A elite da elite

30 de julho de 2009
Autor: Jose Andres Lopes da Costa

pequeno normal grande

Recebi por obra do acaso um correio eletrônico enviado por um amigo meu em tom de provocação, que continha o conteúdo extraído de uma página da internet com um curioso título “A elite da elite”.

Detive-me alguns instantes na leitura de um texto que parecia ser uma espécie de manifesto – um tanto pedante e arcaico – contra as denominadas “elites orgânicas” de nosso país, assim definidas como “organizações políticas pára-partidárias (sic) dedicadas à reprodução da dominação burguesa na sociedade capitalista. Reúnem [essas organizações] em seu seio a vanguarda dos empresários, tecno-empresários (sic), intelectuais, militares e políticos (estes com menor expressão) que se empenham em elaborar a estratégia política (em sentido lato) para garantir a viabilização (sic) prática dos interesses do grande capital na sociedade, com táticas adequadas a cada momento histórico.”

Mais adiante veio a surpresa, que aqui reproduzo para divertimento (ou desilusão definitiva) de todos. Afirmava o manifesto que “No Brasil de hoje, existe uma organização que pode ser identificada como a principal elite orgânica capitalista em atividade: o Instituto Millenium. Esta organização que se constitui como “um centro de estudos, pesquisa, divulgação e formação em assuntos públicos de governo, política, economia, sociedade e cultura, que promove os valores e princípios de uma sociedade livre – liberdade individual, direito de propriedade, economia de mercado, estado eficiente, democracia representativa, estado de direito e limites institucionais à ação do governo”, deixa claro que o objetivo dos membros do grupo é “alcançar o público formador de opinião e o público em geral para garantir que nos tornemos uma força efetiva e poderosa em nome da liberdade econômica, política e cultural. A idéia, portanto, não é apenas produzir pesquisa, mas apontar soluções consistentes com nossa visão e divulgá-las.”

Mas o ápice da emoção ainda estava por vir. Ao final do texto recomendava-se acompanhar atentamente “os movimentos realizados pelo Instituto Millenium enquanto (sic) força efetiva de organização e mobilização dos interesses do grande capital” e, para comprovar o quanto se acabara de afirmar, enunciava-se uma lista dos principais integrantes do instituto, dentre os quais figuras brilhantes como Paulo Guedes, Jorge Gerdau, Eduardo Viola, João Roberto Marinho, Pedro Henrique Mariani, Modesto Carvalhosa e outros mais, inclusive alguns de menor brilho, como eu.

Foi assim, da maneira mais inesperada possível, que descobri o privilégio de fazer parte do Millennium. É engraçado como determinadas verdades são por vezes reveladas através de fatos absolutamente corriqueiros e sem importância alguma, como o texto ao qual acabei de me referir. Adorei ser chamado de “elite da elite”. Senti-me orgulhoso ao ver meu nome ao lado de pessoas que eu admiro e respeito. Experimentei, enfim, uma enorme satisfação ao perceber que faço parte de uma elite e, mais, de uma elite verdadeiramente orgânica, que se mobiliza para mudar a triste realidade deste País, após séculos de absoluta inércia e conformismo.

Mas ao lado da satisfação que o manifesto me proporcionou veio também a descoberta, ou melhor, a comprovação de que de fato existe gente que é contra democracia, livre iniciativa, estado eficiente e liberdade individual. Existe, de fato, gente que pensa que é ruim ou criminoso ser bem-sucedido e vê o “grande capital”, como uma espécie de satanás a ser combatido.

Enfim, é curioso que, em um governo de esquerda, eleito pelas camadas menos favorecidas da população, sejam os empresários referidos como elite, até porque o termo elite vem do latim eligere, (eleger, escolher) e, nenhuma das pessoas referidas pelo comentarista exerce qualquer cargo eletivo.

Portanto, a elite da elite, no sentido pejorativo da palavra, são todos aqueles que, tendo sido escolhidos ou habilitados para desempenhar função pública, ignoram a imensa responsabilidade dos cargos que ocupam, fartando-se de benesses e privilégios de toda sorte. Nós, a quem eles chamam de elite, acordamos cedo para ganhar o pão de cada dia, trabalhamos 4 meses por ano só para pagar impostos, não recebemos em troca qualquer dos serviços essenciais, como educação, saúde e segurança, mas ainda assim persistimos na luta por acreditar que um país de verdade se faz com valores fundamentais e com muito trabalho árduo.

Termino este texto, portanto, com a mesma advertência daquele que lhe deu origem ou que lhe serviu de inspiração. Sugiro acompanhar com muito cuidado e atenção todos os movimentos da verdadeira elite, aquela escolhida pelo povo, que além de ter uma apetite insaciável por recursos públicos, não esconde sua antipatia por aqueles que trabalham.

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Os artigos assinados não traduzem a opinião do Instituto Millenium. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate sobre os valores defendidos pelo Instituto e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

  1. Talvez conheça o texto “Uma Mensagem a Garcia” (tem uma boa transcrição em http://www.stetnet.com.br/puglisi/Mensagem_a_garcia.htm). O texto faz uma oposição entre patrão e empregado (tão ao gosto de LULA), mas dessa vez defendendo o patrão:
    “Nada se diz do patrão que envelhece antes do tempo, num baldado esforço para induzir eternos desgostosos e descontentes a trabalhar conscienciosamente; nada se diz de sua longa e paciente procura de pessoal, que, no entanto, muitas vezes nada mais faz do que ‘matar o tempo’, logo que ele volta as costas.”

    Hoje, no Brasil, somente a teimosia em “acreditar que um país de verdade se faz com valores fundamentais e com muito trabalho árduo” faz com que alguém abra uma firma.

    Não há oposição entre capital e trabalho (exceto na cabeça do idiota do K Marx). Ao abrir as portas, uma firma gera postos de trabalho que serão ocupados por pessoas cujos salários movimentarão a economia. O verdadeiro opositor do povo não é a “elite empresarial”, que é quem lhe dá emprego (embora deixar o dinheiro aplicado no banco fosse mais rentável e evitaria mil problemas e dores de cabeça).

    O opositor do povo são seus eleitos, que lhe roubam de toda forma enquanto culpam o outro. São como trombadinhas que apontam um inocente enquanto lhe batem a carteira.

    Parabéns pelo texto.

    Raphael


    30-07-2009 16:48:45
  2. Sempre vai haver alguma forma de elite, mas quando a elite é pró livre mercado, capitalista e empresarial, o povo vai ser beneficiar MUITO mais do que quando a classe política é quem manda.

    O capitalista é honesto, ele quer melhorar sua condição mas ele deve entregar algo em troca, na forma de produtos e serviços úteis, não adianta só prometer e ser carismático. Empresário carismático e incompetente vai logo a falência.

    O certo é falar mal da OUTRA elite – da dobradinha entre políticos de carreira (alguns são até bem intencionados mas existem conflitos de interesse inerentes na profissão) e os capitalistas de estado (empresários que dependem de subsídios/favores), esses sim podem se beneficiar a si mesmos sem entregar NADA em troca. Uma espécie de roubo legitimado, que é aceito por todos como regra.

    Albert Ling


    30-07-2009 19:31:51
  3. “existe de fato gente que….vê o “grande capital” como uma espécie de satanás a ser combatido”. Mas, meu caro Andres, é muita gente, e em todos os países, civilizados, ou não. E tem mais, essas pessoas compõem, no Brasil, Estados Unidos, FRANÇA, ou em toda a Eurábia, grande parte dos scholars, grande parte da elite intelectual. São muito inteligentes, mas falta-lhes lucidez. Esse é um extraordinário fenômeno contemporâneo.

    claudio mafra


    31-07-2009 09:06:23

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