A Parada do Orgulho Liberal
dezembro 1st, 2008 by Convidado - Márcio David Mattos
O Brasil vive momentos de elevação do nível de hormônios ao fundir sexo e política. Não apenas nas habituais relações incestuosas do Executivo com o Legislativo, nem das já conhecidas intenções dos políticos em relação à Viúva e seu cofre. Parece que a temática sexual como retórica entrou de vez (!) nas manchetes dos jornais. Tanto o Presidente da República se refere ao “cuecão”, como a Ministra do Turismo que, sendo sexóloga de formação e natureza, recomenda aos passageiros que abstraiam o período de transtorno nos aeroportos brasileiros e descubram o prazer que independe das circunstâncias – o sexo é o ópio da classe média. Além disso, o Presidente do Congresso Nacional se vê envolvido numa trama que deveria estar restrita aos escritórios de advocacia, mas que se torna material farto para jornalistas, colunistas e humoristas, sendo a opinião pública obrigada a presenciá-lo chamando a mãe de sua filha de gestante; pensão alimentícia de “fundo de educação e cultura” e vendo sua base de apoio no congresso desaparecer na mesma proporção em que o seu imbróglio cresce. Temos ainda o caso do deputado Clodovil emitindo opiniões duvidosas acerca das mulheres em geral e certeira em relação a uma em particular, pois se ele não tem legitimidade para falar do sexo alheio, certamente tem quando o assunto é moda e estética. Por fim, temos esta manifestação denominada Parada do Orgulho Gay acontecendo paralelamente a um projeto de lei que no Congresso Nacional visa impedir que se manifestem opiniões do tipo “não gosto de homossexuais” e coisas semelhantes (um privilégio que os políticos adorariam ver a eles estendido), aumentando o caldo de cultura em que se transformou a fusão de sexo e política no Brasil recentemente. Em que pese o mau gosto da fusão de sexo e política como prática e retórica, esse momento serve de pretexto para uma reflexão dos liberais brasileiros.
As diferenças entre liberais e conservadores começam a aparecer exatamente neste ponto onde os direitos e garantias individuais colidem com conceitos mais abstratos como tradição, costumes, valores. Não porque tenha que ser assim necessariamente, mas devido ao fato de que a esquerda mais pragmática há muito abdicou do controle dos meios de produção para a instauração do socialismo real e migrou para a defesa das “minorias”, fazendo disso uma bandeira de união do movimento revolucionário. Para a luta anterior, liberais e conservadores se uniam, pois tinham um inimigo comum. Vencida no campo teórico (Mises, Hayek, Schumpeter e Friedman) e na prática desastrosa da experiência socialista, liberais e conservadores deixaram de olhar uns para os outros como aliados, reparando bem mais nas suas diferenças. Temas como aborto, homossexualismo, eutanásia e outros evidenciaram o que estava camuflado pela luta contra o totalitarismo: liberais e conservadores pensam muito parecido em poucos assuntos – na maioria deles, divergem. Enquanto o movimento revolucionário obedeceu Marcuse e partiu para introduzir Eros na Civilização após a década de 50, liberais e conservadores optavam por mostrar ao mundo os despropósitos do socialismo e as virtudes da economia de mercado; hoje ambos estão despreparados para lidar com questões que os primeiros não acreditam ser relevantes e que os últimos entendem como cruciais. Não se sabe como se dará a convergência, se é que ela virá. Mas o histórico é favorável.
Ao contrário do que imaginam os revolucionários dos costumes, nenhuma divisão entre liberais e conservadores é capaz de dissuadi-los de suas premissas maiores nas disputas deste gênero: a razão, a liberdade e o compromisso com a busca da verdade. O que os fez convergir no passado está presente hoje: o valor da vida humana e a sua defesa contra a tirania, o arbítrio e a opressão, seja do Estado, seja da coletividade. Nisto estarão unidos sempre que se fizer necessário. Juntos nos debates contra os totalizantes; separados para acertar suas arestas, sempre pautados pela lógica, pela razão e pela liberdade. Talvez, por isso, jamais teremos uma Parada do Orgulho Liberal, pois este é o próprio modo de vida de liberais e conservadores.
Marcio David Mattos é Economista pela PUC-Rio e membro do Instituto Liberal.
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