A razão nanica de Estado

27 de junho de 2010
Autor: Roberto Romano

pequeno normal grande

O governo brasileiro assumiu uma prática antiga na ordem internacional. Trata-se da razão de Estado. Na Europa, na Ásia e nos Estados Unidos da América é muito clara essa forma de pensar e agir. O Brasil, por sua vez, viveu sob a razão de Estado como súdito de Portugal, depois num Império conservador e duas ditaduras. Sem potência militar ou econômica para atingir os seus interesses, o País seguiu regras alheias e alvos idem. Agora o Itamaraty executa planos heterodoxos, sobretudo no campo dos direitos humanos. Prisioneira de regimes como os de Cuba, Irã, Zimbábue, Coreia do Norte e de outros países que violam estatutos civis, a Realpolitik brasileira se justifica pela suposta eficácia geopolítica ou econômica. Em Honduras, quando quebrou normas diplomáticas, interferindo nos assuntos internos do país, e no episódio iraniano, ao apoiar um dirigente antissemita, perdeu o Brasil. O recuo no acordo com a ditadura do Irã mostra a imprudência de nossa Chancelaria. Tais desastres mostram uma razão de Estado bisonha, mas, como as suas primas sérias, afeita à dissimulação.

A razão de Estado surgiu no Renascimento e significa o recurso da força e da astúcia a serviço do poder político. O seu ápice se encontra no absolutismo. Neste último, o governante foi posto acima das instituições. Contra tal arbítrio surge a democracia moderna na Inglaterra (século 17), nos Estados Unidos e na França (século 18). Os governos e os legisladores, mesmo os juízes, passam a integrar o corpo cidadão e jamais devem colocar-se fora dele. Assim, é exigido de todos os que operam no espaço público o compromisso com a verdade (daí o livre exame e a imprensa sem peias), a dita “accountability”.

Fé pública e verdade garantem, nas democracias, os deveres, as leis, os contratos. As sociedades livres não podem existir sem a verdade. Nelas o segredo e a dissimulação devem ser atenuados. A mentira e similares ameaçam o coletivo, pois corrompem o juízo e as condutas. Nada é garantido no campo democrático, que, segundo Norbert Lenoir, “é menos um regime que duraria por suas próprias forças, em virtude de seus princípios constitucionais, do que uma dinâmica: dinâmica de uma extensão dos direitos e generalização dos direitos fundamentais, resistência à concentração do poder que pode favorecer uma oligarquia reinante em nome do povo” (Democracia e Espaço Público). Quando partidos ou líderes são postos acima ou fora da ordem constitucional, surge a tutela arbitrária exercida contra o povo, impera a razão de Estado. Esta é sinônimo de segredo e de espionagem. O pensamento democrático é oposto ao segredo. A publicidade é “a lei mais apropriada para garantir a confiança pública, sendo a causa de seu avanço constante rumo ao fim de sua instituição”. Ademais, o segredo “é instrumento de conspiração; ele não deve, portanto, ser o sistema de um governo normal” (Bentham, Of Publicity). Segundo Georg Simmel, “toda democracia considera a publicidade como intrinsecamente desejável, seguindo a premissa fundamental de que todas as pessoas deveriam conhecer os eventos e circunstâncias que lhes interessam, visto que esta é a condição sem a qual elas não podem contribuir nas decisões sobre elas mesmas”. Procedimentos secretos são corrigidos pela publicidade, ou seja, pela imprensa.

O governo atual é inimigo da livre expressão do pensamento. Para salvar as aparências na ordem externa, aumentando o número de votos em plano interno, seus adjuntos e aliados pregam o “controle social da imprensa”. Tal prática, sob o disfarce da vontade coletiva, herda a pior razão de Estado moderna, a fascista.

No tema, basta citar Carl Schmitt – acarinhado pela esquerda, depois de ser oráculo da direita mundial – e seu pensamento sobre o controle político. O jurista alemão afirma que, no mister de formar a opinião pública, a imprensa estaria prestes a ser destronada pelo audiovisual. A mídia ameaçaria o Estado na tarefa de moldar o pensamento coletivo. Assim, pensa Schmitt, o Estado deve ter controle direto ou indireto daquelas técnicas, usando-as para propaganda. “Não existe ainda”, acrescenta Schmitt, “um Estado tão liberal que não tenha reivindicado em seu proveito pelo menos uma censura intensiva e um controle sobre filmes e imagens, e sobre o rádio. Nenhum Estado pode permitir deixar a um adversário os novos meios técnicos de dominação das massas, sugestão das massas e formação da opinião pública.” O Estado total, segundo Schmitt, controla a comunicação. Assim, “os novos meios técnicos pertencem exclusivamente ao Estado e servem para o aumento de sua potência”. O Estado novo “não deixa surgir em seu interior forças inimigas que o obstruam ou desagreguem. Ele não deixa que seus inimigos disponham de meios técnicos, sapando sua potência por um slogan qualquer como Estado de Direito, liberalismo ou um nome outro. Ele sabe distinguir entre amigo e inimigo. (…) Sempre foi assim e a novidade reside apenas nos meios técnicos, cuja importância política deve ser levada em conta” (citado por Olivier Beaud: Les derniers jours de Weimar. Carl Schmitt face à l”avènement du nazisme).

A razão nanica de Estado espiona cidadãos e censura a imprensa. É o “controle social”… Daí o costume de armar denúncias, os supostos dossiês, a quebra ilegal dos sigilos bancários. Recordemos o ataque covarde de agentes públicos a Francenildo Santos Costa, o dossiê dos aloprados, o dossiê contra Ruth Cardoso e, agora, os papéis contra Eduardo Jorge. Certa parcela da ordem política brasileira recorda a bonequinha matrioshka: um crime dentro de um crime, dentro de um crime, dentro de um crime… E todos os crimes são impunes porque praticados em nome da razão nanica de Estado. Quem arma dossiês aproveita a penumbra, o silêncio, o segredo que infecta as entranhas do poder político. Saibamos reagir a tempo, porque depois, sob uma ditadura, restam apenas as receitas de bolos, sob a censura e a espionagem.

(“O Estado de S. Paulo” – 27/06/2010)

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Os artigos assinados não traduzem a opinião do Instituto Millenium. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate sobre os valores defendidos pelo Instituto e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

  1. LULA, O MITO.

    A corrupção, a impunidade, a violência e o desgoverno são reveladores do estado de anomia do país. Os diferentes escândalos, como o do “mensalão”, não atingiram Lula.
    Por que é blindado? Como um governante despreparado como ele chegou ao poder?
    A resposta pode parecer simples: porque Lula é um mito.
    Ao longo deste estudo, vamos demonstrar que é favorecido por uma herança cultural arcaica, submersa no inconsciente coletivo da sociedade brasileira.
    Encarna o arquétipo do herói e salvador, que existiu desde sempre. Com seu carisma e seus atos teatrais encanta e manipula as massas.
    Lula enredou-se em duas narrativas míticas entrelaçadas: a revolucionária e a mística.
    Como operário metalúrgico, líder sindical e do Partido dos Trabalhadores, foi investido da força simbólica sagrada do mito revolucionário. Exprime o sonho romântico e regressivo de uma idade de ouro pré-industrial qualquer, a nostalgia de uma comunidade primitiva, de uma fraternidade tribal. O herói conduzirá a nação até este “jardim da infância” humano, onde haverá abundância para todos, sob o reino do pai justo e bom. No Manifesto do Partido, lê-se: “construir uma sociedade igualitária, onde não haja explorados nem exploradores”. É o projeto de sociedade democrática e popular, o socialismo.
    A revolução e a crença mística criam a esperança do reino dos pobres, “herdeiros” do reino vindouro, a Terra Prometida.
    Muito mais poderoso, na sociedade brasileira, é este mito messiânico. É daí que Lula extrai toda a sua couraça sagrada. Um dos ideólogos da costura desta justaposição, – involuntária, certamente-, foi frei Betto. Tomemos, por exemplo, seu livro “Lula, biografia política de um operário”. O amálgama entre o torneiro mecânico e o Messias começa na origem humilde do primeiro. Lemos aí que “nasceu no Nordeste… numa família de lavradores confinada a uma precária economia de subsistência. Sua trajetória familiar coincide com a de inúmeros nordestinos que, expulsos da terra pelo latifúndio ou condenados à fome pela ‘indústria da seca’…viajaram treze dias num ‘pau-de-arara’ na esperança de um futuro melhor…No litoral paulista…tornou-se vendedor ambulante…foi morar com a mãe e os irmãos num apertado cômodo nos fundos de um bar, cujo único banheiro era partilhado pela família e pelos bêbados. Seu primeiro emprego, aos doze anos, foi numa tinturaria…e, aos quatorze anos ingressou numa metalúrgica…” No imaginário social, -não há fatos comprovados-, o Salvador teria nascido numa manjedoura e sido artesão, antes de se tornar o pregador carismático. Esta origem humilde destinou-os a personificarem os salvadores dos pobres e dos oprimidos, dos fracos, dos necessitados, dos enfermos, dos excluídos, “daqueles que não têm voz”. A “classe trabalhadora” que chegou à presidência, através de seu líder máximo, representa os segmentos populares constituídos pelos “operários industriais, assalariados do comércio e dos serviços, funcionários públicos, moradores da periferia, trabalhadores autônomos, camponeses, assalariados rurais, mulheres, negros, estudantes, índios e outros setores explorados e marginalizados da sociedade brasileira (…).” O herói salvador venceu o demônio, isto é, “os donos do grande capital”.
    Vamos citar outra superposição de imagens entre Lula e a vítima sagrada. No discurso que pronunciou à Nação para dar explicações sobre o “mensalão”, Lula afirmou que foi traído pelos companheiros. O célebre quadro da “Santa Ceia” imortalizou a figura do traidor Judas, com as trinta moedas…
    Analisemos agora as bolsas, – programas sociais iniciados pelo famoso “Fome-Zero”-, que sustentam a população de baixa renda (os pobres), transformando-a na maior clientela do Estado (cerca de 46 milhões de pessoas). No discurso místico trata-se do sinal do maná, “o verdadeiro pão que vem do céu”(6, 32-33). O antropólogo Marcel Mauss escreveu um ensaio sobre a dádiva, em que analisa as mais antigas relações de troca nas sociedades. Um dos exemplos que cita é o “dom” (potlatch), que quer dizer, essencialmente, dádiva e alimento. Estabelece-se uma forma arcaica de contrato, em que o presente recebido é obrigatoriamente retribuído. A dádiva implica necessariamente a instalação de crédito. O potlatch é mais que uma troca: é um fenômeno religioso, mitológico e xamanístico, “pois os chefes que nele se envolvem representam, encarnam os antepassados e os deuses(…)”. O que é dado tem a obrigação de ser retribuído. Em outras palavras, a clientela cativa de Lula deve continuar retribuindo, e com juros. Não foi à toa a enorme diferença na votação da reeleição…
    O cargo de presidente, no Brasil, é investido de forte carga emocional inconsciente. Na evolução histórica recente, ungiu-se de uma áurea sagrada, devido ao que Mauss estudou como sistema sacrificial. Getúlio Vargas, “o pai dos pobres”, deixou um manuscrito em que declarava “que o sangue de um inocente sirva para aplacar a ira dos fariseus”. Tancredo Neves, oriundo da mesma terra de Tiradentes, teve uma longa agonia. Remetem à figura da vítima ancestral do sacrifício primitivo, o cordeiro pascal. Estes sacrifícios mortais de presidentes forneceram os elementos de um simbolismo sobrenatural ao papel social. Lula se beneficia deste cordão consagrado na crença popular. Aos olhos do povo, chega a ser um verdadeiro sacrilégio vaiá-lo…
    Um líder sindical metalúrgico, dotado de forte carisma, conduziu greves operárias no final do regime militar, tendo sido preso na época (1980). Nasceu, assim, o mito Lula, fabricado pelos teólogos da libertação, pelos intelectuais de esquerda, pelos publicitários e pela mídia.
    Este mito reverberou fundo na alma nacional, na presente contingência histórica. A sociedade brasileira encena, através dele, sua natureza profundamente cristã.
    Rezemos para que o final do drama não seja mais trágico do que já está sendo.

    Agosto de 2007.

    fernando flora


    25-09-2010 11:04:33

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