organizado.
Eis que cai como uma luva a militância operária do ABC. Eis que surge uma aliança inusitada: líderes políticos tradicionais de São Paulo, que nunca concordaram com a ditadura, que sempre se opuseram a ela, e um movimento novo resultado da concentração industrial na região metropolitana de São Paulo.
Essa aliança inusitada faz que Lula entre na política. Ele começa a ter visibilidade nacional e, com o apoio de uma determinada facção de professores universitários e da classe média urbana, funda um partido político. Lula torna-se o principal líder e símbolo desse partido.
Impossível ser diferente. Era o filho do Brasil, viera da pobreza nordestina, era operário, tinha perdido um dedo em um acidente de trabalho, aliás, um destino comum a milhares de trabalhadores brasileiros, era líder sindical, levava uma vida de classe baixa, ou seja, Lula tinha em sua história de vida tudo que o tornava o principal símbolo de um partido de esquerda. Ele não precisa de escolarização para ser esse símbolo. Ele não tinha, não tem e nunca terá competidores à sua altura dentro do PT. Ele é o principal líder simplesmente porque tem a história de vida que tem. E sobre isso ele teve pouco controle. Eis a querida sorte.
A sorte só vem para quem insiste. Quem quiser ganhar na Mega-Sena terá de insistir. É uma outra maneira de dizer que as chances de ganhar são poucas, mas só ganha quem faz a aposta. Quanto mais insistente um apostador for, mais ele terá chance de ganhar. Fazer muitos jogos, jogar toda semana, fazer jogos caros nada mais são do que diferentes modalidades de insistência. E Lula insistiu.
Em sua primeira eleição, disputou o governo de São Paulo, foi eleito deputado federal, percorreu o país em caravanas da cidadania, procurou organizar o PT não apenas em São Paulo, mas em todo o Brasil, evitou fazer alianças para que o partido tivesse uma cara própria, participou da fundação da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e muito mais. Lula fez o que sabia fazer: insistir. A sorte só vem para quem insiste.
O emblema maior da insistência de Lula foram as três eleições que disputou antes que fosse eleito. Perdeu para Fernando Collor em 1989, perdeu para Fernando Henrique em 1994 e repetiu a derrota em 1998. Lula teve azar ao perder essas três eleições? Há quem argumente que não.
Imagine-se se ele tivesse sido eleito em 1994. O PT era um partido radicalizado, José Dirceu, seu fiel escudeiro, não havia ainda domesticado (e expelido) as tendências mais radicais. O PT não tinha quadros nem experiência de governo. Nem mesmo em 2002, oito anos mais tarde, o PT tinha um nome próprio para ocupar a presidência do Banco Central. Imaginem o que aconteceria com este e outros postos tendo Lula sido eleito em 1994.
Mais do que isso, naquele ano o Brasil carecia de amplas reformas estruturais. Reformas que, como todos nós viemos a descobrir mais tarde, eram liberalizantes. O Brasil precisava lidar com esqueletos, ajustar as contas públicas, gerar eficiência em setores da infraestrutura, como telefonia e energia elétrica, baixar e manter controlada a inflação, definir linhas mestras de programas sociais. Muita coisa precisava ser feita. Foram necessários pelo menos oito anos para todas essas realizações.
Nesse mesmo período, ocorreram várias crises internacionais que tiveram grande impacto negativo sobre o Brasil. Dificilmente a estrutura política do PT, sua ideologia e sua maturidade em 1994 teriam dado conta de tais tarefas. Sorte do Lula que perdeu três eleições. Mais sorte ainda: quem ganhou fez várias reformas, de grande profundidade, que prepararam o Brasil para o crescimento.
Sorte de Lula que veio a crise do apagão. Naquele período o Brasil retomava seu ciclo de crescimento. Os indicadores vinham se tornando mais e mais positivos, mês após mês. O apagão pôs tudo a perder. Vieram a recessão e o desemprego. Mas havia tempo para a recuperação antes da eleição de 2002. Sorte de Lula que naquela época representava um grande fantasma para o mercado financeiro. Em 2002, o risco Lula teve um formidável impacto negativo em todos os indicadores do mercado. Em 2001 o apagão jogou Lula para cima, em 2002 o risco Lula e seu impacto econômico manteve Lula lá em cima. E ele venceu.
A sorte só vem para quem insiste. A sorte só vem para quem toma decisões corretas. O problema é que só vivemos o presente. Não sabemos que decisões se tornarão as corretas, no futuro, e que decisões serão as erradas. Hoje podemos dizer que Lula tomou a decisão correta de manter a política econômica de seu antecessor. Eis seu grande mérito: fazer na economia tudo o que já vinha sendo feito no governo Fernando Henrique. O governo que lhe antecedeu preparou o terreno e plantou, Lula apenas continuou plantando. Até que veio a chuva, até que veio um cenário internacional amplamente favorável, de grande liquidez. Resultado: o Brasil entra em um longo e vigoroso ciclo de crescimento econômico.
Quando isso acontece, Lula se torna um gênio, Lula se torna um fenômeno. Lula é considerado por muitos um grande, senão o maior, fenômeno de comunicação que o Brasil jamais conheceu. Praticamente qualquer um de nós, tanto quem escreve este artigo quanto quem o lê, seria um fenômeno de comunicação em uma situação tão favorável quanto a que premiou Lula. Muitos dizem que Lula fala a língua do povo, que Lula fala o que o povo quer ouvir. Ao menos dois episódios recentes revelam que isso não é tão verdade assim.
Durante o escândalo que assola o Senado, Lula afirmou que Sarney era uma pessoa especial e, como tal, merecia um tratamento especial. Fizemos essa pergunta à população adulta brasileira e descobrimos que praticamente 80% dela discorda da afirmação do presidente.
Em um episódio não menos importante, mas muito menos divulgado, Lula afirmou que era preciso aumentar impostos em função de programas sociais como o Bolsa Família. Mais um engano do presidente. O Bolsa Família é um excelente programa social (diga-se de passagem, de DNA liberal), mas a população prefere mesmo é ter mais dinheiro no bolso. Praticamente 70% de nossa população adulta prefere menos impostos e mais dinheiro no bolso a mais impostos e mais programas sociais.
Talvez seja essa mais uma sorte de Lula: como a maioria acha que ele é um fenômeno, essa mesma maioria crê que tudo o que ele fala tem apoio popular. Acha que tudo o que ele fala está baseado em seu genial feeling e nas mais bem feitas pesquisas. Ao pensar assim, essa maioria não se dá conta de que esse homem de muita sorte tem muitos pontos vulneráveis entre essa população pobre que mais o venera e adora.
(Valor Econômico – 21/08/2009)
Os artigos assinados não traduzem a opinião do Instituto Millenium. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate sobre os valores defendidos pelo Instituto e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
Só discordo sobre esta pretensa “genialidade” de lulla. Ele teve sorte de pegar um contexto econômico internacional favorável, ao contrário de Fhc. Como você mesmo disse, se ele, Lulla tivesse ganho antes não teria a competência que FHC teve para enfrentar os problemas que o Brasil enfrentou. Com todo um contexto econômico favorável, é fácil governar, mesmo não tendo escolaridade. Outra coisa vexatória que elle deixará como legado, é a total descarecterização do Pt, hoje um partido avesso à Ética e adepto da bandidagem.
Nayala de Souza Ferreira Maia